Internacional

SÍRIA

Síria: um massacre que expressa insanáveis conflitos de interesses burgueses

Hillary Clinton declarou certa vez, em relação à guerra da Síria, que Obama era culpado de ter “aberto o flanco para projetar a Rússia” no plano internacional. E que era preciso reagir. Por sua vez, D. Trump, em discurso de campanha, proclamou a necessidade de um presidente que faça os Estados Unidos voltarem a ser grandes, dentro e fora do país. Com todas as nuances e diferenças, estamos diante da mesma percepção de parte do stablishment norte-americano: o declínio do poder de uma potência imperial.

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 30 de novembro| Edição do dia

E, justamente, esse é um elemento do nosso tempo: embora mantendo, ainda, a condição de imperialismo de primeira ordem, o mais bem armado do mundo, o poder político dos Estados Unidos não apenas apresenta claros sinais de crise orgânica, crise de representatividade – da qual o triunfo de Trump é a expressão mais contundente -, mas os indícios também apontam para uma crise geopolítica de hegemonia.

A Síria é um retrato falado e, ao mesmo tempo, um trágico e dramático exemplo do cruzamento de ao menos dois processos, sendo um deles a ação de potências globais em defesa dos seus interesses próprios naquela região, potências em crise política e econômica e, ao mesmo tempo, as dificuldades políticas, históricas, de construção de uma liderança política, regional, também nas metrópoles capitalistas, que se posicione em defesa consequente e objetiva povo árabe e das nações oprimidas do Oriente Médio [curdos, palestinos etc]. Ou seja, de um lado, temos o processo potencialmente convulsivo e contraditório de decadência do imperialismo e do outro, do lado da classe trabalhadora, da juventude, a dificuldade na construção de uma direção revolucionária, local e internacional, que ponha fim ao Império da barbárie, ao capitalismo.

Nestes marcos, a Síria expressa, à sua maneira, o desvio, na “primavera árabe”, de um processo de rebelião popular que não encontrou as condições para dar passos adiante e foi derrotado. Por ausência da organização social e política da classe trabalhadora como sujeito independente, prevaleceu um complexo desdobramento nos marcos de uma guerra civil reacionária. Ali, na Síria, a inexistência de uma aparição mínima dos trabalhadores deu ao processo desde o início um caráter “labiríntico” de guerra civil reacionária entre a ditadura de Assad e seus aliados regionais, e o imperialismo norte-americano com Turquia e Arábia Saudita, incluindo elementos de luta pela autodeterminação (questão curda) contra o bonapartismo de Erdogan na Turquia, luta regional pela supremacia entre Irã e Arábia Saudita, luta religiosa entre sunitas e xiitas, e a novidade da excrescência reacionária do Estado Islâmico. O resultado é uma Síria atravessada por distintos conflitos. Sempre nos marcos mais amplos das da “primavera árabe”, das dificuldades do que se poderia chamar de esquerda árabe, que conduzisse ao menos algum daqueles países ao caminho da vitória aquela profunda rebelião de massas que eclodiu, sobretudo em 2011, no Oriente Médio.

Embora este não seja o nosso foco aqui, no entanto, na perspectiva de transformações sociais naquela região, e na Síria em particular, o tema acima, da crise política do movimento de massas e o imperialismo, é um dos que estão postos e, para o qual, a pesquisa e o debate poderiam contribuir muito, especialmente se voltado para a investigação de respostas para questões do tipo: por que o nacionalismo laico, dos anos 1950-70 no Oriente Médio fracassou? Por que surge, em seu lugar, o islã político, inclusive aquele baseado em processos revolucionários de massa e que até chegaram ao ponto de fundação de uma república teocrática no Irã? O que significa o formato reacionário do islã político assumido pelo Estado Islâmico com sua luta por um “califado islâmico” em regiões do Iraque e da Arábia Saudita? Por que Rússia e USA se posicionaram e assumiram papel decisivo no massacre e guerra civil na Síria? E assim por diante e com as quais se pode abrir o debate. Portanto se faz necessário ampliar o debate e as perspectiva da questão síria.

No entanto, o foco desta nota tem mais a ver com a grave e crônica guerra civil [chamada pela mídia de “crise humanitária” síria] e sua localização no centro da crise política de maior risco potencial, internacional, de ampliação da violência armada em escala de grandes proporções, envolvendo grandes exércitos centrais.

Nossa questão aqui tem a ver com o processo de massacre cotidiano, de bombardeios incessantes contra as posições militares de um lado e do outro, na Síria, mas sobretudo com o ininterrupto derramamento de sangue de civis, que já chega à absurda casa de centenas de milhares, afora os milhões de refugiados de guerra, migrantes, e de mutilados e feridos.

Ocupando o centro da crise geopolítica internacional, a Síria põe, em frente de batalha, os interesses de grande potência dos Estados Unidos e do outro lado, da Rússia, sendo que mesmo nos limites de sua assimetria de forças militares [os EUA com em torno de 10 porta-aviões, apenas para dar um exemplo, e a Rússia com apenas um], parece claro que a escalada de Putin, tem a ver com a sua percepção da ambiguidade norteamericana, dos vacilos de Obama,como uma janela de oportunidade para a Rússia se afirmar como potência regional, defender seus interesses e romper seu cerco internacional; e aparece, de parte da maior potência bélica do mundo a incapacidade norte-americana de impor sua vontade pela coerção; ao contrário, as frequentes humilhações impostas pela Rússia são mostra da decadência hegemônica do imperialismo norte-americano.

Potências regionais como o Irã, também a Turquia e, em outra escala, especialmente Putin, captam a debilidade política dos Estados Unidos, não apenas por sua crise eleitoral que mostrou um país dividido, dilacerado e onde emergiu uma forte ala da juventude em posição de protesto contra o bipartidarismo e o sistema, mas em especial, por conta de que na guerra da Síria se manifestam elementos do fracasso das guerras anteriores do imperialismo no próprio Oriente Médio.

No Iraque e Afeganistão, onde os EUA entraram pela porta da frente, com tropas de ocupação, há um fracasso visível em estabilizar ou tirar todo proveito da vitória militar, constituindo as maiores derrotas militares dos EUA depois do Vietnã. Os abundantes elementos históricos levantados por Erlich [2014] apontam nessa direção e mostram como ela se expressa já desde muito antes de 2014, no caso sírio.

Em todo caso, na perspectiva de uma solução para o Oriente Médio,nem as contradições dos Estados Unidos, muito menos dos seus clientes e parceiros na elite burguesa governante árabe, sinalizam soluções de fundo, e nenhum acordo diplomático das direções palestinas “moderadas” com Israel teve como sanar a guerra civil de baixa intensidade naquele local. Isto é, por mais acúmulo de expressões de crise, política e econômica, de parte do imperialismo que oprime a região, um elemento de raiz vem a ser o de que não há antecedente algum de que o sistema opressor capitalista ceda aos direitos dos povos; e nem muito menos existe a possibilidade real de que seu poder possa vir a desmoronar automaticamente, isto é, a cair por si só; em outras palavras, não aparece no horizonte nenhum indício de uma decadência “natural”, alguma coisa parecida com lento definhamento do imperialismo lado a lado com uma saída diplomática ou política para aqueles problemas sociais e geopolíticos da Síria, do Oriente Médio.

Em primeiro lugar porque os interesses e o poder político norte-americano que defendem a guerra e a opressão contra os povos do Oriente Médio- ou o núcleo duro do seu poder mais belicista, os chamados “falcões” norte-americanos – lançam suas raízes mais profundas na economia [e em uma economia em crise sustentada]. Não é possível, seriamente, imaginar que, na condição de establishment, os senhores políticos que dão as cartas na regiãovenham a lutarpor uma ordem social progressista e contra o caos, ou que a paz no Oriente Médio seja um valor estratégico ou absoluto para seu poder político. Seu norte, sua estratégia, seus movimentos atendem à compulsão econômica e política de acumulação do grande capital. E o poder, nesse caso, está na banca, no grande capital industrial, completamente entrelaçados.

O que impera são interesses poderosos, internacionais, das metrópoles imperialistas, que não podem aceitar barreiras de ultramar, menos ainda numa etapa de crise e onde a maior parte dos seus lucros chegam de fora, embora usando dinheiro barato dos dólares impressos pelo Federal Reserve. Controle de câmbio, controle à remessa de lucros, aos seus bancos, restrições a seus investimentos por parte de um ou outro país, torna qualquer um deles inimigo para Washington. Inclusive pode torna-los rivais bélicos se for necessário, a exemplo da Síria, da Rússia, do Irã e tampouco se pode excluir que a própria China venha a se tornar algo parecido. O próprio Obama vinha esboçando um redirecionamento estratégico-militar para a Ásia, epicentro China, em meio a seu empantanamento no O. Médio. A insatisfação de setores de massas com o fracasso da estratégia de Obama de “retirada lenta” de tropas do Oriente Médio e os imensos gastos militares de um dos presidentes que mais interveio militarmente em outros países deu força ao discurso “isolacionalista” de Trump.

O mais importante para os lucros da banca e das corporações norte-americanas é a submissão, isto é, que cada economia local, regional de peso, se coloque como uma economia “aberta” à acumulação do capital norte-americano, pela pressão diplomática, por restrições comerciais/financeiras e, se necessário, pelo medo, pela ameaça da intervenção militar, pela demonização ideológica etc. Na verdade, o poder estatal norte-americano é compelido, já historicamente, pelo ambiente ideológico, pelo imperativo de manter a confiança dos negócios, sempre em interesse do “big business”, enveredando, sempre que considerar necessário, com ou sem Guerra fria, pelo “desvio” ou atalho da intervenção militar. Nem toda corporação pensa assim, mas essa á é a verdade para aquelas mais decisivas, financeiras e sobretudo bélicas e de “reconstrução nacional pós-guerra” e claramente para o lobby de Israel nos Estados Unidos, amplamente denunciado por Bricmont e Johnstone [2012], lobby reconhecidamente muito poderoso e que empurra os “falcões” norte-americanos constantemente para a guerra. Nunca esquecendo que o Estado de Israel, em si mesmo, age, essencialmente, como “uma base militar gigante para a política externa” dos Estados Unidos naquela região rica em petróleo.

E mais: na Síria, estamos diante de um processo que se dá em meio à concorrência entre os interesses imperialistas dos Estados Unidos com França, Inglaterra, Alemanha, processo mais agudizado no pós-Guerra fria. Os interesses das potências internacionais e regionais estão muito mais conflitados, os Estados Unidos não mais tão hegemônicos e seus movimentos têm se mostrado muito mais geradores de efeitos contraditórios.

A própria experiência dos Estados Unidos no Oriente Médio tem mostrado que mesmo quando entram com tropas de ocupação, com infantaria, não conseguem estabilizar regimes títeres e, portanto, terminam ou a) tentando se colocar detrás de atores regionais [tipo Turquia e, em parte, Irã] ou então, diretamente b) partem para a política de balcanização; lançam bombas, desmontam o que havia de Estado e fragmentam o espaço geopolítico, a exemplo da Líbia.

O que decididamente não podem permitir por muito tempo é a presença de nações independentes fortes, como mostra o livro de Johnstone [2002], Fools crusade,no qual ele toma a guerra dos Estados Unidos na Iugoslávia como “estudo de caso”, como referência didática do papel dos Estados Unidos quando esbarram em algum obstáculo nacional aos seus propósitos. Washington hostiliza qualquer concorrente ou barreira geopolítica ao seu poder; a não ser quando se trate de um país que possam controlar, que se mostre firmemente dependente dos Estados Unidos, como tentam fazer com que seja a localização e o papel da Turquia, inclusive ao incorporá-la à OTAN. Desnecessário dizer que, nos marcos de sua decadência, os Estados Unidos são obrigados a conviver com graves contradições e recuos. Mesmo com todos os movimentos que promove na geopolítica, por meio de pressões e subordinação econômica, do armamentismo, de guerras não tem estabilizado seu poder, de forma duradoura naquela região do O. Médio.

Certamente tais contradições não alteram seu curso essencial, a natureza imperialista das suas relações internacionais. Sua política é sair ganhando em qualquer contexto: com a venda e o uso de armas, com reconstruções pós-guerra, com bloqueios comerciais, com o rolo compressor dos empréstimos e com qualquer meio que lhe pareça adequado, oficial ou extra-oficial, como fica evidente, recorrentemente, na ação dos seus serviços de espionagem, mas também no seu papel de bastidores em relação aos grupos terroristas mais reacionários [como no financiamento que deram, inicialmente, a Bin Laden e hoje, a bandos armados na Síria etc]. Os Estados Unidos tratam de aproveitar qualquer debilidade política do inimigo, qualquer política de conciliação de classe, para derrotá-lo, tentar controlá-lo, como fez no acordo de Oslo com a direção de Arafat e também com a burguesia liberal do Irã no recente acordo nuclear com os USA.

Mas não se trata apenas de uma estrutura imperialista, que “vem de fora”, mas também, na outra ponta, do papel das burguesias árabes que, sistematicamente, andam ou terminam andando de mãos dadas com o capital imperialista. Passando do nacionalismo árabe relativamente laico para o islã político, aquelas elites governantes [e suas burguesias] invariavelmente dão as costas ao seu próprio povo diante de qualquer ameaça – popular – ao seu poder e privilégios. Invariavelmente: mesmo quando tentam certo vôo próprio, quando chegam a nacionalizar parte da economia, como na própria Síria ou Egito de outros tempos, o fazem até certo ponto, limitadamente, e sem qualquer controle popular, pela via do bonapartismo político e defendendo os privilégios de sua casta política até o fim.

A “primavera árabe” é definitiva a respeito: diante do impacto que abalou e/ou derrubou ditaduras naquela região, todo o movimento das elites de cada pais árabe foi o de recompor seu poder, contra a juventude árabe em rebelião, mais uma vez em bases ditatoriais, mais uma vez de mãos dadas com o capital imperialista, como ilustra o exemplo egípcio, onde a cúpula militar reacionária reagrupou no atual formato ditatorial pós-Mubarak.

Ou seja, tanto de parte da ação dos Estados Unidos e afins na região, quanto a partir da política dos governos locais, o resultado é apenas um: nenhuma dessas duas esferas do poder capitalista - entrelaçadas, sempre é bom lembrar -, pode dar passagem, historicamente e concretamente, à emancipação de nenhum povo do Oriente Médio [ISHIBASHI, 2011]. Assad, por exemplo, lutou e segue lutando com todas as forças para barrar qualquer autodeterminação da nação curda (em certa “aliança” com a rival sunita Turquia), e tratou a rebelião da juventude em um pais de 20% de desemprego e 44% de pobreza na base da bala, com tanques e bombardeios contra civis, desencadeando forças contrarrevolucionárias que converteram a “primavera” em um inferno da guerra civil reacionária que já levou centenas de milhares de vidas.

Na guerra como na “paz”, os interesses estratégicos da grande banca e dos vendedores de armas e grandes corporações é lucrar às custas das riquezas das nações e da classe trabalhadora árabe e, para isso, existe a guerra, a invasão, a mídia e a diplomacia amestrada, os vendedores de ilusões políticas. E muito mais nos dias de hoje, onde a decadência econômica dos Estados Unidos se dá lado a lado com a emergência de potências regionais, que ameaçam aproveitar cada contradição, vacilo ou janela de oportunidade da crise norte-americana, como fez Putin na Síria.

Nos marcos de um processo onde o orçamento militar dos Estados Unidos vem se mantendo, sistematicamente, nas alturas, seja via W Bush, Obama e certamente agora, com D.Trump. A esse respeito é bem evidente, nos dados abaixo [figura 1], que o setor bélico norte-americano continua sendo o destino demais da metade dos recursos públicos do país [sendo que há rubricas que não aparecem como setor bélico, mas, claramente, se trata de gastos bélicos, militares, como é o caso de gastos com veteranos de guerra, energia nuclear etc].

Figura 1 – Orçamento nacional dos Estados Unidos 2015. Fonte: www.nationalpriorities.org/campaign/military-spending-united-states

Com base em todo esse poderio bélico, em sua condição de mais bem armado imperialismo, o fato é que, na Síria,os Estados Unidos, a maior potência militar do mundo capitalista, se viram limitados a entrar pela porta dos fundos, aliando-se inclusive a forças muçulmanas, como a ex-Al Nusra, que, na verdade, em nome da “luta contra o terrorismo”, os norte-americanos supostamente, pelo pretexto de luta “antiterrorista” que gostam de propagandear, deveriam estar combatendo contra. Por isso, e também contraditoriamente, tiveram que tolerar uma “coalisão” de guerra com Putin, o mesmo que vem a ser o principal sustentáculo do ditador sírio. Ao mesmo tempo em que os EUA travaram aliança com o Irã, o qual, por sua vez, sustenta militarmente o poder político e militar de Assad na Síria.

São alguns dos elementos que se cruzam, absolutamente contraditórios, e que não apenas explicam porque aquela guerra “nunca acaba” mas também evidenciam que os EUA não controlam nem a arrastada crise econômica do sistema – crise que eles tentam descarregar sobre as massas inclusive sob a forma de guerra – mas também significa que nem toda a colossal força bélica com seus drones e tecnologia de ponta, está servindo para estabilizar o imperialismo política e socialmente na região.




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