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General Motors

Sob chantagem da patronal e do governo, é aprovada a reforma trabalhista na GM de São José

Com ameaças de fechamento da fábrica por parte da General Motors e aval do secretário de Guedes, que declarou que "se precisar fechar, fecha", 10 medidas da patronal inspiradas pela reforma trabalhista passaram sem que houvesse organização da luta por parte do sindicato.

sábado 9 de fevereiro| Edição do dia

Entre os principais pontos do acordo estão o congelamento de salários em 2019, com pagamento de abono de R$ 2,5 mil para compensação; fim da estabilidade para trabalhadores acidentados pelas más condições de trabalho para novos contratados; valor pré-definido da Participação nos Lucros e Resultados (PLR) pelos próximos três anos, sendo neste ano no valor de R$ 7,5 mil; redução do piso para R$ 1,7 mil para futuras contratações; redução do adicional noturno; renovação de acordos de flexibilidade de jornada de trabalho e folgas.

O plano da gigante automotiva foi aprovado após semanas de chantagem aos trabalhadores, ameaçando fechar a fábrica de São José dos Campos. Em panfleto veiculado para os funcionários, a patronal chega a colocar que “A aprovação dessa proposta [das 10 medidas da patronal] garantirá o nosso futuro” e “uma pergunta vem sendo feita com frequência: a GM de SJC vai fechar? Hoje podemos responder esta pergunta com convicção: a decisão está em suas mãos!!!”. Ou seja, o que a GM está fazendo com seus trabalhadores é o que dizia Bolsonaro, aos trabalhadores cabe apenas uma decisão: ficar sem direitos ou ficar sem emprego.


Panfleto veiculado pela própria GM

"Os metalúrgicos da General Motors de São José dos Campos aprovaram em assembleia a proposta apresentada pela montadora como condição para a vinda de investimentos de pelo menos R$ 5 bilhões à fábrica local", afirma a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, que na assembleia se posicionaram contra as 10 medidas. "Com isso, fica selado o acordo em que a empresa se compromete a manter o complexo na cidade".

Entretanto, procurada pela revista Época, a GM não confirmou o valor do investimento, apenas comentou em comunicado que o acordo com os trabalhadores "é mais um passo para a concretização do plano de viabilidade da GM". Desta forma, pode agir como no acordo selado em 2013, em que prometia investir na planta de São José, porém não cumpriu. 

Também afirmou que a empresa segue negociando com "fornecedores, governo e outros interessados". Como já discutimos aqui, se a GM impõe preços mais baratos pelos insumos, estrangula indústrias que os fornecem e força ataques aos trabalhadores. O controle da produção das fornecedoras costuma ser bem rígido por parte das montadoras, o que vai induzir a que os fornecedores também implementem medidas duras da reforma trabalhista para reduzir os encargos trabalhistas e assim reduzir o preço dos insumos e peças. É assim que esse ataque da GM de São José pode servir de exemplo para muitos empresários, que agora que percebem que medidas como essas foram passadas na vanguarda do movimento operário como são os metalúrgicos, sentirão as portas abertas para que passem em todo lugar, a começar pelas outras plantas da GM, toda a cadeia produtiva de fornecedores e inclusive fortalecer a confiança de patronais de outros ramos produtivos para atacar os trabalhadores. Por isso é fundamental tirar lições de todo esse processo.

Nem aceitar a proposta da patronal, nem se opor sem apresentar alternativa alguma de combate ao fechamento da fábrica: o que deveria ter sido feito pela Conlutas (que dirige o sindicato) no plano imediato, desde o anúncio das medidas, seria impulsionar a unidade entre diferentes categorias que estão sendo atacadas, criando uma coordenação entre os trabalhadores das fábricas e cadeias produtivas onde têm inserção, para organizar um plano de luta que tivesse força para barrar esses ataques.

Entretanto, após 6 rodadas de negociação do sindicato com a patronal, por fora de qualquer organização da luta contra essas medidas, esse foi o resultado: das 28 que foram apresentadas inicialmente, restaram 10 que em essência mantêm praticamente todos os ataques mais centrais, com exceção da jornada de 44 horas e da terceirização irrestrita. Isso ocorre porque a "oposição" que o PSTU travou foi por fora de qualquer organização pela base e exigência de um plano de luta contundente das centrais sindicais que unificasse os trabalhadores para barrar tamanho ataque. Desmoralizou a base, que ficou à mercê da chantagem da patronal, de que seria melhor aceitar esse "mal menor", caso contrário fecharia as portas. Em meio a uma crise de desemprego gigantesca e a um governo Bolsonaro que quer que os trabalhadores trabalhem até morrer, é de se esperar que muitos optem por aceitar engolir esse sapo que está sendo imposto, em especial quando se encontram sem alternativa para barrar os ataques, que deveria ter sido organizada.

Organizada, aliás, muito antes que esse ataque. Não é de hoje que prima esse tipo de postura desse sindicato, dirigido pelo PSTU, que em vez de organizarem a luta, discutirem cotidianamente com os trabalhadores e disputarem a sua consciência para prepará-los para combates decisivos como esse, se adaptam ao que há de mais atrasado. Não é por acaso que, dessa concepção, surgem posicionamentos vergonhosos como o de apoio ao golpe institucional de 2016 e à prisão do Lula, reivindicando essas medidas autoritárias do judiciário que hoje está claro que só serviram para abrir caminho para novos governos que vão aprofundar ainda mais os ataques aos trabalhadores. Durante o período do golpe institucional a política de "fora todos" do PSTU foi uma clara adaptação a consciência mais de direita e atrasada dos trabalhadores. Agora isso está cobrando seu preço, essa política absurda fez com que os trabalhadores não estivessem preparados para as batalhas que viriam, fez com que não vissem com clareza a dureza dos ataques que viriam com o golpe e agora com Bolsonaro. É isso que explica a falência histórica do PSTU nesse processo, em um ataque nacional em várias fábricas de uma multinacional como a GM, que pode se alastrar para diversas outras fábricas do país, a base que historicamente é reconhecida como mais radicalizada e dirigida por uma central sindical de esquerda ser a primeira a ser derrotada.


Foto de passeata organizada pelo PSTU em São José dos Campos exigindo fora todos.

Segundo a revista Valor, no mesmo dia em que ocorre a aprovação dessas medidas, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, foi à Brasília entregar ao vice-presidente, Hamilton Mourão, um documento que trata de política industrial e geração de empregos, afirma que "no setor metal-mecânico, a geração de empregos foi rigorosamente nula no biênio 2017/18". O texto também critica a reforma trabalhista e destaca que "a discussão a seu respeito colocou em evidência, mais uma vez, um ajuste considerando o custo do trabalho como alvo". A isso se resume a atuação da maior central sindical do país, a CUT: a entrega de um documento ao general vice-presidente. Na própria fábrica em que dirigem o sindicato, a Volkswagen, há três anos atrás deixaram passar um acordo com algumas características parecidas ao que foi fechado na GM.

É preciso reverter esse quadro de imobilismo das centrais sindicais, que em meio a tudo isso só o que fizeram foi um encontro de entidades sindicais que integram o Brasil Metalúrgico para deliberar um ato unificado para o dia 20 de fevereiro, que sequer está sendo construído, e uma carta para Mourão.

É preciso tirar lições deste processo pra preparar melhor os embates contra a aplicação da reforma trabalhista e a reforma da previdência. Não é possível mais ficar a reboque da CUT, CTB, Força Sindical: é urgente romper o imobilismo das centrais que já vem mostrando seu papel traidor desde que afundaram a paralisação nacional do dia 30 de junho de 2017, o que abriu espaço para a aprovação da reforma trabalhista. A Conlutas e a Intersindical deveriam cumprir o papel de impulsionar a unidade entre as categorias, criando uma coordenação entre os trabalhadores das fábricas e outros locais onde têm inserção, como nos servidores municipais de São Paulo que estão em greve, para assim organizar um encontro de trabalhadores que vote um plano de lutas em comum e uma dura exigência às demais centrais sindicais para impor que unifiquem as lutas travando uma verdadeira batalha de classe contra a aplicação da reforma trabalhista e contra a reforma da previdência de Bolsonaro, que junto com os patrões pretende fazer com que os trabalhadores trabalhem até morrer.

É urgente tirar lições desse processo para preparar os próximos embates contra a reforma da previdência e a reforma trabalhista, que só poderão ser combatidos unindo a força da classe trabalhadora com a juventude, o movimento de mulheres e as organizações do movimento negro e LGBT, para que seja possível revolucionar os sindicatos e entidades estudantis, tirando assim essas ferramentas das mãos das burocracias que as dirigem hoje para retomá-las enquanto instrumentos dos trabalhadores que façam com que os capitalistas paguem pela crise.




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