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Suicídio: mais uma aluna da UnB tira a própria vida

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 4 de setembro| Edição do dia

Outra aluna da UnB decidiu tirar sua própria vida.

Apesar da fortíssima muralha de silêncio a partir da mídia, dos professores, dos órgãos estudantis, de uma reitoria que sequer decretou luto [nem agora e nem no semestre passado], a verdade é que as redes sociais difundem, as pessoas comentam. E, como sempre, o resultado é que no final se estabelece um silêncio surdo, uma cortina de fumaça extremamente sofrida entre os que conheceram e entre os que não chegamos a conhecer a jovem estudante que ceifou sua vida poucas semanas atrás.

Estudante do departamento de Filosofia, da UnB, G.A. tomou um uma overdose de comprimidos e, mais adiante, foi a óbito [colocamos apenas estas iniciais em respeito às decisões do próprio “meio acadêmico” e outros que decidiram não divulgar o ocorrido].

Com um futuro inteiro pela frente, extremamente simpática, muito inteligente, uma pessoa querida, G. A. se foi.

Para aqueles que não pudemos conhecê-la só resta um imenso lamento, um clamor mudo e impotente por termos perdido uma jovem tão cheia de vida, plena de futuro, inquieta, cuja nobreza de caráter a levava a combater, no seu facebook, o machismo, o feminicídio, uma jovem que pensava e lamentava o mundo como ele é. Chato, como dizia ela.

E ao mesmo tempo, de nossa parte, um protesto o mais profundo de todos, contra essa sociedade que sacrifica nossos filhos e nossos jovens, grotescamente.

A dor dos familiares e dos que a amaram de perto – disso tenho plena consciência - é inaudita. Fica cravado um vazio que nada preenche. Um rombo no peito que jamais será fechado.

Nada repara essa coisa que é a mais antinatural e que sempre nos incomodará até o fim: um filho ou um ente querido desaparecer na flor da idade e com tanta imaginação, tanta criatividade, tanta bronca contra o mundo machista, feminicida, coisas que ela denunciava regularmente no seu facebook, um mundo que só estabelece, para a mulher, um determinado e indigno lugar, o da submissão.

[Meme do facebook da estudante]
Não por acaso, as mulheres, a cada dia que passa, pessoalmente ou em escala de massa, de movimento de rua, estão rompendo com o lugar que lhes foi destinado [pelo capitalismo, pelo machismo e pelo racismo]; e tenhamos claro que, na medida em que cada mulher se mexa, se ponha em movimento e se mobilize, nem o mundo e nem a esquerda serão jamais os mesmos [como diz uma amiga minha, Maeve].

A última coisa que se pode dizer, em tragédias como essa, é que se tratava de um problema dela, da jovem que se matou. O mero esboço desse pensamento não passa de uma afronta para com ela, com sua memória, e para com todos/as jovens de sensibilidade tão profunda e tão à flor da pele como a G., na verdade todo um setor da nossa juventude.

Um setor que não abre mão da sua inquietação, se sente desconfortável com as correntes que o aprisionam, mas que, ao final, se sente massacrado e atomizado pelas relações sociais dominantes. Relações que obviamente, incluem a Universidade.

Conhecemos o testemunho de vários jovens alunos da UnB de perto. Todos falam do massacre do seu tempo cotidiano, da sua criatividade e imaginação por parte dessa máquina acadêmica produtivista, autocrática, vazia de conteúdo vivo e burocrática.
Isso ocorre dia após dia, e a funcionalidade para esse sistema nefasto é a de fazer, ao final, com que a juventude não pense, não sinta e não se levante, não se encoraje a reagir como um só corpo.

A burocracia dos órgãos estudantis e sindicais é parte disso: não reage, não mobiliza seriamente, não promove debates, nada. Não denunciam as regras estéreis do academicismo que imperam em todas as nossas universidades bastante funcionais para tapar o sol da juventude, sua inquietação e, sobretudo, sua revolta surda.

A carga de leitura e trabalhos escolares maçantes da malfadada rotina acadêmica é o mais puro massacre do potencial desses jovens, muitos reclamam disso, embora nem todos consigam chegar ao diagnóstico. Ou a romper com a gaiola de ferro. Mas é uma questão de tempo [Neste momento, na Argentina, os estudantes estão nas ruas, em lutas de massa].

E sim, a burocracia acadêmica pode organizar quantos cursos de “felicidade” quiser, mas se não se abre um debate massivo sobre o mal-estar na universidade, nas relações sociais do nosso tempo, sobre a realidade de uma universidade opressiva, uma gaiola dourada atomizante, que é parte de um sistema – uma muralha, como diria o Pink Floyd – que trabalha cotidianamente para alienar o jovem do melhor de si próprio, de nada adiantará curso algum que tente apontar para o umbigo do estudante, para lavar a cara da Universidade.

Há uma crise na universidade brasileira, com essas contrarreformas restritivas do sistema educacional, com a camisa de força e produtivismo do MEC, com o império da “escola sem partido”, com a velhacaria e o balcão de negócios da política do regime burguês e sua democracia degradada.

A pressão é também brutal sobre o pequeno setor da juventude que consegue chegar a uma universidade pública. Se sentem desconfortáveis, exigidos. E da forma que está organizada a universidade, à juventude não é dada a chance para livremente desenvolver seu potencial. O objetivo é formatar tijolinhos para seguir reproduzindo essa ordem desigual, estúpida e opressiva.

É tolice discutir, fora desse contexto, essa e tantas mortes de jovens, mortes que se repetemuma atrás da outra [no Brasil são 32 mortes por suicídio por dia].

“Estou me tornando radioativa” dizia a canção que G. tanto gostava. Me “sinto como se eu fosse uma completa incapaz”, disse ela na sua última mensagem.

Da maneira como está formatada, com sua meritocracia das aparências e sem qualquer sentido humano ou inteligente – nos marcos de uma sociedade desigual pela base – a Universidade - por sua vez descolada das massas pobres, das periferias - não empodera a juventude, não liberta seu potencial riquíssimo e inconformado com qualquer ordem congelada, engessada.

Por outro lado, a própria Universidade, pela lógica de ser um centro do conhecimento, do debate, da crítica ao existente [coisa que não interessa aos donos do poder], deveria se interessar em discutir o por que isso acontece. Promover um incessante debate crítico: por que tantas jovens e jovens tiram a própria vida, dentro e fora das universidades? Tema para autênticos centros acadêmicos, para o movimento sindical, para as chamadas esquerdas.

Na sua última mensagem [de morte], a jovem aluna da UnB dizia:

“13 de agosto às 10:27 ·/ eu só queria fazer as coisas certas, mas é como se eu fosse uma completa incapaz. eu choro por todas as musicas, livros e filmes q eu amo e q nunca mais vou ver. eu sinto muito [fulana], [fulano], vcs são meus melhores amigos e eu sinto mt deixar vcs. eu odeio viver, é só isso”

Nas músicas que ela escutava [duas estão postadas abaixo, com legendas] certamente encontrava alguma identidade com seu sentimento de abandono, desamparo, desalento. “Espero o cair da noite para meu coração se iluminar, pronta para me decepcionar, a caminho de uma fusão nuclear”, diz a letra de uma delas [Radioactive, de Marina and the Diamonds].

“Quando olho para você, sinto frio e me sinto fria”, diz a canção.

Mas a cúpula e a burocracia acadêmica se fecham em copas.
Vivem numa redoma, ou no reino arrivista das aparências.

Nas Universidades de elite, como a UnB, jovens se matam, nos centros do saber, se matam, não se acham, não conseguem um alento para elevar sua auto-estima, romper com seu mais profundo mal-estar.

Por que?

E por que tudo isso não pode virar um – repito – amplo debate público onde possam aparecer, sem máscara, a céu aberto, as vísceras das relações podres e de aparência e carreirismo que imperam na chamada Academia. E que brotam de um sistema profundamente desumano e necrófilo, o capitalismo, onde tudo vira mercadoria, onde autenticidade – a busca de tantos jovens – não é moeda corrente.

Como setentista, vivi tempos revolucionários, anos 1960, onde a UnB, o Brasil e o mundo não eram assim. O suicídio não era “epidêmico” como é hoje [por mais que hoje haja um esforço evidente, maior que nunca, em ocultar as coisas; na mídia isso é bem claro].

O que mudou? Um capitalismo mais decadente, sem horizonte para oferecer, com seus centros de ensino – a UnB nem se fala- tomados pela burocracia, a incompetência disfarçada de títulos acadêmicos, a imposição de uma carga horária e de trabalhos sem fim, que tudo tentar soterrar e que ocupam o lugar do pensamento criativo, do estímulo ao pensamento crítico, iconoclasta, típico do jovem. Para não falarmos das faculdades privadas, caça-níqueis, com seu tão conhecido mise-en-scène.

Não, a universidade, nenhuma universidade, não é para nada neutra em relação a tudo isso que está acontecendo.

Em tempos de Temer [que já vinham dos tempos lulo-petistas: quem não lembra da explosão de juventude no junho de 2013, nas ruas de todo o país?], em tempos do “escola sem partido” e de uma esquerda chapa-branca que só semeou desilusões, essas estruturas são tudo menos neutras.

O corpo docente não é neutro. A burocracia das universidades e centros de ensino não são neutros.

Voluntariamente ou não – e feitas as exceções honrosas daqueles professores que seguem ativos e lutando, que não adotam postura de opressores – a estrutura acadêmica, o aparelho escolar, é parte da reprodução desse sistema iníquo.

Há ou não há algo de podre no “reino da Universidade”, das relações sociais, quando uma enorme quantidade de jovens precisa tirar a própria vida porque não encontram horizonte cultural, social, político, e passam a achar, como dizia a G. no seu face pouco antes de tirar a própria vida: “eu odeio viver, é só isso”, ou então, emitia o grito lancinante, do fundo do coração [no seu perfil do face]: “Conheça a história de minha vida, que pra falar a verdade é muito chata; elenco: eu; direção: alguma divindade sacana”.

Memes do seu facebook, reproduzidos abaixo, falam mais alto ou dizem muito; denunciam a hipocrisia das relações de aparências, denunciam o papel espúrio da Igreja, denunciam o “choro por tudo que nunca mais vou ver”, por todos os amigos que “sente muito deixar”.

Pena que, no fim, abatida, ela se foi, não conseguindo ver propósito na vida como ela é, na vida social e universitária que tinha pela frente e que sua sensibilidade não conseguiu digerir, aceitar; para no final, em sua recusa maior, derrotada pela força da engrenagem do sistema, abandonar a luta, recusar o papel que lhe traçaram no script. Não aceitou ser parte da peça chata, dirigida por “alguma divindade sacana”, como disse ela pouco antes de falecer.

Nenhum de nós – não é preciso ser pai ou mãe – para se sentir assim – pode ou deve ficar indiferente a essas mortes, a tanta perda irreparável para seus entes queridos e para o mundo.

Tampouco podemos naturalizar [muito menos silenciar e ocultar essa “epidemia” de suicídios] ou deixar de levar combate contra a opressão dominante, capitalista, de gênero, de raça, cultural, social e também [como não enxergar isso] acadêmica.

É preciso implodir a universidade que aí está, por conta de suas regras burocráticas, sua estrutura autocrática, seus currículos [e produtivismo] moldados para tolher a imaginação, a sensibilidade, a vontade de ter um sonho e um propósito.

Esta estrutura precisa ser questionada e revolucionada pela raiz.
A estrutura como um todo. A sociedade.

Caso contrário, tenderemos a naturalizar a condição, diariamente reproduzida, que empurra tantos jovens ao desespero, à baixa auto-estima, ao desalento [como diz a canção abaixo, que G. escutava, jovens que ficam “esperando o cair da noite para seu coração se iluminar”].

O basta a tudo isso somente pode ser dado por todo um setor da juventude, da classe trabalhadora, que juntos, se levantem, nos levantemos, contra esse império do mal, o capitalismo e suas relações fetichizadas, alienantes, impotentes para oferecer qualquer futuro para cada ser humano sensível, para toda a humanidade. Futuro que não seja viver para o próprio umbigo, na vidinha de caixinha e em louvor do nefasto capitalismo.

A vida inteira tem que ser revolucionada, as relações sociais precisam ser revolucionadas, é preciso pôr fim à opressão de gênero, religiosa – que ela denunciava no seu facebook  -, também a opressão de toda família conservadora que reproduza esse sistema espúrio, a opressão cultural, o espírito de época mercenário e, para isso, questionar pela raiz a exploração do trabalho humano pelo capital.

E que todos possamos controlar nosso próprio destino, as escolas, as fábricas, democratizando a sociedade pela raiz. É disso que se trata. Só assim teremos, todos, futuro, e que nenhum@ jovem possa dizer que "morro porque odeio ter minha vida tutelada ou dirigida por qualquer poder acima de nós", começando pelo capitalismo.

Morra o capitalismo, abaixo os burocratas de todo tipo [começando pelo regime político], que querem tutelar nossas vidas, nosso bem viver, nosso futuro.

A seguir, você pode ouvir duas das músicas curtidas pela jovem no seu facebook, pouco tempo antes e também alguns dos memes lá postados. Todos sensíveis, instigantes, inconformados:

Radioactive
[Marina and the Diamonds]

Oh, no!
[Marina and the Diamonds]

Memes do seu facebook:




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