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ELEIÇÕES: RIO DE JANEIRO

Tarcísio Mota: Entre os golpistas da Globo e os erros estratégicos do PSOL

quarta-feira 12 de setembro| Edição do dia

O candidato do PSOL ao governo do Rio de Janeiro, o vereador e professor Tarcísio Mota, deu uma entrevista no telejornal RJ1 em 11/09, onde falou sobre alguns temas: segurança, a tragédia do Museu Nacional, sua campanha, o candidato a presidente Cabo Daciolo, a deputada Janira Rocha e, por fim, sobre educação.

A entrevista começou de forma bem cínica, quando a jornalista da Globo, a emissora que fez campanha e apoiou o golpe, que ajudou a construiu o cenário que aprovou a PEC 241, do congelamento por 20 anos do orçamento público, insinuou que a culpa pela tragédia que se abateu no Museu Nacional era da UFRJ e da gestão de seu reitor. Essa insinuação chega a ser de um cinismo sem par vindo de uma emissora que praticamente colocou no poder um governo que em um dos seus primeiros atos extinguiu o Ministério da Cultura. O que torna mais absurdo ainda essa parte da entrevista foi a jornalista, que tentou manipular dados relativos ao repasse da UFRJ para justificar a sua acusação, mascarando o fato de que no cenário de extrema constrição orçamentaria da Universidade, pouco peso tinha qualquer decisão que o reitor tomasse para salvar o Museu Nacional. Na verdade, essa tentativa espúria de colocar nas costas do reitor todo o peso de uma política em âmbito nacional merece ser denunciado como mais um ato de má-fé do jornalismo da Globo. E como se não bastasse, sugeriu que a privatização do museu seria a única solução.

O que o jornalismo da Globo não diz é que o Museu Nacional, público, além de ser uma das mais importantes instituições de pesquisa da América Latina, era também o museu mais popular do Rio de Janeiro, com quase metade do seu público constituído por por pessoas da faixa salarial de até 3 salários mínimos, além de ser um dos mais frequentados por famílias com filhos e netos. Ou seja, o Museu Nacional, uma instituição pública, aliava tanto a excelência na pesquisa como o acesso das camadas mais populares da população e das crianças a cultura.

Em seguida a polêmica deste tema, houve um desvio abrupto para o ataque a campanha de Tarcísio Mota, numa tentativa clara de desqualifica-lo, e até mesmo de tentar de alguma forma insinuar que o PSOL houvesse ferido a regulamentação eleitoral, principalmente no momento que Tarcísio admitiu que havia rodado no interior durante o período pré-eleição, mas apenas para construção de programa.

A rede Globo realizou um esforço considerável para tentar legitimar aos olhos de uma parcela significativa da população a operação lava-jato, que resultou no desmonte da Petrobrás, e no corte do orçamento para saúde e educação. Esse fato jamais poderá ser esquecido.

O PSOL como partido apresenta um sério problema que é relativa a sua estratégia de construção por fora da classe trabalhadora, e sem uma política de independência de classe, atraindo muitas vezes setores mais reacionários da sociedade. Isso ficou muito patente na segunda parte da entrevista, quando Tarcísio foi diretamente questionado sobre o cabo Daciolo e a deputada Janira Rocha. O problema maior é que o PSOL não faz um balanço crítico e prefere continuar, de uma forma ou de outra, reivindicando essas figuras. Mais do que isso, o partido continua insistindo no erro, na medida que mesmo em um período de grande violência e opressão das forças de segurança do estado, com a intervenção militar e o assassinato da vereadora Marielle, continua filiando policiais, até mesmo lançando-os com candidatos, como o caso do delegado Orlando Zaconne.

Ao falar de segurança, o candidato foi categórico ao afirmar que não irá acabar com as operações nas favelas e periferias. Um escândalo. Pois são essas operações que tiram as vidas de Marcos Vinícius, estudante de 14 anos morto com a camiseta da escola. Tarcísio seguiu repetindo a velha fórmula de substituir a lógica do enfrentamento pela lógica da inteligência, como se o problema da segurança no Rio de Janeiro fosse uma questão de “eficiência na repressão”, e não uma consequência da grave crise econômica e social que se abate sobre o estado do Rio de Janeiro, bem como da política de guerra as drogas. Ele inclusive se negou a reconhecer todas as contradições que existem nas ações da polícia, usada pelo governo como uma força paramilitar para reprimir e perseguir a própria população. O candidato foi capaz, inclusive, de sugerir um tipo de “mediação democrática” nas operações policiais:

“Uma operação da polícia na favela precisa ser seguida de um protocolo de ação que precisa ser discutido com o conjunto da sociedade. Precisamos minimizar os riscos para o policial que entra, para o morador que está lá. Política de segurança é garantir a vida, não é produzir mortes.”

Primeiro é absurdo que no estado sob intervenção federal, em que só nesse ano a polícia matou oficialmente mais de 105% em relação ao ano anterior, Tarcísio compare o que sofre o povo negro e pobre nas favelas, com a sofrida pelos policiais. Será que é possível em um estado controlado praticamente a força por uma elite financeira-empresarial voraz, a voz do morador do morro ter o mesmo peso da voz de quem clama por sangue na mídia? Ao buscar se colocar como viável eleitoralmente mostrando-se como moderado, o PSOL dá uma guinada rumo ao fisiológico centro da política, deixando a esquerda de lado. E em nenhum momento da entrevista Tarcísio pediu justiça por Marielle, assassinada já durante a intervenção militar, há seis meses de sua morte que escandaliza todos os meios internacionais por não ter nenhuma resposta até hoje.

Nenhuma solução séria para a questão da violência do Rio de Janeiro pode prescindir de discutir duas coisas: a legalização das drogas, e sua produção estatal, além de medidas econômicas que realmente tenham peso para tirar a população da sua atual situação de miséria, a luta pela Petrobrás 100% estatal e sobre controle dos trabalhadores.

Em relação à Educação, o jornalista reproduziu o discurso oficial da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, que cinicamente também culpa a greve de professores de 2016 pelo que chama de “queda no desempenho dos alunos”. Ocorre que essa descrição já corresponde a narrativa do Banco Mundial e seu projeto neoliberal para a educação: a escola como uma “fábrica”, com uma alta produtividade de mão de obra barata para o mercado de trabalho, numa perversa inversão onde o professor é cobrado por aprovação. O mesmo jornalista trouxe o exemplo de Macapá, onde a prefeitura que era do PSOL agiu contra os grevistas. Este é um caso exemplar da fragilidade da estratégia do PSOL: ao se construir sem uma política de independência de classe, que prepare os trabalhadores para lutar contra o capitalismo, termina se propondo a gerir o Estado para o capital, com um “governo de esquerda”. Internacionalmente já temos vários exemplos, como o Syriza e o PODEMOS, de onde isso leva em uma situação de crise como a que vivemos hoje: a atacar e aplicar os ajustes. Por mais que o então prefeito de Macapá tenha saído do partido, recebeu o impulso do PSOL para chegar a prefeitura. Da mesma forma, o cabo Daciolo tornou-se deputado federal pelo partido, antes de ser expulso. Ao invés de hoje seguir reivindicando, o mínimo coerente para o PSOL seria fazer um balanço crítico, não apenas do fato de terem organizado os dois indivíduos em questão, mas de toda a estratégia que está por trás disso. Mas isso não parece ser a prática desse partido, e tampouco o programa defendido por ele. Quantos Daciolos mais estão entrando no PSOL nesse momento com sua política de filiar policiais?

Nós do Esquerda Diário denunciamos o autoritarismo judiciário, e chamamos a todos para fortalecer uma esquerda anticapitalista que aposta na mobilização independente dos trabalhadores, das mulheres, dos negros e da juventude contra o golpismo e a extrema-direita para que os capitalistas paguem pela crise.




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