Cultura

TRIBUNA ABERTA

Sobre vôos indefectíveis: a não-crítica ao filme Bacurau

Bacurau já é um marco para o nosso cinema nacional. Primeiro porque os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano antropofagam o western spaguetti e mesclam com uma perspectiva nordestina genuína sobre as relações humanas, o resultado disso é o gênero ‘northwestern pernambucano’. Segundo porque os diretores de Teresa, Domingas, Plínio e outros conseguem aterrizar numa (não) cidadezinha do agreste Brasileiro o resultado sombrio das divisões sociais em curso no mundo. Chegar à esse resultado não foi um trabalho da noite para o dia.

quarta-feira 9 de outubro| Edição do dia

Bacurau já é um marco para o nosso cinema nacional. Primeiro porque os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano antropofagam o western spaguetti e mesclam com uma perspectiva nordestina genuína sobre as relações humanas, o resultado disso é o gênero ‘northwestern pernambucano’. Segundo porque os diretores de Teresa, Domingas, Plínio e outros conseguem aterrizar numa (não) cidadezinha do agreste Brasileiro o resultado sombrio das divisões sociais em curso no mundo. Chegar à esse resultado não foi um trabalho da noite para o dia. Em entrevistas, os diretores disseram que entre idealizar e executar a película se passaram 10 anos, ou seja, quando Bacurau sobrevoava a cabeça de Kleber e Juliano, o ‘Som ao Redor’ que incomodava a vizinhança ainda eram outros. Como em Black Mirror, de Charlie Brooker, Bacurau sedimenta o cotidiano intermediado pela tecnologia e traduz o Geist da atualidade com roupagem de futuro distópico. A obra tupuniquim, no entanto, se diferencia da inglesa mostrando que a mesma tecnologia que mata também dá vida e ajuda o sertanejo à resistir. Logo, o que se lerá nas linhas a seguir não pode ser uma critica, pois não cabe a um filme dessa envergadura ser reduzido a palavras distantes, mas sim uma ode ao cinema que é pensado para gerar comoção e mudança social.

Começo afirmando que o filme pune sem pudor aquele que se aventura a assisti-lo por diversão. Espectadores superficiais se deparam com violência explicita e visceralidade na legitimação do safari humano. Nenhuma bala atirada ali é em vão. Cada morte está chancelada pela tríade política-entretenimento-ideologia, que nada mais é que o cotidiano de ódio atual em esteroides. O espectador assiste não só à possibilidade de genocídio, mas também à crueldade do fogo amigo, do abate animal, e da morte nada glamurosa na lâmina do facão. Embora a estética choque, esse não é o único ponto do filme. A meu ver, Bacurau é ainda mais violento quando esfrega na cara de seus espectadores os vieses e preconceitos arraigados em todo tipo de ideologia. À primeira vista espera-se de Bacurau um Grande sertão veredas, com o sertanejo é iletrado, sofrido e fascinado por um disco voador; entretanto, nos deparamos com uma comunidade vibrante e conectada humanamente através de tablets e smartphones e um caboclo rindo quando deparado com o formato inusitado do drone – e que atirem a primeira pedra quem não experimentou tal surpresa quando deparado com seu próprio viés psicológico. Outro viés importante a ser lembrado é o intelectualismo exacerbado diante dessa obra. É fácil aderir a uma soberba esquerdista, vestir uma camiseta hipster do MTST, e gritar #LulaLivre. O que ocorre é que esse intelectualismo sobe na garupa do trilheiros que invadem Bacurau, e que sem noção da sua importância se perguntam “o que há pra fazer nesse fim de mundo?” e “gostou da minha roupa?”. Vir “de uma região rica, mais ao sul do país e mais clara” não compensa a ignorância, paga com preço alto, de que Bacurau significa pássaro, e dos brabos. Sorte nossa dos habitantes serem espirituosos e, mesmo sabendo de nossas limitações, ainda assim nos convidam para ver a principal atração da cidade, o seu museu. Por sinal, Kleber e Juliano nos impedem de entrar nos primeiros minutos, onde só vemos sua faixada. Nós, espectadores sudestinos, não seríamos dignos de visitar tal espaço, ficaríamos no caminho brigando para que nos reconhecessem europeus, e deixaríamos ao gringo, mais uma vez, admirar e ter sua mão ensanguentada registrada na parede da memória do museu de Bacurau.

Além da violência explícita e contra as crenças do espectador, Bacurau chama a atenção pelo reconhecimento do poder de mobilização que chamamentos e vozes internas dirigem seus personagens. E é exatamente essa profundidade de que torna o enredo tão crível e familiar. Não foi difícil assimilar Lunga com Che, uma pessoa que aos olhos de Plínio deveria seguir escrevendo, mas que é muito bem quisto quando preciso para a luta armada. Também é natural entender Pacote querer ser chamado de Acácio diante da exposição midiática como top 6 como rei do gatilho, mas também é compreensível pedir para ser chamado de Pacote pelos forasteiros. Há também a sutileza de Plinio, o líder comunitário responsável pela gestão social da comuna, que também acha aceitável reabrir como igreja o deposito caso aquilo fizesse “bem” ao seu conterrâneo. De certa forma, a cidade utópica torna-se um exemplar político de comunidade, que ao invés de paternalismo e totalitarismo, permite que seja sua existência seja puramente orgânica e não estruturada. Um exemplo claro é na distribuição de mantimentos e medicamentos feitos por Domingas e Plínio na praça da cidade, um momento onde os dois importantes personagens contam com a consciência de cada um quanto a quantidade de comida a ser coletada e sobre os efeitos nocivos que psicotrópicos trazem à consciência coletiva. Bacurau funciona na base de valores fortes compartilhados que permeiam o imaginário social, e também pela possibilidade de emancipação e consentimento, quase sempre certo de que bons filhos a casa tornam, como no caso de Teresa e tantos outros apaixonados pelo agreste socialista.

Certos de que espectadores inflamados pelo ódio ou pela fácil vilanização dos personagens estrangeiros, Kleber e Juliano astutamente embaralham as motivações torpes como ‘they are criminals’ ou ‘I feel like shooting someone’ com a comunicação pelo ponto eletrônico. Essa construção narrativa expõe limitações em entender que não há começo e fim para aderir ao genocídio, algo que pode ser melhor compreendido na caçada ao jardineiro nú. Enquanto seu parceiro tem o rosto arrancado por um tiro de doze, Julia tem ferimentos graves, mas vive. Quando indagada pelo o jardineiro e sua companheira ‘porque vocês estão fazendo isso conosco?’, sua resposta traduzida foi ‘não sei’. Horas antes o ‘ponto’ os instiga a assassinar. Nem me preocupo em dizer que a vilanização é burra, caberia levantar aqui a quem pertence a voz que sai do ponto e entender como ela é capaz de cega e levar a atrocidades. Tampouco podemos culpar a tecnologia. Especular sobre o conteúdo da voz também seria mera especulação, e se isso fosse importante, Kleber e Juliano revelariam do que se trata. Nos sobra então enxergar que o que move a cegueira que mata por prazer é a voz do entretenimento. Tecnologia, nesse caso, dá o ‘empurrãozinho’, quem puxa o gatilho é o estrangeiro, mas quem guia é o prazer gerado pelo entretenimento.

Como visto, não traço paralelos entre Pacote, Domingas, Michael, Lunga, Plínio e Tony Jr. com Brasil atual ou cenários internacionais pois seria reduzir uma obra tão ampla e complexa a ponto de vista particular. Sou veementemente contra críticas, revisões ou discussões que partem da objetificação de Bacurau, como que tentando dissecar o pássaro ao invés de apreciar seu voo ou caçada. Sem dúvida que em tempos de retrocessos a arte nos salva e revigorar as energias para seguir resistindo e lutando contra um Estado violento, obscurantista e excludente. Mas, como diria Mano Brown, ‘isso não pode ser um evento festivo’. Bacurau, nos convida a engolir a semente da autorreflexão, capaz de revelar o porquê da inércia social a partir de nós mesmo. Há que use a sementinha de maneira recreativa, e esse é o ponto central dessa crítica, é exatamente essa atitude que leva o filme para a prateleira da Globo Filmes. No entanto, o povo e a estória de Bacurau são generosos, e nos convidam para mergulhos profundos nas não obviedades de sua trama. É do diálogo interno que brota a sensibilidade que ameniza a violência e entende que nada mais são que efeitos de entretenimento, como se fossem vozes no ponto que o caboclo que capturou Michael usa antes de enterra-lo vivo.

Sem mais, Canudos vive.




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