Cultura

CRÔNICA

Sobre o frio, o calor e outros demônios

Iuri Tonelo

São Paulo

quarta-feira 10 de julho| Edição do dia

As redes sociais tem desses debates bem humorados que em tempos de polarização todos gostamos de dar nosso pitaco. Um deles é uma disputa por o que é melhor, tempos de frio ou de calor. Eu confesso que as vezes gosto de um, as vezes de outro. Mas não é exatamente sobre isso que queria comentar.

Nem sempre o debate é sobre a melhor forma de bem-estar: numa sociedade de extrema desigualdade como a brasileira, as vezes o frio e calor podem ser ruins, ou terríveis.

Hoje eu estava indo pra minha cidade, e peguei o trem na luz, até o ponto final. Era feriado então a viagem seria tranquila, bem diferente dos dias de cão que dia a dia os trabalhadores enfrentam na sua jornada durante os horários de pico. Eu não sabia, mas um trecho do metrô da Zona Leste estava fechado, então só restava pra muito a opção do trem.

A plataforma estava lotada: eu já andei muitas vezes num trem lotado, então seria outra vez. Pra falar a verdade, não ocorreu nada de anormal na viagem, mas dessa vez queria comentar algumas coisas.

Logo que entramos deu pra sentir o aperto exagerado, mas passados cinco minutos eu pensei nessa questão que está no título do texto: passei de sentir o frio intenso de São Paulo, para um calor grande do vagão. Bom, não era nada demais pra mim, eu só estava numa viagem de lazer pra ver minha mãe e sobrinhos. Mas me chamou a atenção olhar para os lados.

Aliás, na minha frente tinha uma senhora, de uns 60 anos, negra, com um acompanhante, um trabalhador de uns 40. No trem apertado, a estatura conta quando se trata de respirar. As pessoas colocam a cabeça pra cima em busca de ar, ou de algo de ar condicionado que supostamente existia. Aquela senhora não podia respirar, começou a passar mal, mas nem isso podia, é frescura. Cogitou com seu acompanhante se deviam e esperavam, ele apenas disse: não adianta.

Na segunda estação uma pessoa realmente passou mal, e foi bem difícil sair, quase não saiu, tiveram que segurar a porta do trem para em um certo tempo ir abrindo o espaço para ela sair, conseguiu...alguém brincou "tchau", eu já não sei dizer se a insensibilidade tornou-se brutal ou se a comédia com a dificuldade era a defesa que restava.

Outra pessoa, isso estou falando de um espaço de dois ou três metros quadrados, também passou mal, estava sentado, apenas ouvi o comentário: era problema de pressão.

No meio disso o som do trem disse: "abuso sexual é crime, denuncie", e muitas pessoas riram, muitas mulheres, a campanha é mais que necessária mas naquele ambiente pareceu uma piada. Imagino a raiva das mulheres que enfrentam isso todo dia.

Eu tentava olhar as pessoas no olho: passar algo assim da um misto de sofrimento, mas também de humilhação. O trabalhador no seu dia a dia diante de um descaso tão grande se sente humilhado.

Em suma, em meio do frio grande de São Paulo, o calor não foi alegria, mas sufoco e um pouco de sofrimento. Agora sabe o que é duro? Pensar que esse sofrimento, tão corriqueiro na vida dos que pegam esse trem da Zona Leste, é pouco perto do frio. Os jornais vão anunciando, uma, duas, tres, várias mortes em São Paulo, por causa do frio! Pensar isso é simplesmente assustador: talvez agora a noite, enquanto o trem vai esvaziando e vamos retomando o ar, prendemos de novo no peito de angústia de que talvez mais algum ser humano esteja morrendo em uma cidade extremamente rica...de frio.

A razão de tudo isso não está na natureza humana, em um acaso, em altos e baixos da vida e da sociedade: a razão disso está na extrema desigualdade social e na sede de lucros que empresários e banqueiros não se cansam de ter, e pior, bem pior, nos horrorizemos com isso, tudo isso apenas em razão de aumentar ainda mais lucros que já são milionários ou mesmo bilionários. Pra eles o calor e o frio são sempre uma decisão em suas mansões com ar condicionado e aquecedores.

Para a massa trabalhadores e a população pobre, calor e frio podem ser motivos de sofrimento, tormentas, e até questionam a vida.

Por fim, enquanto escrevo essas linhas, estão chegando notificações dos jornais que eu leio sobre a reforma da previdência.

Meu irmão, você ainda acredita que a solução do Brasil é que essas senhoras e trabalhadores nesse trem trabalhe cinco, dez, quinze anos a mais? Ninguém tá questionando nenhum privilégio com essa reforma, ninguém está questionando esse regime de espoliação e humilhação sistemática dos trabalhadores em nosso país. Ao contrário, e para não restar dúvida disso, o próprio presidente diz que uma criança trabalhar aos dez anos é bom e dignifica...a falta de vergonha na cara chegou a esse ponto, só faltam defender que a escravidão não foi tal ruim, talvez o façam.

Podem fazer, podem ir humilhando e explorando os trabalhadores, que tentem o máximo e se enebriem com sua farra...
o mundo dá voltas, nós continuamos organizados e o organizando a resistência.

*

Cheguei em Mogi das Cruzes, minha cidade. Aquela senhora que falei no começo olhou pra gente, se despediu e agradeceu, porque no momento do trem cheio ela segurou na nossa blusa...ela sorriu e agradeceu, parecia que dizia, como no poema de Drummond, "não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas"...




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