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Sudão: a oposição e os militares assinam um acordo político para a transição

O acordo estipula a formação de um Conselho Soberano que assumirá o poder durante a transição. Qual saída alternativa para conseguir todas as demandas das mobilizações.

quinta-feira 18 de julho| Edição do dia

O oposição sudanesa e o Conselho Militar de Transição (CMT), que mantém o poder desde que as manifestações derrubaram o presidente Omar al Bashir, assinaram nesta quarta-feira um acordo para os próximos três anos e três meses para uma transição política no país. Estiveram presentes mediadores da União Africana (UA) e da Etiópia.

O único detalhe conhecido sobre o acordo, é que estipula a formação de um Conselho Soberano que assumirá o poder durante a transição. É formado por cinco civis, cinco militares e uma pessoa consensuada pelas duas partes, presidido pelos militares nos primeiros 21 meses, enquanto os civis o farão no restante do período.

O massacre na praça de Jartum, com cerca de 200 assassinados e centenas de feridos, que inicialmente rompeu as negociações, debilitou o Exército. Mas a Aliança pela Liberdade e a Mudança que vinha se opondo à volta ao diálogo sustentando a demanda levantada pelas massas de que “caia todo o regime”, incluindo os militares que foram cúmplices do governo durante décadas, chamando à “desobediência civil”, deu tempo para que o Exército se recompusesse, abandonando seu programa político para negociar melhores acordos no Conselho Soberano, contendo a situação.

Assim, se sentaram a negociar com o general Mohamed Hamdan Dagalo, aliado de Hemedti, vice-presidente da junta militar e líder das Forças de Apoio Rápido (FAR). As FAR, milícias paramilitares que participaram do genocídio em Darfur, são acusadas de protagonizarem a desocupação violenta do acampamento de protesto em frente à sede do Exército em Jartum no último 3 de junho.

Milhares vêm se mobilizando exigindo justiça pelo massacre de Jartum e pela retirada das RSF dos diferentes povos, como em Sinnar, já que seguem assediando as populações e aqueles que se manifestam contra o regime.

Para o mediador da UA, Mohamed Hassan Labat, em um comunicado emitido ao vivo pela televisão estatal Sudán TV, disse, referenciando o pacto, que é “um grande acordo que representa um passo determinante e abre uma nova era”, ao passo que “prepara o terreno para o seguinte passo, que é estudar uma Constituição”.

A intervenção internacional na crise do Sudão mostra os esforços para evitar um aprofundamento do processo aberto com a queda de Al Bashir, onde a oposição chegou a liderar várias greves gerais. Arábia Saudita, Egito e Emirados Árabes, três países governados por monarquias ou militares, estavam abertamente contrários aos protestos e interviram pela saída que conformasse um governo militar. De fato, o Conselho Militar recebeu uma “ajuda” de 3 bilhões de dólares por parte das monarquias do Golfo, sendo que as milícias sudanesas também cumprem um papel ativo na guerra da Arábia Saudita contra o Iêmen.

No entanto, a brutalidade da repressão parece ter ido além da correlação de forças estabelecida após a queda do ex-presidente e a exigência dos manifestantes de que “caia todo o regime” levou à mediação dos objetivos de construir um “homem forte” ao estilo egípcio. Mas optaram por desviar o processo com uma saída negociada. Também a opositora ALC, que é uma formação liberal, apesar de ter liderado greves gerais, atuou em função de disputar maiores espaços de poder dentro do “Conselho Soberano”.

A intensa atividade dos trabalhadores, das mulheres e da juventude do Sudão, apesar da violenta repressão sofrida, mostrou um caminho. Os acampamentos, bloqueios, e sobretudo, a greve geral são uma experiência acumulada em setores de massa que ainda não foi derrotada.




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