Gênero e sexualidade

DIREITO AO CORPO

Sobre o direito ao corpo, ao parto e ao aborto

Reproduzimos aqui postagem da Marília Rocha, trabalhadora do grupo de mulheres Pão e Rosas, diretora do sindicato de metroviários e mãe da Violeta

sábado 30 de setembro| Edição do dia

Meu post em homenagem à Violeta, nesse dia 28, dia latino americano e caribenho pela legalização do aborto, não poderia deixar de citar que esse capitalismo que impede que as mulheres possam decidir sobre seu corpo e escolher se querem abortar ou não, também não nos dá o pleno direito à maternidade.

Nos tira o direito à maternidade quando não fornece creches, restaurantes e lavanderias públicas. Quando nos faz trabalhar até morrer e retira os mais mínimos direitos das mulheres, gestantes e lactantes. Quando nos faz trabalhar em jornadas extenuantes e não nos dá tempo para cuidar de nossos filhos.

Mas o capitalismo é mais cruel. Ele nos tira o direito à maternidade plena quando não dá opção da mulher escolher como parir, submetendo as mulheres que não tem dinheiro para pagar pelo elitizado parto humanizado, salvo raras exceções, a um parto normal muitas vezes com violência obstétrica ou a cesarianas na maioria dos casos desnecessárias.

Muitas vezes me perguntaram se eu me arrependia de ter feito o meu parto numa casa de parto. Muitas pessoas não tiveram coragem de perguntar mas me sinto julgada e sinto que gostariam de saber. Então vamos falar sobre isso.

Se pudesse voltar no tempo faria tudo exatamente da mesma forma. A opção do parto na Casa Ângela não somente foi a melhor pensando no melhor para nossa filha, mas foi a única viável sem gastar dezenas de milhares de reais para ter uma parto com o mínimo de humanização. O mínimo mesmo. Quando chegamos pela primeira vez na Casa Ângela fomos acolhidos de uma forma tão radicalmente diferente da frieza dos hospitais e médicos tradicionais, que somente a possibilidade de não ter meu parto lá me desesperava.

Não me interpretem mal, não julgo as mulheres que optam pela cesária (que, aliás, pode ser necessária e também pode ser humanizada), por intervenções medicamentosas no parto normal ou qualquer outra forma de parir. Mas o parto humanizado foi minha opção, estava e estou segura dela, e ainda acredito profundamente nisso.

Não encontrei nenhum médico que me fez sentir segura, respeitada e protagonista do meu corpo como me senti na Casa Ângela. Talvez se algum médico tivesse me tratado de forma diferente eu tivesse optado por fazer meu parto, humanizado, num hospital, e nada disso tivesse acontecido. Talvez tivesse acontecido da mesma forma, já que todos os dias acontece nos hospitais o mesmo que aconteceu conosco na Casa Ângela (só que lá aconteceu pela primeira vez).

O fato é que responsabilizo, talvez indiretamente, talvez diretamente, o capitalismo, a indústria da saúde e a medicalização do parto pela morte da nossa filha. Por isso também tomei a difícil decisão de continuar vivendo e todos os dias tomo a difícil decisão de levantar da cama e lutar contra esse sistema. Devo isso à Violeta, meus próximos filhos merecem isso e os filhos de todas as mulheres.

Pelo direito de decidir, pelo direito pleno à maternidade.

* Violeta foi vítima de anóxia neonatal, nasceu dia 08/12/2016 e em coma na UTI até dia 28/02/2017, quando faleceu.

foto: https://promundo.org.br/2016/03/01/movimento-pelo-direito-ao-parto-humanizado-e-contra-retrocesso-da-resolucao-do-cremerj-acontece-no-rio-de-janeiro/




Tópicos relacionados

Dossiê282017   /    Parto   /    Direito ao aborto   /    Gênero e sexualidade

Comentários

Comentar