Internacional

PALESTRA/UNB

Síria: a guerra “sem fim” e sua geopolítica

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 15 de novembro| Edição do dia

Hillary Clinton declarou certa vez, em relação à guerra da Síria, que Obama era culpado de ter “aberto o flanco para projetar a Rússia” no plano internacional. E que era preciso reagir. Por sua vez, D. Trump, em discurso de campanha, proclamou a necessidade de um presidente que faça os Estados Unidos voltarem a ser grandes, dentro e fora do país. Com todas as nuances e diferenças, estamos diante da mesma percepção de parte do establishment norte-americano: o declínio do poder de um Império. Embora mantendo, ainda, a condição de imperialismo de primeira ordem, o mais bem armado do mundo, o poder político dos Estados Unidos, não apenas apresenta claros sinais de crise orgânica, crise de representatividade – da qual estas eleições foram uma amostra contundente, mas os indícios também apontam para uma crise geopolítica de hegemonia.

A Síria é um retrato falado e, ao mesmo tempo, um trágico e dramático exemplo do cruzamento de ao menos dois processos, um dos quais vem a ser o da decadência do imperialismo e o outro, do lado da classe trabalhadora, a dificuldade na construção de uma direção revolucionária internacional que ponha fim ao Império da barbárie, ao capitalismo. Nestes marcos, a Síria expressa, à sua maneira, o amplo fracasso da “primavera árabe”, as dificuldades do que se poderia chamar de esquerda árabe, que conduzisse aquela profunda rebelião de massas à vitória em algum país do O. Médio. Este é, na verdade, o tema decisivo que é preciso levantar para o debate internacional sobre a esquerda revolucionária, passando pela também fracassada experiência da esquerda de colaboração de classes na Grécia [Syriza], em boa medida na Espanha [onde o Podemos vem se aliando com o que existe de pior na política espanhola] mas também no Brasil, com o fracasso político estrondoso do lulo-petismo, isto é, da sua estratégia de conciliação de classe [“governar para todos”, ou seja, para banqueiros e para os trabalhadores etc].

De toda forma, no vídeo abaixo, o foco tem mais a ver com o processo de massacre cotidiano, de bombardeios incessantes contra posições militares de um lado e do outro, na Síria, mas sobretudo com o ininterrupto derramamento de sangue de civis, que já chega à absurda casa de centenas de milhares, afora os milhões de refugiados de guerra, migrantes, e de mutilados e feridos.
Ocupando o centro da crise geopolítica internacional, a Síria põe, em frente de batalha, os interesses de grande potência dos Estados Unidos e do outro lado, da Rússia, sendo que mesmo pela sua assimetria de forças militares [os USA com em torno de 10 porta-aviões, apenas para dar um exemplo, e a Rússia com apenas um], tem razão quem analisa que a Rússia viu, na ambiguidade norte-americana uma janela de oportunidade para se afirmar como potência regional, defender seus interesses e romper seu cerco internacional. Potências regionais como o Irã, também a Turquia, e especialmente Putin, captam a debilidade política dos Estados Unidos, não apenas por sua crise eleitoral que mostrou um país dividido e dilacerado, mas em especial, por conta de que na guerra da Síria se manifestam elementos do fracasso das guerras anteriores do imperialismo no O. Médio.

No Iraque e Afeganistão, onde os USA entraram pela porta da frente, com tropas de ocupação, há um fracasso visível em estabilizar ou tirar todo proveito da vitória miliar.

Na Síria a maior potência militar do mundo capitalista se viu limitada a entrar pela porta dos fundos, aliando-se inclusive a forças muçulmanas, como a ex-Al Nusra, que em nome da “luta contra o terrorismo” eles supostamente deveriam estar combatendo. Por isso tiveram que tolerar uma “coalisão” de guerra com Putin, o mesmo que vem a ser o principal sustentáculo do ditador sírio. Ao mesmo tempo em que os USA travaram aliança com o Irã, o qual, por sua vez, sustenta militarmente o poder político e militar de Assad na Síria.

São alguns dos elementos que se cruzam, e não apenas explicam porque aquela guerra “nunca acaba”, mas também evidenciam que os USA não controlam nem a arrastada crise econômica do sistema – que eles tentam descarregar sobre as massas inclusive sob a forma de guerra – mas também que nem toda a colossal força bélica com seus drones e tecnologia de ponta está servindo para estabilizar o imperialismo politica e socialmente na região.

Na UnB, no último dia 8 de novembro as ideias acima e várias outras foram desdobradas e debatidas a partir de palestra intitulada O massacre na Síria e a geopolítica de uma guerra sem fim, tendo na mesa o prof G. Dantas, pela UnB, além do palestino Faraj, da Sociedade Árabe, e também com a presença de estudantes universitários e membros da comunidade síria.

Brasília, 16/11/16

Confira o vídeo abaixo, com trechos da palestra:




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