Cultura

LITERATURA

Sobre a Primeira Chuva Que caiu

Segunda parte da série de textos de Marcelo Magalhães

sexta-feira 19 de agosto| Edição do dia

Vestígios – 3 Fração

Começou com um dor no ombro esquerdo, que passou para o direito e os dois ombros tensos esperavam. Esperar foi calmo, era como esperar uma grande onda no mar. A onda se quebra na encosta. Encosta seu corpo perto do meu, impulsos elétricos que se espalham pelo corpo, que se contrai. Agora meu joelho esquerdo dói, e não saberia dizer onde e como o machuquei. Será que foi no contato? Na fricção? No calor? No andar? No sorrir durante os beijos? E machucar o joelho, mas precisamente atrás do joelho esquerdo, como se machuca um lugar desses? (Meu corpo dói quando eu amo alguém)

Vestígios – 2 Fração

Talvez nunca se respondam algumas perguntas feitas para o mar. Descobrir todos os copos em que você bebe café. Deixar marcas de isqueiro. Teu cheiro, tuas mãos geladas, e todos os pequenos detalhes delicados saborosos, que não param de aparecer e ficarem mais saborosos, e mais delicados. Segredos que são observados pelo binóculo. Tua boca com gosto de cigarro. Deixo um gosto na minha boca para passar pra sua, para tocar suas costas, para morder seu pescoço, lamber sua virilha, enroscar o piercing – pausa para tirar os fios de cabelo das bocas – beijar sua boca com gosto de boca. Sua língua! O sol faz seu cabelo ficar avermelhado. Minha curiosidade sobre sua vida, sobre você aumenta. Penso em perguntas que são esquecidas.

Vestígios – 1 Fração

Teus ossos. Guardando pequenas frações daquilo que você deixou no espaço, juntando fios do seu olhar, montando distraidamente uma colagem, um curta-metragem, uma historia contada em partes, partes inúteis, destacadas do caderno. Os detalhes da historia que leitor distraído esquece, assim como esquece onde colocou a chaves, onde está o celular? Como fala aquela palavra em inglês? Os grandes momentos são extravagância. A tampa do pote. A faca do assassino. A ponta do Lápis. O olhar perdido em uma fração de segundos onde o pensamento vai parar em uma cena, passada, futura, presente, no momento, nesse instante perdi minha cabeça em alguma pequena curva do seu movimento, em algum ponto sutil do seu corpo que ao tocar. Impulsos elétricos. É a pequena tortura. A vareta de bambu que entra embaixo da unha. O desnecessário tortura. Quantas células despedaçadas deixaram pedaços meus no teu dedo. O teto tem uma cor amarelada, o teto de cor amarelada, o teto amarelado, meu olhar perdido, a chave esquecida no bolso - pausa para tirar um fio de cabelo da boca - o celular vibra em algum canto...

Revisão: Samanta Tavares




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