Gênero e sexualidade

MACHISMO NA TV

Silvio Santos: “mas como não casou e tem filha?”. Falso moralismo e controle patriarcal

Ao vivo no quadro “jogo das 3 pistas” o apresentador questiona a atriz: “Mas como não casou e tem filha? Que que é isso? Aonde já se viu uma coisa dessa?”

Kelly F. Alonso

Professora da rede pública de São Paulo

segunda-feira 30 de julho| Edição do dia

Não é a primeira vez que o empresário, apresentador e dono do SBT destila seu preconceito com as mulheres que vão ao seu programa; sempre com insinuações machistas e moralistas, Silvio dessa vez constrangeu a atriz Mariana Kupfer – que participou do reality show casa dos artistas – e sem qualquer pudor, chamou-a de pecadora por ser mãe e não ser casada. Ao vivo no quadro “jogo das 3 pistas” o apresentador questiona a atriz: “Mas como não casou e tem filha? Que que é isso? Aonde já se viu uma coisa dessa?”

A atriz não gostou nada das insinuações e respondeu: “Não precisa casar, mãe não é um estado civil” mas mesmo assim Silvio segue oprimindo-a em público: "Não casou e tem filho? Isso é uma vergonha! Vocês que não casam e têm filhos é uma vergonha, não pode fazer uma coisa dessa. Quem faz isso é pecadora, não entra no céu”.

Esse episódio só vem reforçar a necessidade urgente de organização das mulheres que, mesmo em pleno século XXI com todos os debates que estão colocados na sociedade sobre o papel da mulher no trabalho, seu direito à maternidade e ao aborto, se veem questionadas em suas escolhas de vida e do próprio corpo.

Silvio Santos é uma figura pública que traz a tona toda a moralidade hipócrita, que abusa do fundamentalismo religioso e da moral patriarcal. Sabemos bem que no mundo todo a Igreja e sua interferência no Estado segue sendo um entrave para este e outros avanços democráticos e científicos, em especial para as mulheres. No Brasil, esse cenário é bem alarmante onde vemos essa interferência direta com a crescente bancada evangélica em todas as esferas dos três poderes.

Essa moralidade porém serve muito bem ao modo de produção capitalista que através do medo, do escárnio e mesmo da condenação efetiva às mulheres que decidem por suas vidas, explora cada vez mais o trabalho feminino enquanto inferioriza em relação ao homem branco, como forma de dividir homens e mulheres explorados.

Além disso as mulheres tem de seguir as normas de conduta de acordo com o que rege a Bíblia, como uma forma de controle sobre os seus corpos para que possam seguir sendo exploradas e recebendo valor inferior aos homens exercendo a mesma função. Ou mesmo relegando a reprodução da vida sob sua responsabilidade, barateando o Estado e o valor do trabalho colocando mulheres para cuidados do lar, da alimentação, etc, como uma dupla jornada de trabalho.

São 87 deputados federais e 3 senadores que compõe a Frente Parlamentar Evangélica, ou Bancada Evangélica. São políticos de diferentes partidos. Muitos deles inclusive são investigados em escândalos de corrupção. Outros crimes como formação de quadrilha, falsificação de documentos, lavagem de dinheiro e estelionato rondam a Bancada Evangélica no Brasil.

Além de todos os privilégios que acumula o conjunto da casta política, muitos desses parlamentares enriquecem com Igrejas, que têm isenção de impostos. São porta-vozes de discursos LGBTfóbicos, machistas e anticientíficos, além da maioria deles ter dado seu voto favorável ao golpe instituicional, à terceirização, à PEC 55 do teto de gastos e à reforma trabalhista. São inimigos das mulheres, dos LGBTs e também da classe trabalhadora.

Tudo isso mostra como o Estado laico no Brasil existe somente na teoria. Frente à luta das mulheres pelo aborto legal na Argentina não tardou para que setores da Igreja saíssem em combate ao avanço desse direito também no Brasil. Essa mesma Igreja não só quer a manutenção da criminalização do aborto como também pede a aprovação do Estatuto do Nascituro, que criminaliza a prática inclusive em casos de estupro e risco de vida da mãe, além da crueldade de garantir direto de paternidade ao estuprador.

Mas não nos calarão! Dia 08 de Agosto vamos tomar as ruas do Brasil em apoio às mulheres argentinas pelo direito ao aborto legal seguro e gratuito, e esse é só o começo. Convidamos todas as mulheres e homens a marcharem conosco neste dia, vamos trazer a “mare verde” pro Brasil. Educação sexual para decidir, Contraceptivos para prevenir e Aborto legal, seguro e gratuito para não morrer. Vem com o Pão&Rosas Brasil!




Tópicos relacionados

Machismo na TV   /    Gênero e sexualidade

Comentários

Comentar