Política

07/09 EM BRASÍLIA

Sobre o sete de setembro de hoje e as mentiras da grande mídia

É fora de questão que a grande mídia manipula informações todos os dias, sempre na tentativa de acomodar a realidade dentro da sua perspectiva de classe e dos seus interesses políticos de momento e, claro, estratégicos. O sete de setembro, hoje em Brasília, não esteve fora disso.

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 7 de setembro| Edição do dia

A mídia não pôde deixar de informar sobre as vaias e contra-vaias nos palanques próximos ao das autoridades; e isso em palanques ultra-censurados, onde você só entra após cuidadosa e mais que seletiva triagem policial, onde não entram bandeiras e nada parecido com faixa de protesto; e nos palanques próximos dos políticos, somente podem entrar número limitado de pessoas. Mesmo assim teve a cena da vaia bem diante do Temer, que a mídia captou.

Só que teve muito mais. Mas não na linha do parcial e interesseiro relato da imprensa paroquial de Brasília e nem no da grande mídia de fora daqui. Disseram que somente havia 800 manifestantes dos movimentos sociais e mais de vinte mil nos palanques do governo e que tudo transcorreu dentro da ordem exceto por uma agressão a jornalista da mídia amestrada que estava entrevistando um grupo fascista. No entanto, quem lá esteve e viu tudo de perto deve ficar pasmo com essa narrativa quando chegar em casa e ligar a TV etc e também com a cuidadosa edição de imagens para coincidir com a narrativa.

Aqui no chão de Brasília a realidade foi outra. Os movimentos sociais e os partidos da esquerda chamaram e organizaram uma manifestação [a tradicional “marcha dos excluídos”] para acontecer na praça do sete de setembro, uma marcha que terminaria lado a lado com o sete de setembro oficial, portanto, próxima ao palanque dos políticos. Prevendo isso, o governo desde bem cedo bloqueou a pista de acesso ao local e reteve, à força de polícia, os manifestantes populares a 2-3 km de distância, despejando uma enorme quantidade de efetivos de repressão, cães, farta tropa de choque, cavalaria e um sem fim de veículos de combate policial por todo lado. Enquanto aquela mobilização popular ia tomando corpo, às centenas, e mais tarde aos milhares, a barreira policial agia para impedir – com sua força material de dissuasão - que ela circulasse livremente; foi obrigada a ficar concentrada bem longe [o propagandeado direito de ir-e-vir da democracia burguesa só serve para ser agitado contra nós].

A passeata popular teve que ficar plantada a 3 km do local do Temer e autoridades, até que o desfile oficial, feito celeremente, fosse dado por encerrado. Postaram nas nuvens, com fumaça de aviões o “orgulho de ser brasileiro”, fizeram seus salamaleques, assistiram ao desfile e somente depois as tropas policiais receberam ordens de cima para desbloquear as ruas que dão acesso ao centro geográfico do poder. Isso é o que a mídia não informou ao Brasil. O sete de setembro deles é feito nos marcos de um poderoso cerco policial. E de um cordão sanitário de força para manter o povo que protesta à distância.

E tampouco a mídia informa os números com um mínimo de seriedade. No real, o que se viu, uma vez desbloqueada a avenida que dá em direção ao local central do sete de setembro, foram dezenas e dezenas de milhares - muito mais gente do que o total das arquibancadas -, marcharem aos gritos de “fora Temer”, até a praça dos três poderes, que, a essa altura já tinha sido esvaziada, com as autoridades tratando prontamente de se retirar uma vez dado por encerrado o “seu” sete de setembro. Tão rapidamente quanto o Temer chegou no seu carro fechado, e mais adiante, uma vez dada por encerrada a cerimônia, a grande mídia, a postos, saiu a anunciar que havia oitocentas pessoas no sete de setembro das organizações populares. E postou a narrativa acima.

E graças à essa mídia seletiva, claramente ideologizada, editada, a serviço do grande capital, os brasileiros do resto do país não ficarão sabendo que Temer, com todo seu aparato de Estado, e como bom golpista, com medo de circular em carro aberto, reuniu menos gente do que os movimentos sociais; que tiveram que ficar detidos pelas forças de repressão a 2-3 km dali, gritando “Fora Temer”, e agrupando, ao final, muito mais gente, no mínimo mais do que o governo, sendo que muitos dos populares que a mídia computa como público do sete de setembro “do governo”, eram massas e famílias populares que vinham fazer ali seu tradicional “domingo no parque” do sete de setembro, e para nada fascinadas pelo “novo” governo.

Assim fica fácil manipular a história.

Depois reclamam quando a esquerda propõe fazer o que o lulo-petismo jamais faria: a mais ampla liberdade de informação, partindo de estatizar a grande imprensa e colocá-la sob controle dos trabalhadores da mídia e dos organismos de classe.




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