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STRANGER THINGS

Stranger Things ou a insuportável sedução dos anos 80

Como em um conto fantástico onde as crianças recolhem migalhas no bosque, em Stranger Things podemos ver as referências às joias clássicas do cinema e de uma época particular: os anos 80.

quarta-feira 10 de agosto| Edição do dia

Stranger Things impactou todos que viram. Partimos daí. Ninguém pode se sentir discriminado, porque todos vibraram com o seu relato de aventura, seu relato emblemático de ficção cientifica e suas piadas obscuras, típicas do cinema de terror.

O gênero de terror, de fato, que hoje busca se renovar de maneiras mais estranhas e imbecis, com a apelação a sádicos inexistentes que torturam por tédio, a criaturas inexplicáveis e a gente que fazem coisas ruins por excesso de tempo livre, com Stranger Things volta-se a falar a língua materna do gênero. Volta-se a este terror mais clássico, a essa linguagem que busca dar medo apelando a figuras arquetípicas. Monstros, dimensões desconhecidas e crianças. Ponto. O que pode faltar assim? Mas Stranger Things não é uma história de terror estritamente, assim que se esqueça isso e sigamos.

Uma, duas, mil referências aos anos 80

Dissemos que Stranger Things agradou todo mundo. Se seu amigo não gostou, certamente não é tão bom amigo. Pense. Porque Stranger Things agradou todo mundo. Mas alguns gostaram mais do que outros. Existe um setor social, melhor dizendo etário, uma parte em especial. Mostram os primeiros cabelos grisalhos, olham com preocupação as olheiras que ameaçam os arredores dos olhos, analisam friamente o avanço da calvície nas laterais da fronte. Falamos dos e das que passaram a sua infância nos anos 80. A sociedade os julga como os trintões. Aí entra Stranger Things, com o seu verdadeiro batalhão de referências, símbolos e detalhes que exacerbam o mito de uma época de mudanças, os anos 80. Tudo, tudo, tudo nesta série que deixa a gente apaixonado remete aos anos 80. A fotografia “retrô”, as bicicletas chopeiras, a música inicial com traços indisfarçáveis dos anos 80, os jopos, os coletes infláveis, o sótãos “bunker” para as crianças que não param quietas, tudo é uma homenagem aos anos 80 em geral e ao cinema e à música oitentistas em particular.

“Os oitenta” como uma marca

Existem coisas onde é impossível fugir da sombra dos anos 80. A década de 80 é uma virada histórica porque “já não era” a convulsiva e historicamente criativa década de 70 e “ainda não eram” os anos 90, com o seu rastro de derrota política social e cultural chamado neoliberalismo.

Existem músicos que vêm de antes, de muito antes dos 80, mas que conseguiram se reciclar e assim tornarem-se ícones deste momento histórico. Falemos de David Bowie. Há outros expoentes que sintetizam tão perfeitamente o espírito de uma época, que nascem nos anos 80, mas provavelmente não vão morrer nunca: Madonna. Em nosso país, se fala em Sumo, Virus, Los Abuelos para expressar como um grito bêbado, a mistura de rebeldia, enfado e extravasamento dos anos 80 pós-ditadura.

Por isso. Os anos 80 são uma época rara, indefinível, um cúmulo de sensações e estética de movimento. É aí que entra Stranger Things para nos fazer lembrar.

Vou ou fico?

The Clash é uma banda que sintetiza quase matematicamente os explosivos anos 70 na Grã Bretanha, com o seu grito de guerra contra um ajuste que já começava antes da Thatcher, contra o ascenso de setores de ultra-direita e contra a marca conservadora da coroa dos Winsdor. Mas também tem sua parte oitentista, que se distancia do punk mal educado, de suas incursões no dub jamaicano e das dezenas de estilo que essa enorme banda visitou. Should I stay or should I go, um clássico escrito por Mick Jones em 1981 e que viu a luz com o disco Combat Rock, é a maneira que o Will, de Stranger Things, tem para dizer, do além; desta dimensão carcerária em que se encontra, de “Upside Down”. Sim: o Will, nessa série que remete aos anos 80, fala por meio do mais oitentista dos temas do The Clash. Definitivamente querem nos deixar apaixonados.

Mas não são só essas as referências oitentistas. Não é preciso ser um gênio cinéfilo ou um erudito do cinema, para ver uma “homenagem a céu aberto” ao ET na perseguição das caminhonetes do obscuro Ministério da Energia às crianças de bicicletas. Quase podemos ver o simpático Spielberg aplaudindo a seus respeitosos imitadores. Se trocamos o carinhoso Extraterrestre pela amorosa e combativa Eleven, e a cena é uma cópia. O ET nasce em 1982. Stranger Things se passa em 1983. Não é preciso dizer mais nada. Parênteses necessários: amamos a Eleven.

Conta comigo e com os garotos

A cumplicidade lúdica das crianças protagonistas, sua busca incondicional por seu amigo desaparecido, a certeza inflexível de que ele está vivo, a união inquebrável dos três (e Eleven) parece dizer com ternura: conta comigo, uma oferenda à amizade e à camaradagem juvenil. Mas Stranger Things em si mesma é uma oferenda, também, à maravilhosa e cativante Conta Comigo, com maiúscula, filme ambientado nos anos 50, mas filmado em 1986, que imortalizou River Phoenix.

O monstro

O monstro, o obscuro que busca sair das paredes e estender os limites do muro, as fronteiras entre as dimensões, modifica o concreto e parece dizer “oi” para as intromissões do terrível Freddy Krueger, nascido em 1984, onde o homem das garras postiças sugeria sua vontade de entrar e fazer cócegas de dentro de uma barriga, dentro de um teto, debaixo de uma cama, ou onde quer que seja.

Por fim, a inquietante presença implícita de algo obscuro que ainda não está presente, pode aparecer, e o vai e vem agridoce entre o lúdico e o macabro, assim como a ambientação da película, este lugar aprazível em que coisas terríveis acontecem, parece pintar no ar o rosto inesquecível do palhaço de It. Nos elogios de Stephen King a jovem atriz que encarna Eleven parece confirmar que até o próprio pai do cinema de terror oitentista se sente lisonjeado.

Divididos pela felicidade

A música no cinema não é um mero suspiro de fundo senão que é parte inseparável da cenografia, do que vemos, do que querem que sintamos. A presença de Joy Division na trilha sonora de Stranger Things, neste caso, não é gratuita e nem aleatória. Se bem esta banda arquetípica do pós punk tocou suas músicas desesperadas nos anos 70, em 18 de maio de 1980 o enorme Ian Curtis colocou o disco The Idiot de Iggy Pop, escreveu uma despedida a sua esposa e se enforcou, tornando-se uma referência inescapável da música das últimas décadas em geral, e em especial dos anos 80. Don’t walk away, in silence (Não se afaste em silêncio), dizia Ian desesperadamente. Estamos aqui, esperando a segunda temporada de Stranger Things. Enquanto isso, ficamos escrevendo, sozinhos, em silêncio.




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