Política

DEBATE NA ESQUERDA

Sobre Freixo: porque não se pode "lutar pela democracia" com a direita

Freixo retirou sua candidatura em nome de construir uma "unidade ampla". Mas que unidade precisam os trabalhadores e a esquerda para derrotar Bolsonaro, Mourão e conquistar suas demandas?

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

Carolina Cacau

Foi candidata a vereadora do MRT em 2016, é estudante da UERJ e professora da rede estadual.

segunda-feira 8 de junho| Edição do dia

O Rio de Janeiro é um dos epicentros das enormes crises política, econômica e social que assolam o país. Uma violência estatal enorme exercida sem trégua contra os negros e os trabalhadores, e que não poupa sequer as crianças, segue vigente mesmo em meio à pandemia. Neste contexto os desafios para a esquerda do Rio de Janeiro são enormes, e exigem que as tarefas sejam claramente definidas. Algumas saídas nas quais vários setores apostam como vias para avançar no combate a Bolsonaro se evaporaram no ar nas últimas semanas. Uma delas foi desistência da candidatura de Marcelo Freixo pelo PSOL à prefeitura do Rio de Janeiro. Anunciando que estaria sendo motivado pela “necessidade de agir em nome de um bem maior que projetos pessoais”, Marcelo Freixo alegou que a impossibilidade do consenso sobre a formação de um bloco eleitoral em que encabeçaria a chapa com o PT motivou sua decisão. Sua aspiração seria ainda a de que a chapa que não se conformou angariasse o apoio do PCdoB, PSB, PDT, ao menos.

Isso abre a necessidade de um debate com os apoiadores e eleitores de Marcelo Freixo e do PSOL e com todos que se colocam no campo da esquerda nacionalmente. Essa discussão transcende os limites da mera discussão sobre a desistência da candidatura em si, mas deve tratar do conteúdo que ele está dando para essa atitude e qual deveria ser a alternativa de esquerda frente a situação que estamos.

Certamente a pergunta que passa pela cabeça de milhares de pessoas é o que fazer diante de um governo de ultradireita, que nos ataca sistematicamente retirando direitos dos trabalhadores e ampliando as riquezas dos que já têm muito, com suas afirmações chocantes pelo reacionarismo, sua postura negacionista frente à pandemia. O Brasil acumula dezenas de milhares de mortes, situação marcada ainda pelo desespero pelo desemprego e pela fome.

O retorno da luta de classes e o combate à ultradireita

Essas questões ganham ainda mais relevância em meio a um contexto internacional marcado pela explosão de revolta contra a morte de George Floyd nos Estados Unidos, que está colocando o mentor supremo de Bolsonaro, Donald Trump, contra as cordas. As ruas tomadas por multidões contra a repressão do Estado às pessoas negras, encontrou eco em diversos países do mundo. Na França, na Inglaterra, e também no Brasil. Aqui as mobilizações contra os assassinatos de João Pedro pela ação da polícia no Rio de Janeiro se deram concomitantemente às manifestações antifascistas contra Bolsonaro em São Paulo. A possibilidade da volta às ruas passa a ser a tônica presente em uma situação em que se agudizam as tensões pelo alto, entre o autoritarismo ultradireitista de Bolsonaro sustentado pelos militares de um lado, e o autoritarismo do STF de outro. Qualquer posicionamento da esquerda deveria passar por organizar e fortalecer esse movimento de retorno da luta de classes, dotando-o de um programa e estratégia à altura dos desafios atuais, inclusive de como lidar com mobilizações no marco de uma pandemia, que coloca limites mas não pode paralisar a luta. Esse conjunto de fatores exige ainda mais da esquerda, para responder à questão sobre qual a saída para derrotar a extrema direita em nosso país.

Na contramão de uma resposta efetiva para essa situação, Marcelo Freixo veio apostando todas as fichas na salvação do regime político de 1988. É dessa maneira que crê que combaterá o fascismo. Para tal se lançou a articular não apenas uma Frente Ampla eleitoral do PSOL, PT, PCdoB, PDT e PSB, como também um Manifesto articulado com golpistas e direitistas de todas as vertentes, inclusive grandes capitalistas como o maior bilionário do Brasil, Jorge Lehman e a família Setubal dona do Itaú. Esse segundo aspecto é mais chocante, na medida em que confia-se que os responsáveis pelo golpe institucional de 2016, que pavimenta o fim do regime de 1988 que Freixo quer ressuscitar, a tarefa de “combater o fascismo” de Bolsonaro e seus apoiadores. Caracterizando os golpistas de ontem como “direita democrática”, Freixo busca articular-se com inimigos dos trabalhadores como Rodrigo Maia. É sempre bom lembrar que Maia se apressou em saudar a retirada de candidatura de Marcelo Freixo que disse que se não chegasse num acordo no Rio, poderia apoiar Eduardo Paes num segundo turno contra Crivella na mesma entrevista para O Globo em que anunciou sua retirada.

Um primeiro elemento a ser apontado é a contradição entre a definição de que estamos diante de um governo fascista, e a saída apontada por Freixo. Cabe aqui uma precisão que não tem nada de preciosismo acadêmico, mas é importante porque daí derivam as tarefas da esquerda. Sem dúvida Bolsonaro e sua família são fascistas. Mas isso não equivale a dizer que vivemos num fascismo instalado. As disputas internas entre o governo e o STF são expressões disso. Ainda não há ataques físicos às organizações da classe trabalhadora, algo que caracteriza o fascismo historicamente. Isso significa dizer que a situação não é grave? De forma alguma. Pelo contrário, equivale a colocar que a esquerda tem a tarefa emergencial de se voltar à classe trabalhadora e aos setores explorados e oprimidos para organizar a força material que pode derrotar Bolsonaro e os capitalistas que o sustenta. A classe trabalhadora e o povo estiveram paralisados até agora por conta de suas direções. Mas não estão derrotados estrategicamente, num caráter que impeça novos levantamentos. Além disso, há uma incongruência flagrante da política de Freixo. Como se pode querer combater o “fascismo” ao lado dos golpistas, através de meros manifestos e de uma estratégia eleitoral?

Portanto, neste momento crucial negar a necessidade da independência de classe em nome de uma lógica de amplitude numa unidade que vai tão longe que chega a dialogar com Janaina Paschoal, Alexandre Frota, membros do MBL, é simplesmente o drástico oposto do que se deve fazer. A nossa saída não pode ser por dentro desse regime em franca decadência, e muito menos semear ilusões de unidades com setores golpistas e direitistas que defendem e aprovam todos os ataques aos direitos da classe trabalhadora, como a reforma trabalhista e a reforma da previdência. Apostar na conciliação de classes e somente nas saídas por dentro do parlamento, é pavimentar um caminho que só pode culminar na derrota.

Certamente ninguém duvida que é necessária a constituição de uma unidade para derrotar Bolsonaro e a extrema direita. Mas a questão é unidade para quê e com quem?

Quais aliados e métodos a esquerda deve assumir

O problema central da política de Freixo é que falta um ator fundamental, que com seus métodos precisa apontar uma saída independente para a situação. E esse ator é a classe trabalhadora. Os métodos são os da luta de classes. Neste momento, sem dúvida deve-se constituir a mais ampla unidade. Porém, não com os políticos dos partidos capitalistas e golpistas que abriram caminho para a ascensão de Bolsonaro em 2018. O caráter amplo do movimento deve ser constituído por todos os que hoje se revoltam contra o assassinato de João Pedro, os que estão perdendo seus entes queridos pela pandemia que se agrava por responsabilidade de Bolsonaro e dos capitalistas, pelos que não aguentam mais viver sem qualquer garantia de um futuro minimamente digno. Em outras palavras, a unidade ampla deve envolver os trabalhadores, jovens, negros e negras, LGBTs, para construir uma força não apenas parlamentar, mas nas ruas, que seja capaz de impor que não sejamos nós os que paguemos pelas crises que não criamos.

Não vamos resolver nas eleições o que só pode se resolver no terreno da luta de classes concreta. O único papel da classe trabalhadora nessa proposta é votar de dois em dois anos, no mal menor, contra o mal maior e ter ilusões em parte dos partidos que nacionalmente retiraram direitos fundamentais dos trabalhadores. Freixo nunca faz chamados as centrais sindicais e aos sindicatos, chama uma Frente eleitoral, enquanto parte dessas mesmas correntes que supostamente vão combater o fascismo, dirigem, milhares de sindicatos e as principais centrais sindicais do país, seguem sendo um freio para a luta e garantindo que os trabalhadores não sejam sujeitos, dirigindo de cima para baixo. Não atuam para que a classe trabalhadora seja sujeito nos rumos do país. CUT e CTB, organizaram junto as demais centrais sindicais, um 1 º de Maio online, no qual o centro não eram os trabalhadores que são linha de frente na luta contra pandemia, trabalhadores da saúde, trabalhadores dos serviços essências. Convidaram pra um palanque exatamente os inimigos da classe trabalhadora, Maia, Alcolumbre, Witzel, Doria, FHC, Dias Tofolli. É um escárnio com todos no Rio, chamar Witzel, num governo que mistura escândalos de corrupção na saúde, que geram mais mortes na pandemia, com chacinas e megaoperações policiais.

Nenhuma saída que leve a que nossa raiva e indignação e a força da classe trabalhadora seja canalizada por setores que pretendem desviá-la e derrota-la, vai combater a extrema direita. Mesmo depois do golpe institucional, da ascensão do bolsonarismo, do aumento crescente do autoritarismo de todas as alas do regime, do aprofundamento enorme da miséria com a pandemia que vai levar a choques e enfrentamentos inevitáveis no terreno da luta de classes, como os que já estão acontecendo, e para os quais a extrema direita se prepara com uma radicalização cada vez maior e ameaças de criminalização dos protestos por parte de Bolsonaro, a proposta de Marcelo Freixo segue sendo repetir os erros do PT. Erros que, aliás, abriram espaço para toda essa ofensiva da direita, ao privilegiar exatamente a negociação com a direita em detrimento da mobilização dos trabalhadores.

O sistema capitalista está mostrando sua decadência profunda, a resposta não pode ser reeditar saídas reformistas que em vários lugares estão mostrando sua falência. A esquerda não pode seguir esse caminho. Precisamos nos unificar em um polo que seja capaz de construir essa unidade pela base e se prepare para momentos agudos de enfrentamentos na luta de classes. A unidade que precisamos é da classe trabalhadora de conjunto, levantando um programa para a crise sanitária, política, econômica e social. Um programa anticapitalista, que não atoa é outro ausente na proposta de Freixo, que ligue a resposta às questões emergentes da crise sanitária, como testes massivos, às medidas anticapitalistas para solucionar a crise, como a reconversão da indústria sob controle dos trabalhadores, proibição das demissões e o não pagamento da dívida pública.

Portanto ao invés de grupos de WhatsApp com Kim Kataguiri, Joice Hasselman, e Tabata Amaral, ou de manifestos com Rodrigo Maia como faz Freixo, ele e a esquerda de conjunto deveriam exigir o fim da posição vacilante das direções dos trabalhadores e a constituição da mais ampla unidade dos trabalhadores para tomar as ruas A CUT por exemplo declara que apoia as manifestações contra a morte dos negros e Bolsonaro, mas parte das referências parlamentares do PT se separaram publicamente das manifestações, deslegitimando-as.

Por isso nosso diálogo com todos que apoiam Marcelo Freixo, é que este é um momento de fazer experiências com os projetos da esquerda. E a esquerda carioca e do país não pode seguir o caminho proposto pelo Freixo. O Rio não é só bastião do bolsonarismo e das milícias, da Globo. O RJ já foi bastião da luta contra a ditadura, das resistências nas favelas, teve greves históricas como a da CSN de 1988, da Petrobras de 1995, contra a reforma da previdência do PT no governo federal. Dessa luta veio a fundação do PSOL, foi um dos lugares onde o levantamento de junho de 2013 teve mais elementos de esquerda, foi palco da histórica greve dos garis, que sacudiu a cidade e todo o país que abriu caminho para greves nacionais. No Rio fomos milhares nas ruas lutando por justiça a Marielle. No Rio tem uma enorme tradição de luta do funcionalismo público e um peso grande de artistas, forjando uma tradição progressista ampla, que sempre existiu e não foi Freixo que criou. O que faz falta é construir alternativas políticas que possam dar continuidade a esses combates desde um ponto de vista de independência de classes. É nessa força social que temos que nos apoiar. E essa força social tem que construir outro caminho, do que o proposto por Freixo, porque não se trata de debater se vai ou não explodir em luta de classes, mas sim quando. Porque é impossível que a revolta social frente a esses governos que nos matam precarizando a saúde, à mercê do desemprego e a fome, que massacra os negros nas favelas, com chacinas e assassinatos de crianças como João, não exploda. A questão é se quando isso acontecer terá uma esquerda capaz de responder a esse momento histórico. Pra que não seja desviado novamente.

Qual a saída?

O Rio deveria ser uma das fortalezas de um grande polo nacional pelo Fora Bolsonaro e Mourão, que não caia em saídas como impeachment e renúncia (cenário que até o Freixo se contrapõe) e que significaria deixar o poder na mão de Mourão e os militares. Que se volte aos trabalhadores e o povo pobre para combater qualquer ilusão no STF, em Maia, nesse congresso cheio de golpistas e todas essas instituições ou políticos que nos deixaram nessa situação de calamidade. Que tenha um programa anticapitalista, que significa não preservar essa democracia dos ricos, mas que faça com que os capitalistas paguem pela crise.

Freixo diz que a disjuntiva posta hoje seria defender a “democracia contra o fascismo”. Porém, o que Freixo chama de democracia no Brasil resume-se ao regime estruturado em 1988. Este mesmo regime anistiou os militares, que hoje ameaçam os trabalhadores e o povo. Mourão em artigo no Globo defendeu que a luta antirracista no Brasil seria uma mera importação artificial do que acontece nos Estados Unidos. Como se aqui os negros e negras não tivessem motivos de sobra para se radicalizar. Além disso, defendeu que os manifestantes contra Bolsonaro deveriam ser “conduzidos a vara” para as prisões. São esses os mesmos generais que saíram livres da ditadura militar no regime de 1988. Anistia que gente como Rodrigo Maia jamais questionaria. Por isso, é preciso saber que simplesmente querer voltar ao passado e defender o regime de 1988, ainda por cima de mãos dadas com a “direita democrática” é uma ilusão regressiva. Defendemos toda e qualquer conquista democrática para os trabalhadores e o povo. Mas defendemos com os métodos e aliados da classe trabalhadora. E hoje isso passa por aprofundar o eco que já se sente em nosso país dos poderosos ares que chegam pelo movimento que tomou as ruas nos Estados Unidos. No último final de semana ocorreram várias manifestações em diversas capitais, em defesa das vidas negras, e contra Bolsonaro e Mourão. Maecelo Freixo não colocou seu peso para convocá-las amplamente. Muito embora não tenha as condenado, tampouco apostou suas forças na organização de uma luta à altura para vencer, privilegiando sempre os acordo por cima, até mesmo com a direita outrora golpitsa. No entanto, milhares de pessoas foram às ruas, mostrando que no Brasil ainda estamos em tempo de impor uma saída política de fundo às crises que nos assolam.

Há que se instaurar uma verdadeira democracia, em que o povo efetivamente decida, a partir de uma nova Constituinte realmente livre e soberana, que acabe com os privilégios de juízes e políticos. Que julgue os crimes praticados pelos militares durante a ditadura militar. Que dê uma saída para a crise econômica e sanitária que nos assola. E que, para tudo isso, seja imposta pela mobilização da classe trabalhadora e do povo, que através dessa Constituinte possa abrir caminho para um verdadeiro governo dos trabalhadores, em ruptura com o capitalismo.

Esta é a batalha que nós do MRT e do Esquerda Diário viemos dando e chamamos todos os companheiros do PSOL, a não seguir o caminho apontado por Freixo, mas sim numa saída anticapitalista da classe trabalhadora brasileira frente à pandemia.




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