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SUICÍDIOS

Suicídios aumenta 12% em 4 anos no Brasil, governo responde com demagogia

Fernando Pardal

@fepardal

quinta-feira 21 de setembro| Edição do dia

O número de mortes por suicídios no Brasil aumentou 12% em quatro anos. Em 2015, foram 11.736 notificações ante 10.490 registradas em 2011. A diretora do departamento de Doenças e Agravos Não Transmissíveis do Ministério da Saúde, Fátima Marinho, atribui em parte os indicadores à melhora nos registros e ao aumento da população, mas reconhece que o avanço do problema no País é um fato que precisa ser combatido.

"Assumimos na Organização Mundial da Saúde o compromisso de reduzir em 10% o número de casos até 2020. Para alcançar essa meta, precisamos agir de forma rápida e, sobretudo, nas áreas que indicam maior risco", afirmou Fátima.

A declaração de que os aumentos nos dados se devem à "melhora nos registros" é puro cinismo: o aumento nas taxas de suicídio, particularmente em jovens, é uma questão de imensa gravidade que assola o mundo. Ela vem acompanhada do imenso aumento em índices de enfermidades psíquicas, que só no Brasil, levaram a 199 mil afastamentos do trabalho em 2016 (imagine se somarmos os que não conseguiram o afastamento mesmo precisando). Entre os anos de 2009 e 2015, aproximadamente 97 mil pessoas foram aposentadas por invalidez em decorrência das doenças psíquicas no país. Assim, dizer que é uma "melhora nas estatísticas" é uma mentira deslavada e criminosa.

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Segundo Fátima Marinho, entre as medidas que deverão ser colocadas em prática está o aumento de Centros de Atenção Psicossocial em regiões onde os índices de suicídio são considerados mais altos e melhora dos fluxos de serviços de saúde para prevenção do problema. A demagogia dessas declarações fica clara quando lembramos que recentemente o Coordenador de Saúde Mental do governo criticou a falta de transparência nos CAPS e defendeu o aumento de vagas nos hospitais psiquiátricos, numa clara reivindicação do modelo manicomial de atendimento.

Além disso, Fátima afirmou que novos estudos deverão ser realizados para identificar as possíveis causas para o aumento de casos em determinadas regiões do país e ações específicas para populações indígenas, onde casos também ocorrem com maior frequência. Aí a hipocrisia torna-se ainda mais gritante. Os índices absurdamente altos de suicídio entre os indígenas são a brutal marca da perseguição que sofrem por parte dos latifundiários e do Estado, e, se esse ataque aos seus direitos já batia recordes nos governos petistas, podemos dizer que se agravaram imensamente após o golpe, passando pela luta dos Guarani do Jaraguá pelo direito às suas terras, o ataque a reservas, o avanço da PEC 215, entre tantos outros.

Dados de Boletim Epidemiológico lançado nesta quinta-feira, 21, deixam claro problemas de atendimento. Das mortes por suicídio entre 2011 e 2016, 31,3% ocorreram entre mulheres que já haviam tentado outras vezes. No grupo masculino, o porcentual é menor, mas também expressivo: 26,4%.

"Aqui nós percebemos a falha. Não agimos para evitar uma segunda tentativa", alerta Fátima. Essa demagogia está permanentemente contornando o fato de que as causas do suicídio são, em grande maioria, perpetuadas por política do governo. Os ataques a direitos sociais, como vimos no auge da crise grega, são um fator de grande agravamento no número de suicídios de pessoas que se encontram em becos sem saída da miséria e desemprego causados pelos capitalistas e seus governos.

No caso das mulheres, a maior parte das tentativas de suicídio está relacionada à violência intradomiciliar. "Os números reforçam a necessidade de trabalharmos na prevenção contra a violência, uma causa importante para a mortalidade feminina: seja o feminicídio, seja o suicídio." No entanto, sequer a educação sobre as questões de gênero é permitida nas escolas, e vemos que essa "prevenção" é mais uma vez palavras ao vento.

Das tentativas de suicídio registradas no País no período entre 2011-2016, 69% ocorreram entre mulheres. Quando se analisam os números de morte provocadas por suicídio, no entanto, a situação se inverte: 21% ocorreram entre mulheres e 79%, entre homens.

Também preocupa o Ministério da Saúde o avanço da suicídio entre jovens. Essa é a quarta causa de morte de brasileiros entre 15 a 29 anos. No mundo, o suicídio é a segunda causa entre essa população. Isso não significa, no entanto, que o Brasil esteja em uma situação melhor.

"No País, o jovem morre antes por violência. São dois fatores que acabam concorrendo entre si", afirma Fátima. O ponto nodal onde se encontram essas mortes é a pobreza e a falta de perspectiva. A violência policial, a miséria da qual o tráfico se aproveita para recrutar jovens sem emprego ou educação, levando a um extermínio fundado na criminosa política de guerra às drogas. Na outra ponta, jovens que se suicidam sem perspectiva de futuro algum nessa sociedade de miséria.

O boletim indica, por exemplo, um crescimento de mortes por suicídio na faixa entre 10 a 19 anos de 2011 a 2015. Os casos subiram de 782 para 893. É um sintoma brutal da monstruosa sociedade capitalista.

Regiões

Um dos fatos que mais chamam a atenção dos técnicos do Ministério da Saúde é a concentração de registros de suicídios em algumas áreas do País. A Região Sul apresenta 23% dos casos, embora responda por 14% da população brasileira. No Sudeste, região que concentra 42% da população, foram registrados 38% dos suicídios registrados no País.

O Sul é acompanhado pelo Ministério da Saúde há 10 anos. Há fortes indícios de que o problema possa estar relacionado à cultura do fumo e aos agrotóxicos usados nas lavouras.

"Pesticidas manganês aumentam o risco de provocar danos ao sistema nervoso central", observa Fátima. Para ela, essa relação precisa ser acompanhada de perto. "Além do suicídio, a ação do pesticida está associada a outros agravos, que também precisam ser avaliados, como câncer e más-formações congênitas. Esse assunto precisa estar na agenda." Mais uma vez, a causa está intimamente relacionada ao capitalismo, dessa vez às imposições feitas pelo agronegócio e o mercado agrícola.

Pelos dados coletados pelo Ministério da Saúde, estão no Rio Grande do Sul três das quatro cidades com piores indicadores de suicídio. O município de Forquetinha é o que apresenta a pior taxa de suicídio no País. São 78,7 casos a cada 100 mil habitantes. Para se ter uma ideia, a taxa de mortalidade nacional é de 5,7 a cada 100 mil.

Em segundo lugar, vem Taipas do Tocantins, com 57 casos por 100 mil, não à toa um local em que triplicaram os conflitos por terra, mostrando mais uma vez que o agronegócio e o latifúndio são causa dessas mortes, e os povos indígenas os principais atingidos. Travesseiro, no Rio Grande do Sul, vem em terceiro lugar, com 55,8 casos por 100 mil; e André da Rocha, também no Rio Grande do Sul, com 52,4.

Também são consideradas de risco regiões do Piauí e a divisa entre São Paulo e Minas. O Ministério da Saúde prepara-se agora para investigar as causas do maior risco nessas duas áreas. "Atualmente, ainda não estão claras as razões", diz Fátima. Sejam quais forem, serão tratadas com mais demagogia. É impossível, enquanto permaneça um sistema capitalista gerador de desigualdade e miséria, tanto social quanto psíquica, pretender seriamente combater o drástico aumento dos suicídios

*com informações da Agência Estado.

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