Juventude

ASSEMBLEIA CACH

Primeira assembleia dos estudantes de Ciências Sociais e História debate a crise política

O Centro Acadêmico de Ciências Humanas organizou nessa terça-feira a primeira assembleia dos estudantes de Ciências Sociais e História da UNICAMP, na qual estiveram presentes mais de 80 estudantes e se debateu a situação de crise política nacional. A continuidade dessa assembleia está agendada para próxima terça-feira dia 29, e terá como pauta prioritária a luta dos estudantes por acesso e permanência estudantil de qualidade, contra a privatização da universidade, relacionando com o pano de fundo dos ajustes dos governos e da crise nacional que influenciam essas questões.

sexta-feira 25 de março de 2016| Edição do dia

A assembleia aconteceu num momento nacional de grande efervescência e polarização, com atos de rua constantes e massivos. O debate centrou-se na necessidade de um manifesto político que expresse um posicionamento contrário ao impeachment da direita reacionária e contra os ajustes do governo do PT, lutando como os estudantes do Rio e São Paulo para defender a educação. A aspiração a “fazer algo” marcou as intervenções e também as conversas. Nós membros da chapa Sobre Jandiras e Simones viemos debatendo com a chapa majoritária dentro da gestão proporcional, que essa assembleia deveria ter acontecido antes devido a urgente necessidade de um posicionamento político dos estudantes.

Sobre as posições políticas que se expressaram no debate

Cinco posições foram marcadas: a de que é preciso ser contra o impeachment da direita reacionária e também aos ajustes do governo do PT, construindo um forte movimento nacional contra os ajustes e a impunidade, que não confie no Judiciário e questione todos os aspectos de democracia degradada desse regime político impostos pela Constituição tutelada pelos militares de 1988, defendida por nós estudantes militantes do MRT; a de que é necessário sair em defesa incondicional do governo de Dilma e do PT contra um golpe de Estado em curso, defendida por um estudante de Letras e militante do PT; a de que é preciso levar as investigações da Operação Lava-Jato “até o final”, que ela seja “menos seletiva” e investigue também os partidos da oposição de direita, e que é preciso clamar por eleições gerais, defendida por um estudante militante do MES-PSOL; a de que é preciso dizer “fora todos eles”, “fora Dilma, Lula, Aécio, Temer, Renan e Cunha”, e também ir às ruas por eleições gerais, defendida por estudantes militantes do PSTU; e a de que não deveríamos pautar a conjuntura nacional, que deveríamos debater “o que interessa aos estudantes”, defendida por um estudante militante ligado à Alternativa Sindical Socialista, ASS.

Confiar na força da juventude e dos trabalhadores para uma saída forte e independente

A nossa defesa do MRT não tem nenhum ceticismo na força que pode vir da luta da juventude, das mulheres, negras e negros, dxs LGBTs e todos os setores oprimidos que junto aos trabalhadores são os únicos que podem dar uma resposta realmente independente à crise política. Não podemos confiar em nenhum dos setores que estão num impasse para decidir por qual mão virá os ataques aos trabalhadores e a juventude. Por isso não podemos fazer coro com a direita e precisamos dizer um não contundente ao impeachment. Isso não significa cair no papo furado dos governos do PT, e de seus aliados burocratas da UNE e CUT, que busca se aproveitar do legítimo sentimento contrário ao impeachment para legitimar os novos ataques que estão por vir. Tampouco confiamos em Moro e na justiça ou que temos que nos resignar a novas eleições.

Nós acreditamos que podemos seguir os exemplos dados pelos garis do Rio de Janeiro que combateram as burocracias sindicais e triunfaram em sua batalha, que podemos nos apoiar na força da juventude que se levantou em Junho de 2013 e ocupou as escolas em São Paulo, bem como em cada processo de luta e construir um forte movimento nacional contra os ajustes e a impunidade dos governos, que pela força da mobilização também questione essa constituição pactuada com os militares e torturadores em 1988. Podemos questionar todas as leis que hoje só servem a interesses alheios aos nossos, os privilégios dos políticos e funcionários do alto escalão, os seus salários milionários que são mais de 50 vezes maior que os salários de professores, questionar a falta de revogabilidade e tudo que embasa essa democracia dos ricos. Como serão geridos nossos recursos naturais, os problemas de moradia, a saúde, a educação, os transportes e muito mais? Nós podemos ser sujeitos. A partir desse forte movimento, propor pelas nossas próprias forças uma assembleia constituinte livre e soberana, onde a classe trabalhadora e a juventude terão voz e poder de decisão.

“Lava Jato até o final”, “Fora todos” e “Eleições gerais” fortalecem o impeachment e a direita

As posições defendidas pelo MES e PSTU convergem em um ponto fundamental: apontam uma “saída” que não fortalece a independência da juventude e dos trabalhadores, não demarcam nitidamente uma posição contra o impeachment da Dilma, reforçam o chamado por “eleições gerais já” e acabam sendo auxiliares da política da oposição de direita.

Enquanto o PSTU fez malabarismos para dizer que é contra o impeachment e a justiça, na prática, em todas as faixas que levanta, a sua defesa do “Fora todos eles/ Eleições gerais já” é absurda, na conjuntura onde os setores que estão nas ruas pela derrubada da Dilma é uma classe média, que se apoia na polícia Federal, com Sérgio Moro como seu herói nacional. O PSTU defende que o “impeachment de Dilma só poderia trazer um governo mais fraco e que a burguesia está sem alternativas”- Uma conclusão que só pode nos levar a crer que vêm como progressivo o impeachment levado pelo PSDB, FIESP e setores do judiciário.

Já o MES defendeu a posição que Luciana Genro veio expressando nas redes sociais de que, “apesar da Lava Jato ter por trás de si interesses imperialistas ela deve ser levada até as últimas consequências e investigar sem seletividade todos os partidos corruptos”. Além do “bom trabalho” que afirmam que vem fazendo Moro e companhia, não são minimamente críticos de que essa Operação nunca servirá para combater a impunidade, seja do PT ou mesmo de todos os outros corruptos. Se esquecem que Moro já trabalhou no Departamento de Estado dos EUA, que é casado com uma advogada que trabalha em um escritório que prestas serviços a SHELL, e muito menos criticam seus privilégios, como seu salário de mais de 87 mil.

Na defesa de “Eleições gerais já” PSTU e MES convergem em buscar uma saída que não fura a fisiologia desse regime de democracia degradada. Essa alternativa é idêntica a que é proposta por Marina Silva, da REDE, a mesma que chamou voto em Aécio no segundo turno das eleições passadas! As falas na assembleia colocaram que “as eleições gerais permitiram expressar a voz do povo” ou ainda que “é fundamental que o povo possa escolher um novo governo já que está insatisfeito com esse”. Essas afirmações prendem o imaginário da juventude e dos trabalhadores ao jogo, como se apenas mudando os jogadores, sem quebrar as regras, fosse possível ter algum espaço à nossa classe. Essa política além de fortalecer a direita e não combater o governismo, ainda reforça uma desmoralização: é como se não pudéssemos confiar em nossas próprias forças e tivéssemos que necessariamente estar reféns desse regime, apenas trocar um governo e deixando intactas suas bases mais reacionárias que foram pactuadas pela Constituição de 88.

O PT e seu plano de governo Lula-Dilma não são nossa alternativa

A posição defendida pelo estudante do PT, a mesma defendida na mesa realizada pelos professores na Associação de Docentes da Unicamp, tentou se apoiar numa indignação real de alguns estudantes contra as arbitrariedades do “Partido Judiciário e da Mídia” e da oposição de direita, para defender que a luta contra o impeachment, deve ser a luta em defesa incondicional do governo do PT, e por consequência dos seus ataques.

A verdade é que o PT está buscando instrumentalizar essas aspirações democráticas para tentar salvar sua pele diante da crise política. Não é possível acreditar em um governo que, em sua trajetória fortaleceu a direita e agora lhe abre mais espaço, que durante tantos anos governou ao lado do PMDB, e agora junto ao PSDB quer entregar o Pré-Sal ao imperialismo, sua lei “anti-terrorismo” contra os movimentos sócias, o projeto de reforma da previdência contra os trabalhadores, além dos inúmeros ataques e cortes a educação e saúde.

Debater a crise política não é de interesse dos estudantes?

A posição defendida pelo estudante da ASS usurpa um sentimento legítimo de alguns estudantes que, diante de um verdadeiro mar de corrupção envolvendo praticamente todos os partidos e grandes figuras políticas, acabam desacreditados da importância de se posicionar e debater política. Essa posição alimenta um ceticismo em relação às possibilidades de enfrentar as formas hegemônicas e reacionárias de se fazer política. Se não opinamos, estamos deixando que falem por nós, decidam o nosso futuro enquanto abaixamos a cabeça. Mais que opinar podemos ser também sujeitos da transformação desse jogo sujo e seus dados viciados. Além disso, essa defesa é contraditória, pois é a que menos arma os estudantes para conquistar efetivamente suas demandas mais específicas, afinal de contas é pelos meandros da crise que foram feitos os cortes bilionários na educação e em todos os serviços públicos essenciais, a queda na oferta de bolsas e até mesmo a falta de tonner na impressora do nosso instituto, estão completamente ligadas aos cortes do governo.

Um posicionamento sobre o ato de 1° de abril chamado pela CSP-Conlutas

O posicionamento da assembleia acerca do ato que está sendo convocado pelo Espaço de Unidade e Ação para o dia 1º de abril, composto por entidades e partidos políticos antigovernistas, que tem como direção majoritária o PSTU, foi o de que a posição dos estudantes de Ciências Sociais e História será expressa em um manifesto político reivindicando que este ato assuma uma posição resoluta contra o impeachment e os ajustes do governo do PT. Essa proposta, que ganhou por ampla maioria, foi defendida pelos militantes do MRT. Diante da situação nacional, queremos uma posição independente e que não se cole a qualquer dos dois blocos burgueses. Decidiu-se abrir esse debate político, através de um chamado à CSP – Conlutas e o Espaço de Unidade e Ação que revejam o mote de “Contra todos” e assumam a bandeira “Contra o impeachment reacionário da direita e os ajustes do governo do PT”, podendo assim ser de fato construir uma alternativa classista dos trabalhadores, da juventude e do povo pobre.




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