Cultura

TERRA EM TRANSE: atualidade estética e política do filme de Glauber Rocha

Afonso Machado

Campinas

quarta-feira 24 de outubro| Edição do dia

Nos momentos finais do filme Terra em Transe (1967) o personagem Porfírio Diaz, magistralmente interpretado pelo ator Paulo Autran, diz: “ Aprenderão! Aprenderão! Dominarei esta terra. Botarei estas histéricas tradições em ordem. Pela força! Pelo amor da força! Pela harmonia universal dos infernos, chegaremos a uma civilização !". Na cena, a composição do delírio da extrema direita brasileira propicia um perturbador efeito onírico. Ao revermos esta que é uma das obras mais polêmicas do cineasta Glauber Rocha, acabamos por sentir um frio na espinha: existem semelhanças macabras entre os contextos políticos de 1967 e 2018. Nos dias que correm observamos demonstrações cotidianas de brutalidade em que o amor da força, a agressão gratuita e o desejo de calar pautam as práticas políticas de perigosos setores da classe média identificados com o militarismo.

Sem dúvida o anacronismo é o grande pecado quando decidimos comparar épocas distintas. Entretanto, a natureza alegórica do filme de Glauber permite a partir da montagem entre diferentes componentes visuais, entre diferentes imagens históricas, realizarmos reflexões críticas que não se restringem apenas ao Brasil da ditadura militar: o pensamento alegórico de Glauber Rocha proporciona também associações históricas com os nossos dias. Não é pra menos! No carnavalizado ambiente político do imaginário território de Eldorado, encontramos a horrenda figura de Porfírio Diaz empunhando uma cruz, uma pistola, uma bandeira, fazendo um discurso raivoso contra as massas, contra a esquerda. Esperem aí! Será que estamos dentro de uma refilmagem do filme Terra em Transe? Afinal de contas encontramos por aí os mesmos discursos que recorrendo a Deus, à família e à propriedade combatem com instrumentos moralistas as ideias de esquerda.

No filme o personagem Paulo Martins, intelectual de esquerda para quem a poesia e a política são demais para um homem só, experimenta um louco drama barroco em que ocorre a desconstrução do teatro populista da esquerda. O que assistimos segundo a radicalização metafórica de Terra em Transe, são os erros políticos da esquerda e os bastidores repressivos que culminam no Golpe de 64. É precisamente a opção política pelo imperialismo, a reafirmação da burguesia em seu amor declarado pelo capital externo norte americano, que explicam a ditadura militar.

Somente na cabeça da esquerda nacionalista da época, a burguesia brasileira iria sustentar uma invisível aliança com o proletariado para se opor aos interesses imperialistas: a burguesia brasileira dependeu e depende do imperialismo. Durante os primeiros anos da ditadura militar, antes do fatídico Ato Institucional Número 05 em 13 de dezembro de 1968, a arte brasileira soube resistir e rebelar-se contra o autoritarismo do novo regime. Foi inclusive no ano de 1967 que, além do filme de Glauber, observamos também à montagem teatral que o grupo Oficina realiza da peça O Rei da Vela(escrita por Oswald de Andrade em 1933), a antiarte de Hélio Oiticica e as antropofágicas composições musicais de Caetano Veloso e Gilberto Gil; sem contar todo o esforço de resistência política presente em outras alas da MPB, do teatro, das artes visuais etc. Estes fatos são conhecidíssimos entre aqueles que estão familiarizados com os debates estéticos dos anos de 1960 no Brasil e não há porque repeti-los aqui. O problema atual em relação ao referido legado artístico é outro: existe hoje uma gente raivosa que está sempre pronta a espumar contra a arte da década de 60 e contra toda e qualquer manifestação libertária e de crítica social.

O que presenciamos hoje nas redes sociais e nas ruas é a criminalização da crítica de esquerda. As consequências políticas disso podem ser sentidas pelos verdadeiros artistas, ou seja, aqueles produtores que sentem a necessidade de protestar e contribuir com a transformação da sociedade brasileira. Todavia não é hora de baixar o tom de voz. É o próprio Glauber Rocha que afirmou: “ A arte não é só talento, mas sobretudo coragem “. Neste fim de ano os artistas devem expor sua coragem para dizer o que pensam da realidade política ou simplesmente para experimentar o estado criativo libertário que a arte possibilita. Vamos nessa.




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