Sociedade

FEBRE AMARELA

Surto de febre amarela em Minas Gerais pode piorar devido lama da Vale/Samarco

O surto da febre amarela que atinge Minas Gerais trouxe novos debates acerca do crime da Vale/Samarco/BHP em Mariana e sua lama tóxica. Com 712 suspeitas doença, 109 casos confirmados e 40 mortes, 32 apenas em Minas Gerais, esse é o maior surto de febre amarela no Brasil desde 1980. E a lama tóxica das mineradoras, a destruição ambiental causada e a construção de barragens pode ser fator para esse novo pico da doença.

Flavia Valle

Professora, Minas Gerais

terça-feira 31 de janeiro de 2017| Edição do dia

Foto: Rogério Alves/TV Senado

Os focos da doença hoje concentram-se Ladainha, no Vale do Mucuri, que é o município com o maior número de casos confirmados. Cidades como Caratinga e Imbé de Minas, no Vale do Rio Doce, também estão entre as primeiras da lista de maior quantidade de casos da doença. Segundo a SES-MG, mais três municípios notificaram a ocorrência da doença: Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, Coluna e Itueta, no Rio Doce.

A localidade dos casos registrados serem atendidos pela bacia do Rio Doce ou sai proximidade pode não ser mero acaso. Para a bióloga Márcia Chame, da FioCruz,o aumento dos casos de febre amarela em Minas Gerais pode estar relacionado à tragédia de Mariana e à lama tóxica da mineração da Vale/Samarco/BHP. Segundo a bióloga, “Mudanças bruscas no ambiente provocam impacto na saúde dos animais, incluindo macacos. Com o estresse de desastres, com a falta de alimentos, eles se tornam mais suscetíveis a doenças, incluindo a febre amarela”.

Essa denúncia já vinha sendo colocada como possibilidade por ativistas de movimentos sociais como o “Movimento dos atingidos pelas Barragens”, que apontaram ano passado como a devastação poderia trazer novos picos de doenças como a dengue. Como aponta a pediatra e infectologista Aline Bentes, da rede de Médicos e Médicas Populares, “A doença fica na floresta e no início do ano chove muito, o que aumenta os casos em macacos e nos trabalhadores da agricultura. É possível inferir que o deslizamento da barragem tenha matado predadores naturais do mosquito transmissor, como os sapos. Isso faz com que aumentem os hospedeiros e que eles possam estar se aproximando das cidades por causa do desequilíbrio ecológico”.

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), apesar de ainda não haver evidências do risco de transmissão urbana da febre amarela, esse risco não pode ser excluído. Para o médico Drauzio Varella, a maior preocupação das autoridades sanitárias deve ser evitar que o surto chegue nas cidades, criando um cinturão de vacinação de quem vive no entorno das regiões afetadas ou garantindo a vacina para quem vai visitar essas regiões.

Assim, tanto a prática da mineração a serviço dos lucros das grandes empresas multinacionais quanto, e centralmente, a destruição da bacia do Rio Doce podem estar por trás da disseminação do atual surto de febre amarela. Ao contrário do que é esperado em casos assim, as empresas envolvidas em tamanho crime seguem sem nenhuma punição. O prejuízo estimado pela tragédia é de 155 bilhões de reais, a multa foi de R$1,2 bilhões, e, para piorar, foi suspensa pela justiça.

É um escândalo que a população siga dando sua vida e o meio ambiente siga sendo destruído para a garantia dos lucros de um punhado de empresários e capitalistas.

As empresas Vale/Samarco/BHP não podem continuar na impunidade pelas consequências de seu crime. Uma averiguação independente com especialistas, sindicatos de trabalhadores, associação de moradores, organizações ambientais independentes dos interesses dos governos e das mineradoras que visam proteger os lucros da mineração, poderia ajudar a esclarecer para toda população os riscos que correm e fortalecer o movimento pela punição da Vale/Samarco/BHP.




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