Teoria

DEBATE JUVENTUDE

Somos todos libertários?

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 9 de dezembro de 2016| Edição do dia

O campo da esquerda vive profundo mal-estar que não está desvinculado - pelo contrário -, do avanço eleitoral e institucional da direita desde o golpe Temer e já desde antes, com as contradições e a linha do governo Dilmo-petista, mal-estar que tem tudo a ver com a desmoralização ampla e nacional do PT. Uma desmoralização que impacta – como se viu eleitoralmente – a forma como a esquerda é vista por amplas massas.

Na verdade, aquela derrota e essa desmoralização têm um nome: fracasso da política de colaboração de classes, executada pelo lulo-petismo há tanto tempo, um partido que insistiu até o fim em governar com os mesmos métodos da burguesia. E que sempre defendeu a política do “mal menor” como estratégia inseparável da conciliação de classes.

Tudo isso veio abaixo e talvez a tarefa mais imperiosa do campo da esquerda e da vanguarda que combate aos ataques do Temer seja essa: um balanço dos erros estratégicos e programáticos do PT, da sua “estratégia” de colaboração de classe, de forma que se possa ter claro o que fazer para não repetir tais erros na urgente construção de uma nova força de esquerda, de massas e independente da patronal. E procurando travar um debate aberto contra toda tentativa, mais ou menos encoberta, empírica, de seguir os mesmos passos do PT, na surrada linha de “governar para todos” de “respeito à lei de responsabilidade fiscal” e aos ajustes contra os trabalhadores.

Essa política já não deu certo com o PT, mas sempre que aparece recria a ilusão de que os movimentos sociais podem avançar apenas na base da acumulação de forças, passo a passo, pelo simples fato de levar lutas parciais, marchas, declarações e encontros.

Parte disso são os movimentos da CUT, CTB, da UNE, como regra fazendo declarações, um ou outro ato público, mas onde a retórica é mais forte que a ação a partir das fábricas, das empresas, da sala de aula. Esse imobilismo apareceu de parte das organizações políticas da esquerda petista que possuem peso de massa, depois do golpe-Temer e mesmo diante do golpe quando este estava em marcha. Aliás, este é o ponto de partida desta nota: atualmente, a CUT, apenas para dar um exemplo, não toma as ocupações de escolas e universidades como uma luta também sua, e para ser defendida – com greves e métodos da classe trabalhadora – contra os ataques de Temer.

Não toma essas centenas de ocupações como ponta de lança – que deveria receber apoio concreto, de ocupação de empresas, preparação de greve pela base etc contra os ataques e a política do governo. E não promove o debate político e ideológico permanente.

E o efeito de tudo isso, diante de um setor combativo da juventude, é o de que cria-se um vazio, ou um descompasso entre a postura das organizações da classe trabalhadora, seus partidos, e a enorme combatividade que brota da juventude estudantil e também pobre das periferias.

Nos marcos desse vazio vai-se desenvolvendo no sentimento da juventude combativa, a ilusão de que basta levantar lutas de resistência, basta impulsionar os movimentos sociais e sua força será suficiente para barrar o inimigo, a reação, o golpismo Lava a Jato. Cria-se, em jovens lideranças, no seio dos estudantes que protestam, que ocupam escolas e faculdades, um difuso sentimento libertário [“horizontalista”, dizem alguns], de que se pode vencer “o mal” apenas pelas lutas sociais soltas, em si, locais, setoriais, que inclusive não tomam posição contra aqueles aparatos de esquerda do movimento social que não luta, não democratiza a luta e nem o debate político-programático, mas que aparece falando em nome da esquerda.

Esse espírito, difuso mas generalizado, carrega um quê de ingenuidade ou de ilusão de que toda a polifonia, o ímpeto e a combatividade, como nas ocupações de escola, bastam-se por si só, sem sua organização política, sem o debate programático [o que fazer com a educação, com os aparatos antidemocráticos das escolas e universidades, como fundir a escola com a vida, que táticas e estratégias para as lutas da grande política etc]. Por conta disso, aparecem aqui e ali ideias do tipo “contra todos os partidos”, da luta libertária, porém que não priorize o debate da política contra o capitalismo e não se dá conta que “o mal”, o governo burguês, conta com a ampla organização centralizada, bem paga, de repressão, espionagem e sabotagem contra os movimentos populares.

Essa ingenuidade de parte de algumas lutas de juventude, que pensam o combate à opressão em todas suas formas com base na ilusão de que uma luta nessas bases espontaneístas, semi-espontaneistas e/ou despreocupada em relação ao debate político-programático, da organização político-partidaria, é historicamente recorrente, especialmente em situações assim, onde há uma derrota da esquerda tradicional e os trabalhadores não aparecem com força política própria, e as organizações operárias e estudantis [UNE, DCEs etc] estão burocratizadas. Por um lado, bandos fascistas jovens põem a cabeça de fora, se organizam para suas provocações e sabotagens, lado a lado com as forças de repressão, mas também por outro, alguns setores da juventude combativa desenvolvem aquele espírito legitimamente libertário mas com a ilusão de que vai dar tudo certo na base do movimento social que basta ter mais força, mais voz vai conseguir vencer a reação e o obscurantismo.

Por mais combativos que sejam tais setores, ficam autolimitados em seus efeitos, por conta daquela postura do “apartidarismo”, da rejeição em bloco da experiência histórica da organização e métodos políticos do proletariado.

Uma das percepções dessa juventude seguramente é a de que a chamada esquerda tradicional – no caso do PT isso salta aos olhos – fracassou. Tornou-se um grande ausente nos movimentos de base, nas ocupações mais combativas ou, se presente, funciona como trava às ações mais ousadas e combativas. Não por acaso, muitos jovens que emergem para as lutas, assumem uma postura de negação da política, defesa do espontaneísmo, da prática das lutas locais, cada uma por si, do “um dia venceremos” seja qual for o formato estratégico, partido é sempre ruim, coisas desse gênero são objeto de falas [ou aforismos do tipo “o caminho se faz ao caminhar”] e, em alguma medida, ou em algum ponto da caminhada, também entra no lugar do debate estratégico a luta da vitória passo a passo, ocupando espaço no capitalismo, transformando-o “por dentro” e desembocando no “taticismo”.

A luta já não é pela tomada do poder de Estado; e nem pelo o partido revolucionário que se construa, política e programaticamente, para tal estratégia; ele só “atrapalha”, sempre se burocratiza; esses elementos são parte daquela percepção. Como também a ideia de que se evitarmos essas questões [da política revolucionária] e esse caminho, a estratégia estará, de certa forma intuitivamente, resolvida. Sejamos revolucionários, sejamos irrealistas, organização política não é parte da solução. Fiquemos à margem da grande política, à margem do sistema, sejamos libertários.

Sejamos libertários! proclamam corretamente. Mas em seguida, mudam a perspectiva libertária: ao buscar atalhos por fora da organização política, da organização de grupos de autodefesa vinculados aos trabalhadores, da hegemonia política dos trabalhadores, da estratégia soviética, do programa transicional [que unifique, por exemplo, o sentimento atual das massas rebeladas com medidas de estatização dos transportes sob controle dos funcionários etc]. Deixam a grande política para a burguesia e o aparato de Estado.

Certamente é preciso levar em conta que é previsível que à desmoralização do PT se siga, ato contínuo, uma descrença na política organizada, também é previsível que não se perceba de imediato – em setores do ativismo jovem, de sensibilidade de esquerda – que o que fracassou foi a política de colaboração de classe e a falta da democracia de base, a partir da UNE, de centros acadêmicos dirigidos pelo PT, PCdoB etc, dos sindicatos de oposição, por exemplo.

No entanto, é necessário também dialogar criticamente com a não-estratégia da ingenuidade espontaneísta. Ela não prepara vitórias para as grandes massas, tampouco a necessária aliança trabalhadores-estudantes para a luta de classes que recrudesce.

No argumento de C. Castillo:

“Na juventude existem muitas tendências ao autonomismo e ao anarquismo, e é lógico que assim seja porque odeiam e se frustraram com aquilo que foi a ditadura stalinista tanto quanto ela também aborrece a nós também; e o autonomismo se apresenta como uma resposta diante da burocratização de um Estado operário, mas na verdade pretendem responder a um problema evadindo dele.

Diante deles, reivindiquemos ofensivamente nossa perspectiva: queremos a eliminação de toda opressão, de todo Estado, queremos a plena existência da democracia soviética, queremos a sociedade mais livre de todas, e isso é para nós o comunismo, somos o oposto da perspectiva da ditadura stalinista totalitária, temos os mesmos anseios libertários que os autonomistas.

Mas somos revolucionários realistas que não evadimos dos problemas.

E para enfrentá-los com êxito, a verdade é que o atalho que buscam os autonomistas, negando a necessidade da revolução e do processo de transição não leva a lugar algum.

O autonomismo acredita que pode se poupar dos transtornos próprios de toda revolução. É uma concepção um tanto ingênua, facilista: por exemplo pensar que as coisas se resolvem levantando um restaurante comunitário e já será o suficiente para sair do capitalismo. É uma espécie de ´socialismo ingênuo´, mas quando a luta de classes se desenvolve se vê que as coisas não são bem assim, que existe o Estado, que existe polícia, que esta reprime toda manifestação de luta e autonomia.

E eis que surge a necessidade de organização, já que o problema do poder político, se nós não queremos formulá-lo, o inimigo o formula. Se não se luta pelo poder político, o Estado tende a absorver aos movimentos de luta, transformando-os em grupos de pedintes. E nisso Negri tem uma bela definição sobre as ONGs, como uma espécie de ordem jesuítica moderna, o que também pode ser aplicado a certos autonomistas que acreditam que se pode derrotar o capitalismo a partir das margens do sistema”.

Não derrotaremos o capitalismo negando a importância da luta pelo poder ou concebendo “a chegada ao poder pela via da gestão do Estado burguês”, local ou nacionalmente. A experiência do PT é definitiva a respeito.

Tudo que os donos do poder mais desejam é que o emergir da juventude fique contido, resistindo aqui e ali, nos marcos do ativismo que ao não se ocupar com a grande política, do debate sobre a estratégia para a conquista e a desconstrução do Estado, termine renunciando ao seu papel de sujeito político e deixando a política para os políticos ... burgueses.

[A citação acima consta do livro Estado, poder & comunismo, de Christian Castillo, da Imago Mundi, 2003, obra cuja leitura recomendamos enfaticamente].




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