Cultura

CRÔNICA (OU NÃO?)

Sobre a vida que só pode ser vista de olhos abertos

[ou sobre a dor dele, ou sobre a dor dela, ou sobre o peso da vida, ou mesmo sobre a vida que só pode ser vista, sentida e vivida de olhos bem abertos]

Iaci Maria

Belo Horizonte

sábado 26 de novembro| Edição do dia

Imagem: Noite Estrelada - Vincent Van Gogh

Um dia ela recebeu uma notícia triste. Dentre as notícias tristes desse tipo que ela já havia recebido, essa não foi a mais triste. Ainda restava um suspiro. Ainda havia um respiro. Mas foi a que mais doeu. Doeu pelo sentimento que se sentia, que ainda se desenvolvia, sem a certeza se deveria ou não se desenvolver, mas a realidade na prática não se faz de certezas, ela acontece enquanto você pensa se quer que aconteça ou não.

Doeu porque ela não sabia que nele doía assim. Quisera ela ter sabido antes. Não mudaria nada na realidade dele, mas ela teria mandado uma música, um poema, uma palavra bonita. Ela teria escrito uma crônica, ou conto, porque é o que ela sabe fazer, embora ela não entenda de categorias literárias. E nem quer entender. Escreveria alguma coisa, uma junção de palavras que dissessem coisas doces e, talvez, reconfortantes. Se estivesse perto, e ela poderia ter estado por alguns momentos se soubesse que doía, ela teria dado um abraço apertado até sufocar. Mas no fundo ela sabe que nada disso mudaria a dor dele. No fundo ela sabe que o querer saber dela não passa de um sentimento egoísta. Ou talvez não. A confusão de ideias também faz parte da vida dela.

Mas a dor era dele, é dele, e de mais ninguém. De mais ninguém, além de ser também de muitos, de quase todos. Já foi dela e às vezes ainda é. E se tem uma coisa que ela aprendeu com a vida é que é preciso respeitar as dores dos outros. As decisões dos outros. Só que o que dói nela hoje pela dor dele não são as decisões, e sim o desespero. O desespero do peso da vida. Porque ela sabe – ou acha que sabe, talvez não saiba nada da vida essa menina – o quanto a vida pode ser pesada, e sabe que as pessoas sentem seu peso de maneiras e com intensidades diferentes. A vida pesa. Não deveria, mas pesa. “A vida é bela” dizia aquele carinha lá, e ela até riscou isso na pele pra nunca esquecer. Mas as coisas da vida, as tretas da vida, tal como a vivemos, isso pesa. Isso dói. E ela respeita a coragem de quem escolhe não pesar mais. Mas também respeita muito a coragem de quem sente o peso e, querendo sucumbir, ainda levanta e anda. Levanta, anda, e luta. Alguns não conseguem, e não há nada a que se cobrar desses. Foram até seu limite, deram o que puderam dar, e não conseguem mais. Justo. Que descansem. Outros seguem, como em uma prova de revezamento, pegue o bastão de quem foi até onde pôde, e siga. Se pesar demais, pára um pouco.

E ela se divide, entre a compreensão e o sentimento de que precisa da força dele nessa luta. Porque tem tanto pra aprender com ele ainda. Ela só queria que ele soubesse que os pequenos olhos escuros dela, que ele tanto gosta, estão ansiosos para brilhar de novo olhando pro grande sorriso dele, que ela tanto gosta. Que sorri também com os olhos. E que uma vez ele olhou pra ela com um olhar tão profundo, e talvez ele não tenha tido a intenção e nem mesmo percebido, mas foi naquele momento que ela se encantou, e não mais deixou de sentir essa vontade de sorrir ao olhar pra ele. No fundo, ela só quer poder olhar em seus olhos sorridentes novamente. E não só ela. Então abra esses olhos sorridentes. Eles precisam ver o que ainda está por vir.

“A nova arte não só mudará a vida, mas lhe arrancará a pele. Amar a vida com o afeto superficial do diletante não é um grande mérito. Amar a vida com os olhos abertos, com um sentido crítico cabal, sem ilusões, tal como ela nos aparece, com o que nos oferece, essa é a proeza. Nossa proeza é realizar um esforço apaixonado para sacudir aqueles que estão entorpecidos pela rotina; fazer com que abram os olhos e vejam aquilo que se aproxima.” [O grande sonho – Leon Trotsky]




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