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StoneWall sob as lentes envergonhadas Hollywoodianas?

Após fortes críticas de todos os cantos do mundo, e um boicote ativo de grupos LGBT, StoneWall, "Onde o orgulho começou" chegou aos cinemas brasileiros no último dia 29. A expectativa de ver nas grandes telas as identidades orgulhosas que atearam fogo com a rebelião de StoneWall, dando inicio ao movimento pela Liberação Sexual, foi frustrada pelas lentes envergonhadas de Hollywood que da história negra e travesti apresentaram uma caricatura branca, cis e heteronormativa.

Virgínia Guitzel

ABC Paulista | @virginiaguitzel

terça-feira 11 de outubro| Edição do dia

Antes mesmo do filme chegar aos cinemas norteamericanos, com apenas o primeiro trailer lançado, já se tornou uma grande polêmica entre o movimento LGBT. O trailer (veja abaixo) reduz aos leitores ter de assistir por 2 horas uma falsa versão da rebelião de StoneWall. Do roteirista do seriado Brothers & Sisters, Jon Robin Baitz e o diretor dos filmes Independence Day, O Dia Depois de Amanhã, 2012 e Godzilla, Roland Emmerich, ambos assumidamente gays, o filme tenta abordar a rebelião de 28 de Junho de 1969 que foi o primeiro levante LGBT contra a violência policial em defesa de direitos iguais, mas acaba por tornar a rebelião apenas uma pano de fundo.

O filme recebeu criticas de diversos jornais de Nova York, dizendo que era “terrível, ofensivo e desastroso” assim como de uma ativista que participou da revolta e disse "Eu estava na revolta de StoneWall e não se parece como no filme", assim como uma petição que propõe o Boicote ao filme que chegou a mais de 24 mil assinaturas. Isso porque o filme tem sua a trama sequestrada pela história da vida fictícia de um jovem, branco, cis, homossexual de classe média chamado Danny (Jeremy Irvine) que é expulso de casa após sua família descobrir que ele é homossexual. Ao chegar em Nova York conhece Ray/Ramona (Jonny Beauchamp), uma prostituta, latina e moradora de rua e sua turma (de apenas um personagem negro) que vão revelar a triste realidade da população LGBT de Nova York. O filme desenvolve com demasiada atenção os dilemas deste personagem fictício e omite por completo as principais figuras e ativistas que deram origem ao surgimento do movimento LGBT, com uma tentativa fracassada de tornar Danny, inexistente, o "lider" da revolta.

Não se pode esconder StoneWall, mas querem esconder as identidades orgulhosas

O filme denuncia o maior país imperialista que tinha leis nas décadas de 60 que proibia a venda de bebidas alcoólicas para as pessoas não-heterossexuais, que criminalizava quem usasse três peças de roupas diferentes do gênero que lhe era imposto socialmente e reafirmava as sexualidades e gênero não normativas como doenças mentais. Aponta uma forte denuncia a instituição policial, corrupta e a favor das leis LGBTfobicas que favoreciam sua leva de propina, assim como os mafiosos donos dos bares onde os LGBT, em sua maioria negros, podiam frequentar, assim como a profunda condição de marginalidade e de vunerabilidade que a população LGBT se encontra, sendo ainda hoje 40% dos moradores de rua em todo o mundo.

O filme retrata também a diversidade de ideias entre os ativistas da época, as ideias pacifistas e de conciliação, assim como demonstra claramente as profundas diferenças sociais entre o protagonista homem branco, masculino e padrão norteamericano com as demais personagens que fugiam da heteronormatividade e tinham a prostituição, a violência e a profunda marginalidade de direitos sociais. Assim, o protagonista que nunca existiu na história do movimento LGBT termina indo à universidade enquanto a vida das pessoas LGBT mesmo após a rebelião será marcada pela discriminação.

Porém, toda esta crítica, que nem mesmo o romantizado roteiro pode esconder, perde sua força ao esconder os verdadeiros protagonistas de StoneWall. Mesmo com todas essas denúncias, o diretor parece crer que era preciso inventar uma pessoa e seus próprios motivos para que haja tamanha rebelião. O site LadoBi propôs pelo menos 5 protagonistas da rebelião, que não lhe faltavam motivos para se enfrentar com a violência policial e colocar suas identidades à frente, e poderiam ter sido também protagonistas do filme retratado: Stormé DeLarverie (mulher cis lésbica caminhoneira), Marsha P. Johnson (Mulher trans, Drag Queen e fundadora da STAR – Revolucionários pela Ação de Travestis de Rua), Sylvia Rivera (mulher trans e bissexual, co-fundadora da STAR), Miss Major Griffin-Gracy (Mulher trans) e Brenda Howard (mulher cis bissexual que propôs realizar a primeira parada LGBT em comemoração a um ano de StoneWall). Também fez falta a aparição dos "Panteras Negras", grupo de combate ao racismo que foi até a revolta se solidarizar.

O que está por trás das lentes envergonhadas de Hollywood?

Em todo o mundo explodem revoltas frente à profunda crise que vivemos do capitalismo. São os negros e negras dos EUA que enfrentam a polícia norteamericana e levantam a bandeira "Black Lives Matters", são as mulheres que tomam as ruas de todo o mundo ou fazem greves gerais como na Polônia em defesa do direito ao aborto. E milhares de LGBT que em vários países vêm protagonizando sua luta por direitos iguais, desafiando inclusive leis reacionárias que criminalizam sua sexualidade. Não se pode mais fingir, nem nos cinemas, que não existe luta de classes, muito menos um enfrentamento crescente contra a opressão machista, racista e LGBTfobica.

O único lugar onde as mulheres trans, os negros e negras e os mais oprimidos não foram linha de frente pela sua própria libertação é na literatura capitalista, e, por que não dizer, nos seus filmes Hollywoodianos? As lentes envergonhadas temem muito mais incitar a verdadeira história de StoneWall, porque, diferente de vitimas ou pessoas frágeis, se encontrará no surgimento do movimento pela liberação sexual uma poderosa força combativa contra esta sociedade que reprime a sexualidade e tentar normatizar os corpos e as identidades.

O filme, que também é direcionado ao "Pink Money", seu nicho de mercado feito majoritariamente para os homens gays de classe média, tenta higienizar a verdadeira história. Mas o diretor, não satisfeito, ao rebater as críticas foi além: "Você tem que entender uma coisa: eu não fiz esse filme apenas para pessoas gays. Eu também fiz para pessoas heterossexuais (...) Eu meio que descobri, durante as pesquisas para o filme, que na verdade os hétereos se identificam bastante com Danny. Ele é um gay enrustido, e mal tratado por causa disso. [Os héteros] sentem compaixão por ele. Como diretor, você tem que se colocar nos filmes, e eu sou branco e gay”.

Toda a rebeldia, a transgressão e a violência revolucionária que deu origem ao movimento LGBT foi desviada na tentativa de reforçar a única "compaixão" aceitável e reconhecida como legitima pela arte burguesa, a do homem branco, cis de classe média enrustido. O que Emmerich não entendeu para fazer a obra, e talvez seja uma das lições mais importantes de StoneWall, é que desde 1969 nós não estamos pedindo por compaixão. Exigimos com pedras, gritos e enfrentamento nosso direito ao corpo, à sexualidade plena e à livre construção da identidade de gênero. E, para isso, não foi necessário a existência de um "Danny", mas sim a valentia de transfemininas, sapatões caminhoneiras e gays afeminados. E nada mais.




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