Cultura

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Superman entre a foice e o martelo: uma leitura crítica da concepção stalinista de comunismo

Kleiton Nogueira

Doutorando em Ciências Sociais (PPGCS-UFCG)

segunda-feira 13 de janeiro| Edição do dia

O universo dos quadrinhos sem dúvida alguma é um ótimo estímulo à leitura e ao aguçamento de nossa capacidade crítica. Além dessas propriedades, também podem ser utilizados como recurso didático na sala de aula nas mais variadas faixas etárias. Dentro desse contexto, podemos pensar essas produções como um amplo campo de exercício da criatividade humana desde o roteiro até os traços dos desenhos e estilos próprios dos artistas, que nos convidam a mergulhar em Universos Místicos e alternativos, sem deixar de tratar de temáticas reais e contemporâneas.

A composição e mescla artística e estética entre roteiro de filme, desenhos e traços singulares nos leva a pensar sobre a capacidade informativa dessas obras no que diz respeito à própria materialidade da vida humana, seus dilemas, políticas e por que não dizer da própria luta de classes. Todos esses pontos estimulam nosso raciocínio sobre realidades paralelas com o famoso “e se fosse de outra forma”, que ganha um aspecto material nas mãos dos quadrinistas.

Uma dessas genialidades é expressa na obra: Superman entre a foice e o martelo, criação do roteirista escocês Mark Millar juntamente com a composição artística de Paul Mounts. A obra foca em um dos personagens mais conhecidos do universo das histórias em quadrinhos: o Superman. Contudo, Millar, fora do lugar comum, pensou no seguinte cenário para o conhecido personagem, símbolo do poderio estadunidense: o que poderia ocorrer se o superman tivesse sido criado na União Soviética? É dentro desse cenário que Millar passa a construir uma história instigante, de um universo que retoma pontos de reflexão acerca do stalinismo, regime burocrático soviético, e certa ideia deturpada do real significado do comunismo, que até os diais atuais tendem a ser reproduzidas pelos saudosistas de Stálin. De modo a mesclar elementos e versões alternativas de personagens conhecidos como a Mulher Maravilha, Lex Luthor e figuras políticas como o próprio Stalin e John Kennedy, Millar consegue transpor para o papel a noção de embates políticos e dilemas éticos expressos, sobretudo, pela figura de um Superman soviético e dedicado à causa socialista.

Ao invés de termos a aterrissagem na nave que levaria o superman do seu planeta natal Krypton até o estado do Kansas nos Estados Unidos, temos essa realidade transposta para uma fazenda coletiva na Ucrânia, elemento que por si já nos traz insights de como a história vai se desenvolver. Por uma questão de fuso horário e de rotação do planeta terra a Ucrânia acabou virando o berço de um dos mais poderosos personagens dos quadrinhos. Essa questão também nos remete a todo o processo cultural e de formação econômica social daquele país, que ao fazer parte da União Soviética, foi peça conjuntiva na personalidade do personagem, que passa a prezar os valores socialistas. Ao invés do super-herói estadunidense a obra nos traz um personagem que materializa os ideias soviéticos da época, em uma luta incessante para a defesa dos interesses postos por Stalin no pacto de Varsóvia.

Desse modo, podemos subdividir a obra em três grandes focos de atuação do superman: Uma primeira que nos remete a década de 1950, no conhecido processo da guerra-fria, da corrida armamentista e espacial engendrada pelos Estados Unidos e pela União Soviética. O surgimento do Superman nessa ocasião contrabalança essa disputa, uma vez que para além da capacidade de produção humana, um elemento super-humano era posto em jogo. Essa primeira parte demonstra a própria noção de devoção à degeneração burocrática soviética. Aqui vemos um dos aspectos fortes do stalinismo, a ideia de uma casta burocrática ditando e planejando de forma autoritária e violenta os rumos do proletariado. Apesar de ser devoto à figura quase que paterna de Stalin, e se apresentar de forma honesta e justa, Superman não economiza ações em busca de ajudar a raça humana, independente de país ou sistema ideológico de dominação, como bem demonstra o quadrinho. Contudo, o enredo elaborado por Millar também apresenta um super-herói acrítico, especificamente quando passamos a refletir sobre os rumos que a burocracia dera a revolução Russa de 1917. É interessante observamos que os valores existentes acerca do proletariado aparecem quase como uma miragem, uma pintura posta na parede apenas como um mantra a ser utilizado sem expressar nenhum significado além daquele associado à manutenção da casta burocrática. Nesse sentido, a construção do personagem se da mais como uma "vanguarda" à frente dos interesses das classes trabalhadoras e camponesas, sem uma conexão significativa, tanto é que em poucos momentos a figura da classe trabalhadora surge no quadrinho de forma incisiva.

O segundo momento podemos resumir com a constante necessidade do governo dos Estados Unidos em destruir Superman. Nessa ocasião temos a presença de personagens já conhecidos como Lex Luthor - casado com ninguém menos que Louis “Luthor” - encarregado de agir para a criação de formas de superar e destruir o superman. A história segue esse fio condutor, criando situações e dilemas para o homem de aço, que ao ser chamado para liderar a União Soviética tenta expandir o socialismo pelo mundo através do diálogo e de uma visão burocrática, sem revolução e por consequência, sem participação das classes subalternas. Cabe salientar que, além de possuir forças superior a dos humanos, a inteligência do superman também é aguçada, fazendo com que os meios e as forças produtivas avancem, mesmo que sem participação do proletariado na sua concepção, a tal ponto de determinadas doenças como AIDS ficassem apenas nos livros de história desse universo criado por Millar.

Contudo, a ideia de um líder universal e sobre-humano que veio para resolver os problemas da humanidade são elementos fortes do nosso herói quase messiânico. Esse fato começa a chamar atenção de outros personagens como o próprio Batman, que ao assumir uma posição anarquista, aparece no enredo com características fidedignas ao seu personagem das histórias da DC: com um senso crítico a respeito do papel desempenhado pelo Superman na condução da humanidade, e como um grande estrategista e um dos poucos que consegue encarar o homem de aço soviético. Nesse mundo criado por Millar, não encontramos intervenção da União Soviética na Alemanha Oriental, muita menos na Hungria, Checoslováquia e Afeganistão. A prosperidade fluiu de forma pacífica com a liderança do Superman e com ajuda da Mulher Maravilha, que se apresenta como admiradora do líder soviético e sempre disposta a ajudar no seu plano de expansão do socialismo pelo mundo. É curioso observamos que na obra, o presidente Kennedy é quem fica vivo, sendo Nixon que vem a ser assassinado por um atentado no Texas em 1963. Em meio a esse processo de expansão socialista, há algumas barreiras representadas pelos únicos dois países que ainda continuaram com sistemas capitalistas, Estados Unidos e Chile.

Todavia, a situação dos Estados Unidos é de caos, elementos de aposta do Superman, que procurava uma via pacífica para a totalização de seu plano: tornar o mundo socialista sem a perspectiva da Revolução Permanente, mas a partir do corolário da adesão e de uma perspectiva burocrática. Aos poucos, com os próprios avanços e a resistência desses dois países, passamos a ver um herói que lobomotiza aqueles que não concordam com o seu regime, criado assim, espécies de homens e mulheres obedientes que não saem da linha do regime - qualquer alusão ao stalinismo não é mera coincidência -. Assim como a obra: 1984, do escritor britânico George Orwell, o Superman se torna o grande irmão, que tudo escuta e tudo sabe. Embora os Estados Unidos tivessem praticamente perdido o jogo, Lex Luthor mais uma vez tenta através de sua capacidade de raciocínio, montar uma estratégia em conjunto com o Batman, que em seu âmago, reprova o senso de direção promovido pelo Superman. Embora a estratégia apelasse para elementos afetivos, o plano não ocorre como o planejado e o Superman com a ajuda da Mulher Maravilha consegue se salvar.

No terceiro ato da trama vamos observar mais uma vez Lex Luthor tentando destruir o superman, o ano já é o de 2001, a União Soviética consegue expandir sua hegemonia ao globo, excetuando-se novamente o Chile e algumas áreas dos Estados Unidos, que passaram por uma guerra civil em 1986. Mesmo com esse poderio, Superman se recusa a utilizar um via invasiva, procurando sempre o diálogo e o convencimento aos países restantes de que o socialismo é o melhor caminho para a humanidade. Embora os Estados Unidos ainda sofressem com essa hegemonia, Lex Luthor acaba se tornando presidente, sucedendo o economista Milton Friedman, após uma gestão insatisfatória que culminou em convulsão social. Uma vez no poder, Luthor utiliza de medidas luthorianas – uma clara alusão as macropolíticas keynesianas baseadas na intervenção estatal e no controle monetário para retomar o poderio econômico estadunidense, aquecendo o mercado interno através do consumo e do pleno emprego, marcando assim a retomada para o final do terceiro ato e o desfecho da obra, que de forma honesta com o leitor, procuraremos não informar como um estímulo à leitura e apreciação da obra.

O fato é que, apesar de ser uma história em quadrinhos, o universo criado por Mark Millar é apresentado de forma curiosa, a cada página somos convidados a nos aprofundarmos na leitura de temas e conhecermos mais da história do Socialismo e do comunismo, bem como, da própria revolução Russa de 1917, e do processo de degeneração do Estado proletário realizado pelo Stalinismo. Certamente que, se o leitor possuir uma visão mais crítica a respeito desses temas poderá fazer conexões e leituras sobre a realidade, especificamente quando nos referimos ao saudosismo expresso por stalinistas inrrustidos conforme matéria escrita por Seiji Seron no Semanário do Esquerda Diário do dia 8 de Dezembro de 2019, que poderá ser acessado aqui.

Mesmo com uma determinada visão do processo histórico concreto que se passou na União Soviética e pelo desfecho da HQ, Millar consegue nos estimular a pensarmos sobre o que representou a burocracia stalinista, seja pela lente de um super-herói de um universo inventado, ou através dos diálogos, expressões e cosmovisão de mundo que o superman constrói de si e do comunismo. Aqui, a classe trabalhadora é simplesmente vista como uma massa de manobra, não sendo o sujeito histórico do processo revolucionário, ao aparecer como um ator messiânico, Superman alude a ilusão de uma casta burocrática que se pretende ser vanguarda no processo revolucionário, sem, contudo, manter uma verdadeira e material conexão com os interesses do proletariado.

Gostaríamos de apontar que, contrária a uma visão determinista, etapista e conciliatória que tanto organizou derrotas para a classe trabalhadora, e que agiu com voracidade e desvirtuamento da realidade através de mentiras e assassinatos como o sofrido pelo revolucionário Leon Trotsky em 21 de Agosto de 1940, o legado stalinista não oferece nenhum valor construtivo a luta das trabalhadoras e dos trabalhadores, seja pela sua incapacidade de leitura da realidade e da luta de classes, ou pelas estratégias conciliatórias e oportunistas que redundam em derrotas e na manutenção de castas políticas que não contribuem para o processo revolucionário.

A leitura da obra Superman entre a foice e o martelo acaba sendo interessante para pensarmos esses elementos e conhecermos mais sobre o universo do mundo dos quadrinhos, nos estimulando também a procurarmos aprender mais sobre o comunismo para não o confundi-lo com stalinismo conforme comumente observamos nos espaços das redes sociais.




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