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Surrealismo e trotskismo: por uma arte revolucionária independente

Thayná Alves Rocha

Imagem: Alexandre Alves

Surrealismo e trotskismo: por uma arte revolucionária independente

Thayná Alves Rocha

A discussão presente neste estudo visa à análise da presença das teorias trotskistas no pensamento do movimento surrealista, que fora criado pelo poeta André Breton (1896-1966) em 1924, na França. Com isto, objetiva-se entender o impacto da leitura das obras do revolucionário Leon Trotsky (1879-1940) para a criação dos ideais e condutas surrealistas, levando até a publicação do manifesto da Federação Internacional de Arte Revolucionária Independente - FIARI, Por uma arte revolucionária independente, escrito em 1938, por Breton e Trotsky no México, oficializando a união das ideologias surrealistas e trotskistas.

TRIBUNA ABERTA

A discussão presente neste estudo visa à análise da presença das teorias trotskistas no pensamento do movimento surrealista, que fora criado pelo poeta André Breton (1896-1966) em 1924, na França. Com isto, objetiva-se entender o impacto da leitura das obras do revolucionário Leon Trotsky (1879-1940) para a criação dos ideais e condutas surrealistas, levando até a publicação do manifesto da Federação Internacional de Arte Revolucionária Independente - FIARI, Por uma arte revolucionária independente, escrito em 1938, por Breton e Trotsky no México, oficializando a união das ideologias surrealistas e trotskistas.

A pesquisa mostra que o Surrealismo possui em sua essência um ideal revolucionário que marcou suas produções, tornando-o um dos mais famosos e impactantes movimentos artísticos e literários da história. No entanto, além do que é pensado, o grupo surrealista não se limita somente à produção artística ou literária, segundo Michael Löwy, em A Estrela da Manhã: Surrealismo e marxismo (2002), o Surrealismo é “mais propriamente um movimento de revolta do espírito e uma tentativa eminentemente subversiva de re-encantamento do mundo” (2002, p. 9). É, neste sentido, que os ideais surrealistas alinham-se às teorias revolucionárias durante sua trajetória, perpassando pelo marxismo, trotskismo e até mesmo anarquismo.

A proposta de re-encantamento do mundo se fez devido à situação enfrentada pelos países naquele período, como por exemplo, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e tantos outros conflitos ocorridos, que afetaram diretamente a sociedade, causando o medo, a tristeza e a desesperança. Eric Hobsbawm expressa o contexto em sua obra Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991) (2014). A partir deste cenário, diversos grupos de artistas e intelectuais buscaram novas formas para observar e entender o mundo, fazendo uso da linguagem como meio de resistência e esperança dentro da realidade vivida por eles, vale dizer que é neste momento que surge o Surrealismo.

Nota-se o desejo revolucionário surrealista a partir da escrita dos manifestos publicados pelos mesmos na revista do grupo, nomeada La Révolution Surréaliste, sendo o primeiro manifesto publicado em 1925 e o segundo, em 1929, no último número do periódico.

É perceptível, no primeiro manifesto, a presença da psicanálise freudiana como colaboradora principal da libertação individual, isso se daria a partir da exploração do inconsciente humano. Breton explica que a imaginação é um local inacessível pelos padrões e normas impostas pela moral burguesa, logo, as pessoas seriam livres ou alcançariam a liberdade ao potencializar a imaginação, transcendendo os desejos primitivos que eram reprimidos pelo tradicionalismo e conservadorismo burguês.

A liberdade era o que conduzia a ideologia do grupo, visavam lutar contra o convencionalismo, a tradição e os valores da cultura ocidental a partir do uso da linguagem. Neste sentido, a partir de 1924, os surrealistas se vinculam ao Partido Comunista Francês - PCF. Época nada pacífica para o grupo, que sofreu com diversas repressões pelo Partido – que era dominado pela política stalinista –, além das diversas rupturas e conflitos entre os próprios membros do movimento.

Acarretou-se, com a divergência às ideologias e outros problemas que os surrealistas enfrentaram com as atividades que lhes eram designadas, a saída oficial do Partido. Foi neste momento que Breton aproximou-se mais fortemente das posições de Leon Trotsky, e da Oposição de Esquerda. Logo, mesmo com a filiação dos surrealistas ao Partido Comunista e à Assembleia dos Escritores e Artistas Revolucionários - AEAR – que descreviam Trotsky um traidor à Revolução de Outubro – é possível encontrar textos dos surrealistas, principalmente de André Breton, defesa a Trotsky e seus ideais para a revolução social.

O impacto do trotskismo no Surrealismo se deu a partir da influência das obras do revolucionário Leon Trotsky. O interesse de Breton por Trotsky surgiu através da leitura do texto intitulado Lenin. O criador do Surrealismo, admirado pela obra, escreve uma resenha crítica e a publica em La Révolution Surréaliste, em 1925. O texto é finalizado com uma saudação ao grande líder do Exército Vermelho. Posteriormente, sua admiração e interesse pela obra e a figura do revolucionário russo crescem cada vez mais, influenciando diretamente nas condutas do Surrealismo.

Enveredando-se pela História da Leitura, a partir de Roger Chartier (1992), pode-se entender a importância do ler na vida das pessoas. A leitura se dá como prática social, da qual podemos entender as construções e pensamentos de determinados grupos. Isto é, é possível dialogar sobre as necessidades, desejos e hábitos de grupos sociais, a partir da compreensão dos tipos literários que por eles eram consumidos. Com isso, o autor buscou discutir em seu trabalho como a prática da leitura implica nos significados que aquele que lê elabora sobre o texto lido, focando no processo de apropriação do leitor sobre os textos, enfatizando as relações entre o significado do texto atribuído por aquele que o desenvolveu e por seus leitores.

Neste sentido, observa-se no Surrealismo, sobretudo, em André Breton a grande influência literária em suas condutas, ou seja, com o interesse em Leon Trotsky, o pai do Surrealismo passa a consumir diversos artigos e livros produzidos pelo revolucionário russo, passando a atribuir para si e para o movimento que conduzia as ideologias presentes nas leituras feitas. Obras como Lenin, Revolução Permanente e Literatura e Revolução foram as mais impactantes desse processo.

Os surrealistas romperam completamente com o Partido Comunista Francês em 1935, em oposição às suas práticas, que tinham ligação com a política stalinista. Löwy (2002) relata que o rompimento com o Partido Comunista, não foi um rompimento com as ideais revolucionárias, muito menos com os ideais marxistas, mas sim com “o oportunismo de Stalin” (2002, p. 34), que ao implantar o socialismo em um único país, desligou-se totalmente das aspirações revolucionárias da Revolução Russa, logo, afastou-se das diretrizes marxistas. Pode-se analisar esta afirmação através do texto Revolução Permanente, onde Trotsky (1979) afirma que:

A revolução socialista começa no âmbito nacional, mas ele não pode permanecer. A revolução proletária não pode ser mantida em limites nacionais senão sob a forma de um regime transitório, mesmo que este dure muito tempo, como demonstra o exemplo da União Soviética. No caso de existir uma ditadura proletária isolada, as contradições internas e externas aumentam inevitavelmente e ao mesmo passo que os êxitos. Se o Estado proletário continuar isolado, ele, ao cabo, sucumbirá vítima dessas contradições. Sua salvação reside unicamente na vitória do proletariado dos países avançados. Deste ponto de vista, a revolução nacional não constitui fim em si, apenas representa um elo da cadeia internacional. A revolução internacional, a despeito de seus recuos e refluxos provisórios, representa um processo permanente. (1979, p. 24-25).

A luta do pai do Surrealismo contra as ordens burguesas e tiranias existentes no mundo naquele cenário, enfatizando a censura cometida pelo regime stalinista na URSS, é marcada pelo pensamento trotskista, com a Teoria da Revolução Permanente.

Entende-se que a aproximação de Breton com Trotsky se dá a partir de uma necessidade histórica e a consequência de uma longa evolução política dentro do Surrealismo. Como já referenciado, os surrealistas e André Breton opuseram-se, desde o começo da década de 1930, às atitudes tomadas pelo Partido Comunista e pela Internacional Comunista, sendo oposição à proposta imposta pelos teóricos da AEAR e da Associação Russa dos Escritores Proletários - AREP, sustentando seus argumentos baseando-se nas teorias de Trotsky referente ao que este defendia em Literatura e Revolução. Em 1934, Breton e seus companheiros defendem abertamente Trotsky, em um panfleto nomeado de Planeta sem Passaporte, quando o revolucionário é expulso da França.

Os surrealistas tinham como objetivo a contribuição para a promoção do proletariado e de sua revolução, que deveria destruir a sociedade capitalista. O que consistia em convencer as organizações de esquerda de que a arte revolucionária não deveria ser uma arte de propaganda (comum à URSS), mas sim, a arte que pudesse liberar, de toda forma, os verdadeiros sentimentos humanos. Ao escrever o livro Position politique du Surréalisme, em 1935, Breton declara sua posição perante a necessidade de liberação da arte, sendo que esta deveria permanecer desligada de qualquer espécie de finalidades práticas, pois ela perderia seus verdadeiros significados. Esta declaração tomaria mais força quando Breton escreveria ao lado de Trotsky, o manifesto Por uma arte revolucionária independente, em 1938.

Analisando a carta nomeada Pela liberdade da arte, Trotsky escreve a Breton:

A luta pelas ideias da revolução na arte deve começar novamente pela luta pela verdade artística, não no sentido de tal ou tal escola, mas no sentido da fidelidade inabalável do artista a seu interior. Sem isso não há arte. “Não mentirás”, essa é a fórmula da salvação [...] A FIARI, evidentemente, não é e não pode tornar-se uma escola estética ou política. Mas a FIARI pode arejar a atmosfera em que os artistas têm que respirar e criar. A criação verdadeiramente independente em nossa época de reação convulsiva, de declínio cultural e retorno à selvageria não pode deixar de ser revolucionária pelo seu próprio espírito, pois não pode procurar uma saída para uma intolerável sufocação social. Mas que a arte, no seu conjunto, que cada artista, em particular, procurem essa saída por seus próprios meios, sem esperar alguma ordem do exterior, sem tolerar e rejeitando-a e cobrindo de desprezo todos os que se submetem a ela. (TROTSKY, 1938 apud FACIOLI, 1985, p. 49).

A criação da FIARI foi o ápice da luta em que Breton empenhara-se, a partir dela foi produzido por ele, Trotsky e Diego Rivera, o manifesto Por uma Arte Revolucionária Independente. Este manifesto pode ser considerado o documento mais importante para a comprovação da união do Surrealismo e do trotskismo, alinhando-se os ideais de luta, resistência e revolução social, com a busca pela emancipação do homem através da arte e da poesia, ideias que Breton sempre enfatizou em seus textos e declarações acerca do movimento que esteve à frente.

Com isto, o Manifesto da FIARI declara:

Reconhecemos, é claro, ao Estado revolucionário o direito de defender-se contra a reação burguesa agressiva, mesmo quando se cobre com a bandeira da ciência ou da arte. Mas entre essas medidas impostas e temporárias de autodefesa revolucionária e a pretensão de exercer um comando sobre a criação intelectual da sociedade, há um abismo. Se, para o desenvolvimento das forças produtivas materiais, cabe à revolução erigir um regime socialista de plano centralizado, para a criação intelectual ela deve, desde o começo, estabelecer e assegurar um regime anarquista de liberdade individual. Nenhuma autoridade, nenhuma coação, nem o menor traço de comando! [...] consideramos que a tarefa suprema da arte em nossa época é participar consciente e ativamente da preparação da revolução. (BRETON; TROTSKY, 1938 apud FACIOLI, 1985, p. 42-43).

O manifesto aborda diversas questões relacionadas às críticas sobre a censura artística e literária na URSS, temática debatida pelo próprio Trotsky em sua obra Literatura e Revolução. Tanto para Trotsky, como para Breton, a arte é necessariamente emoção, que exige daquele que a produz a sinceridade total. Neste contexto, há um desejo de unir, sugerem no manifesto, os marxistas e anarquistas, para a luta contra qualquer tipo de política reacionária, "a arte revolucionária independente deve unir-se para a luta contra as perseguições reacionárias e proclamar bem alto seu direito à existência" (BRETON; TROTSKY, 1938 apud FACIOLI, 1985, p. 45).

Durante muitos anos, Breton defendeu, em relação à produção artística, o direito daquele que produz de dispor de suas particularidades, sem necessidade de uma ordem para produzir, vale dizer, sem obtenção de lucro. Mesmo em sua trajetória dentro do Partido Comunista Francês, ele combateu de frente as propostas do realismo-socialista, no interior da própria AEAR. De modo que pudesse preservar a integridade da pesquisa artística.

Através dos estudos desenvolvidos para a produção da então pesquisa, corrobora-se a importância de estudar as teorias e discursos presentes em diversos movimentos sociais, inclusive sobre aqueles que fazem uso da arte e da literatura. A partir disto, pode-se entender que abordar o Surrealismo é trazer um debate teórico relevante para a discussão sobre o papel da arte contemporânea, bem como uma análise sobre o comportamento social, compreendendo que a arte, para além de sua estética, dialoga com as necessidades e lutas de diversos movimentos sociais, que buscaram e buscam sair da marginalização e lutar contra censuras que lhes é imposta por grupos que são favorecidos pelos sistemas sociais, políticos e econômicos existentes em diversos contextos históricos.

Breton e Trotsky finalizam seu manifesto afirmando a necessidade da independência da arte para a revolução social no sentido dialético; e a revolução, para a liberação definitiva da arte. Deixando clara a importância da existência da total licença para a arte, exceto contra a revolução proletária, possuindo a total liberdade individual, sem nenhuma autoridade, sendo assim, “[...] a tarefa suprema da arte em nossa época é participar consciente e ativamente da preparação da revolução” (BRETON; TROTSKY, 1938 apud FACIOLI, 1985, p. 43).

REFERÊNCIAS

BRETON, André. Manifestos do Surrealismo. São Paulo: Brasiliense, 1985.

BRETON, André. Leon Trotsky: Lenin. La Revolution Surréaliste, Paris, n. 5, p. 29, out. 1925.

CHARTIER, Roger. Textos, impressão, leituras. In: HUNT, Lynn (org). A Nova História Cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992. cap. 6, p. 211-228.

COUTO, José Geraldo. André Breton. São Paulo: Brasiliense, 1984.

FACIOLI, Valentin (org). Por uma arte revolucionária independente. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

HUNT, E.K.; SHERMAN, Howard J.. As Doutrinas Socialistas: a Teoria Econômica de Marx. In:__. História do pensamento econômico. Petrópolis: Editora Vozes, 2005. cap. 6, p. 91-106.

LÖWY, Michael. A Estrela da Manhã: Surrealismo e Marxismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

TROTSKY, Leon. Revolução Permanente. São Paulo: Ciências Humanas LTDA, 1979.

TROTSKY, Leon. Literatura e Revolução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

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Thayná Alves Rocha

Licenciada em História pela Universidade Santo Amaro – UNISA, São Paulo (2017). Pesquisadora membro do Grupo de Pesquisa Ciência, Saúde, Gênero e Sentimento – CISGES/UNISA/CNPq. E-mail: [email protected]
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