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Mundo Operário | Surtos de Covid - a realidade nos locais de trabalho

Nesse artigo reunimos uma série de dados, relatos e denúncias de como está o impacto dos surtos de covid nas fábricas e em diversos locais de trabalho das principais categorias do país.

segunda-feira 31 de janeiro | Edição do dia

"Situação é de contágios e casos enormes, peca muitas vezes pela subnotificação porque vários peão que ta sem sintomas mas a família toda pega e ele não pode testar porque pra testar tem que tar com sintomas e a pessoa vai trabalhar assintomático e transmite para outras pessoas. A situação é desesperadora porque dia a dia tem novos afastamentos e as pessoas que vão ficando tem que assumir todo o peso da produção nas costas, tendeu? A empresa nem diminui a carga horária pra poder diminuir esse impacto, pelo contrário, aumenta a carga horária com hora extra e sobrecarrega quem fica."

Relato de dentro de uma importante metalúrgica de Minas Gerais.

Desde o começo do ano estamos vendo os impactos da variante Omicron no Brasil. Estudos apontam que o Brasil tem cerca de 430 mil novos contaminados por dia e que em fevereiro podemos passar o pico dos momentos mais agudos da pandemia no ano passado. Já estamos na marca de 24,8 milhões de casos e 625 mil mortes. Todos os alertas voltaram a soar e vimos como os debates e medidas de controle vem voltando para a boca de empresários e governantes.

Entretanto, parece que não é a vida ou a saúde os critérios primordiais nesse combate. Como não poderia ser diferente, os interesses de classe aparecem aí também e ficam escancarados quando vemos medidas como a portaria aprovada na última terça feira pelo Ministério da Saúde e o Ministério do Trabalho e Previdência que reduz o tempo de afastamento de funcionários em razão da Covid-19. Segundo o texto, o período de isolamento foi alterado de 14 para 10 dias para os trabalhadores com casos confirmados, suspeitos ou que tiveram contato com pessoas com casos confirmados da doença, os períodos podem cair ainda mais quando sintomas respiratórios não se apresentam com intensidade. Ou seja, é uma medida para combater não o vírus, mas sim a "taxa de absenteísmo" do RH das empresas, o número de ausências no trabalho, que para os empresários é uma doença muito mais letal do que o vírus porque afeta sua lucratividade.

Não existem muitos dados divulgados mas do que pudemos coletar por pesquisa através dos levantamentos de sindicatos, comissões e agrupações de trabalhadores mostra que não é difícil dizer que surtos vêm se espalhando por praticamente todas as principais categorias do país.

O Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região mostram que mais de 88% dos bancários entrevistados por eles relataram casos de covid-19 ou gripe nos últimos 30 dias. Além disso cerca de 150 agências fecharam na última semana por conta da Omicron. Na construção civil cerca de 30% dos afastamento são ocasionados por sintomas gripais associados a Covid segundo a própria Câmara Brasileira da Indústria da Construção (entidade patronal). A Petrobras confirmou o resultado positivo de 1,3 mil funcionários para Covid-19, tanto em terra como nas plataformas. Em diversos aeroportos pelo país vôos foram cancelados por falta de funcionários e existem relatos de que os trabalhadores estão constantemente sendo pressionados a trabalhar doentes. No metrô de São Paulo a estimativa contabilizada pelos Sindicato de metroviários é de que mais de 2 mil metroviários já se contaminaram pela Covid. Recentemente também vimos um surto muito importante de covid no restaurante central da Universidade de São Paulo e os trabalhadores assim como o sindicato informam que surtos assim já podem estar acontecendo por toda a universidade. Desde as últimas semanas os trabalhadores do restaurante não deixaram que as chefias obrigassem eles a trabalhar nessa situação e paralisaram suas atividades, cobrando que haja testes e garantias de segurança para todos os trabalhadores. A reitoria da USP não divulga os dados de contaminação, mas no restaurante o levantamento dos trabalhadores é de que 40% do contingente está contaminado. Durante toda a pandemia 54 trabalhadores e mais de 10 professores da universidade faleceram por conta da Covid.

Em relação ao setor industrial, que os dados são trancados a 7 chaves e a ditadura patronal impõe absurdos ainda maiores de pressão e descaso, nós fizemos um levantamento de uma série de relatos e denúncias que recebemos de trabalhadores de várias fábricas pelo país contando como tem sido as últimas semanas. Por conta da perseguição das empresas não vamos divulgar o nome dos trabalhadores nem das fábricas:

"Situação é de contágios e casos enormes, peca muitas vezes pela subnotificação porque vários peão que ta sem sintomas mas a família toda pega e ele não pode testar porque pra testar tem que tar com sintomas e a pessoa vai trabalhar assintomático e transmite para outras pessoas. A situação é desesperadora porque dia a dia tem novos afastamentos e as pessoas que vão ficando tem que assumir todo o peso da produção nas costas, tendeu? A empresa nem diminui a carga horária pra poder diminuir esse impacto, pelo contrário, aumenta a carga horária com hora extra e sobrecarrega quem fica."

Relato de dentro de uma importante metalúrgica de Minas Gerais.

"O ritmo de trabalho ja vinha aumentando desde o meio do ano passado quando lançaram um projeto para aumentar a eficiência produtiva da fábrica, que levava em conta a volta das pessoas que estavam afastadas e as metas vem aumentando 1% ao mês. Hoje o contagio ta gigante e os encarregados olham feio pro pessoal que se afasta. Ficam colocando o pessoal um contra o outro, falando pra todo mundo quem se afastou de um jeito sutil que da a entender que os afastados estão fazendo corpo mole, ou se aproveitando da pandemia. A sobrecarga de trabalho ta enorme e a situação faz a galera fazer vista grossa pra própria saúde, com medo de se afastar. Até pouquíssimo tempo faziam teste direto na produção. Se voltassem a fazer agora provavelmente fecharia a fábrica, porque tem muita gente contaminada trabalhando. Tamo tendo que rodar as mesmas linhas com menos pessoas e sendo cobrado para bater as novas metas. Ta numa situação que ta comum a gente ficar sem folga e fazer muita hora extra pra cobrir o pessoal afastado e manter as metas que a empresa quer. E pra piorar a chefia ta usando toda essa situação pra passar ataques como flexibilização da escala e banco de horas."

Relato interno de uma grande indústria química da região metropolitana de Campinas.

"A situação aqui na empresa tá absurda, do começo da pandemia até agora há pouco eram 170 casos confirmados, mas nas últimas semanas pulou para 290 casos já. A fábrica tem cerca de 650 funcionários hoje em dia, então já é quase metade do pessoal que se afastou. Ano passado um trabalhador do terceiro turno faleceu de covid, e a empresa seguiu a todo vapor, inclusive aumentou sua produção com a impressão de livros didáticos para as escolas que tavam pra reabrir e as provas e vestibulares como o ENEM. Teve época que não tinha álcool em gel, que a gente tinha que comprar as máscaras do próprio bolso (eles deram 3 máscaras de pano pra cada um no começo da pandemia e só isso) e testes só passou a ter depois que o surto maior começou. Além de tudo isso a empresa tem uma política interna absurda que é que você tem que entregar os atestados 24h depois que são emitidos, então cada trabalhador que se afasta precisa ir até a empresa mesmo doente entregar o documento e assim acaba tendo contato com outros trabalhadores também. O ambulatório da empresa nesses últimos dias tá sempre lotado de gente, chega a ter fila no corredor que é uma área fechada, mal ventilada e onde circula vários outros trabalhadores no dia a dia. Mas fora isso ainda tem a postura da chefia, a empresa tá fazendo toda uma propaganda de que é responsável com a pandemia e tudo isso que tô falando já mostra que não é, mas além disso tem a chefia que pressiona as equipes a produzir cada vez mais e faz com que tenha gente que vá trabalhar doente, contaminando os outros. Esses dias ficamos sabendo de um caso de um ex chefe que tá operando máquina agora, trabalhou uma semana doente pagando de fortão, aí na semana seguinte os funcionários da máquina dele se afastaram, todo mundo contaminado... Aí pra terminar a história esse cara ainda ficava falando mal dos outros que se afastaram dizendo que tão fazendo corpo mole, que ele trabalhou de boa e é só uma gripe. Um absurdo que vem de duas coisas, a primeira é toda a influência que os bolsonaristas ainda mantém na fábrica através das mentiras do presidente, dos grupos de whatsapp e dos pastores que só ajudam a que os trabalhadores caiam no negacionismo, e a outra é a pressão que a empresa coloca nas metas de produção e faz os chefes terem essa postura expressamente irresponsável com a saúde e vida do pessoal e suas famílias."

Relato interno de um trabalhador da indústria Gráfica da região metropolitana de São Paulo

Os próximo relatos são todos de companheiros de uma importante fábrica do setor automobilístico do ABC paulista:

"Eu venho trabalhar porque ainda preciso, tá faltando só algumas parcelas do financiamento acabando eu vou embora, eu sei o que eu passei e não quero ter chance de passar de novo, todo dia quando vou almoçar ou me trocar pra ir embora vou no carro pensando se passei livre mais uma vez, porque dá medo."

(Este companheiro pegou covid na fábrica, foi parar na UTI mas conseguiu se recuperar, tendo retorno “limitado” às atividades, o que chamam de reabilitação);

"Um dos maiores absurdos no meio dessa pandemia é não ter teste no convênio médico, eu pago o convênio e não consigo fazer teste, isso ninguém vê, mas querer ficar questionando os atestados a empresa vê; nunca vi isso, eu tenho sintomas, vou ao médico, pego atestado e fulano fica pensando que é mentira, esse procedimento que as empresas estão adotando de punir quem não usa a máscara corretamente e não falar sobre os efetivos que praticamente anda sem máscara, não falar do restaurante, do vestiário, é muita hiprocrisia;"

"Nunca vi isso, fui desentupir o lavatório do ambulatório, um funcionário chegou pra falar que estava sentindo muita dor de cabeça e a mulher pediu pra ele voltar dali três horas, porque ela estava sozinha e tinha muita gente na fila, eu nunca vi isso, primeira vez na vida. Mas com esse surto, todo mundo do ambulatório deve ter pego, ela foi a única que conseguiu escapar. Olha pra nós aqui, tem gente trabalhando doente com medo de pegar atestado, tem gente trabalhando com covid porque não tá sentindo nada e não quer se afastar, a gente tá entregue, a verdade é essa."

"Pedem para que os técnicos fiquem em cima da operação para garantir a utilização correta das máscaras e higienização das mãos e ferramentas, mas não conseguem adequar um sistema de ventilação e distanciamento nos locais de mais aglomeração da empresa; querem a todo custo que sigamos um protocolo, um procedimento, uma norma, mas o básico do básico não fazem, que é garantir segurança aos trabalhadores para que eles possam de fato se cuidar. Não tivemos festas de final de ano, não tivemos recesso, não tivemos descanso, tivemos mãos sujas, tivemos acidentes, tivemos sobrecarga de trabalho e tivemos pessoas infectadas. A patronal quer aplicar advertência para quem não seguir os três pontos de prevenção: uso de máscara, higienização das mãos e distanciamento, mas cadê a penalidade para aqueles que mantém um aparelho para verificar a temperatura que não funciona? (trabalhadores da patrimonial disseram que o medidor de temperatura muitas vezes não tá funcionando, fingem tá verificando) cadê a penalidade para os que colocam a gente pra trabalhar de forma desorganizada, onde os próprios chefes pressionam os trabalhadores a trabalhar de forma insegura e sem nenhum tipo de cuidado em relação a covid? Tem trabalhador que está com a companheira infectada em casa e segue trabalhando, não tem teste, não tem condições de perder o trabalho, vejo que hoje o chão de toda fábrica mais se assemelha a um abatedouro do que qualquer outra coisa, querem apenas estipular protocolos de prevenção pra ficar em arquivo, mas na pratica, o filho chora e a mãe não vê."

Esses dados, relatos e denúncias são revoltantes e mostram como está a situação na realidade dos locais de trabalho, onde não é só nível de contágio do vírus o inimigo. É também o descaso patronal, a falta de testes, a pressão das chefias, o assédio moral e todo o cenário que pela via indireta da coerção faz com que os trabalhadores tenham que escolher arriscar perder o trabalho ou buscar proteção para sua saúde. Aqui vimos um gradativo de absurdos que vai desde as principais categorias de trabalho do país até postos extremamente precários ou altamente controlados pela via da coerção patronal, mas uma coisa é constante em todos. As empresas estão preocupadas com sua produção, sua lucratividade e por essa via buscam as medidas de manter sua mão de obra ativa, se apoiando direta ou indiretamente no negacionismo do governo federal ou nas desculpas da falta de testes e insumos que todos os governos vêm dizendo. Além disso tem outra constante em muitas das categorias do país, a presença de direções sindicais burocráticas que estão mais preocupadas com qual localização política vão estar nesse ano eleitoral (como a Força Sindical) ou como a CUT de jogar qualquer descontentamento do presente numa linha eleitoral pro futuro, apostando tudo na candidatura de Lula que já vem mostrando que está mais preocupado agradar os empresários colocando como vice um dos representantes mais anti operários da direita tradicional (Geraldo Alckmin) do que em garantir de fato um futuro digno para a classe trabalhadora.

Mas por outro lado, como vimos no artigo, dentro da Universidade de São Paulo situações parecidas vem acontecendo no restaurante central, a diferença é que a tradição de organização e luta desses trabalhadores se apresentou e eles resistem, enquanto a reitoria está só interessada em fazer de tudo para que o retorno presencial seja cumprido no prazo. A esquerda de conjunto tem que cercar essa luta de solidariedade, aglutinando forças pela via dos sindicatos combativos como o SINTUSP, centrais como a CSP Conlutas e o Pólo Socialista e Revolucionário como porte de uma política de independência de classes, exigindo que as grandes centrais sindicais voltem seus olhos para a condição dos trabalhadores na base e se ponham em movimento já.

A luta dos companheiros do bandejão é um exemplo para todas as categorias do país que estão passando por essa situação e ainda não conseguiram uma via para se organizar e responder na luta.

Veja também: "Chegou as 5:50, tossiu seco e sentou com a cabeça baixa em uma plataforma", assim funciona a indústria na pandemia

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