Sociedade

NEUROCIÊNCIA

Seu cérebro já está a venda!

sexta-feira 11 de novembro| Edição do dia

O título desse texto utiliza, propositalmente, de uma técnica propagandística: ser curto e impactante, unindo dois termos que parecem sem qualquer relação, a fim de capturar a atenção do leitor e direcioná-la a algo não explícito tão somente nos termos do título. Aqueles ainda não familiarizados com as novas técnicas de manipulação midiática e que, até então, pensavam sofrer o impacto apenas de técnicas convencionais da publicidade, são o “público-alvo” das linhas que se seguem.

Uma vez feita a introdução, podemos, infelizmente, dizer que o “cérebro” não só tem sido um objeto de estudo dominante nas áreas de maior complexidade tecnológica, como também é objeto de mercantilização, a partir da perspectiva de desenvolvimento de novas pesquisas, medicamentos e tratamentos para doenças do sistema nervoso, na indústria bioquímica/farmacêutica e de outros setores privados da saúde. As novas roupagens para apropriação privada dos estudos do cérebro, no entanto, tem apresentado vertentes interdisciplinares, com as quais pretendemos nos ater: a vertente econômica - Neuroeconomia, a vertente do marketing – Neuromarketing e a vertente da engenharia - Neuroengenharia.

Nas duas primeiras vertentes – Neuroeconomia e Neuromarketing – temos preocupações distintas que delimitam as duas sub-áreas. A Neuroeconomia se preocupa com estudos de comportamentos econômicos, correlacionados aos comportamentos do sistema nervoso central de nossa espécie, tendo por temas o modo como nossas disposições neurológicas poderiam influenciar nossos processos de decisão, nossos sensos de satisfação financeira, nossos estímulos (ou falta deles) para o aprendizado e para o investimento de nosso tempo em nosso “próprio” e pressuposto projeto de carreira. Até o momento, os estudos neuroeconômicos não parecem ter problematizado os pressupostos econômicos que lhes alicerçam a própria existência, enquanto área do conhecimento. Por tanto, é lugar comum entre os artigos da área não existir qualquer preocupação com problematizações de ordem sistêmica que questionassem a hierarquização de posições em empresas, a noção de projeto de carreira e do desenvolvimento material e dialético de profissões distintas ao longo da história. Pouco importa, na verdade, no processo de análise de dados laboratoriais, via eletroecefalograma ou outras técnicas mais atuais, as variáveis históricas que escapam da experiência controlada, no espaço e no tempo, do experimento laboratorial.

Da mesma forma, o Neuromarketing se utiliza de técnicas e experimentos caros às neurociências para descobrir as melhores maneiras de estimular a compra e o desejo por determinados produtos e/ou idéias. As eleições americanas atuais, por exemplo, contaram com profissionais da área junto ao staff de publicitários, tanto do lado dos republicanos quanto dos democratas. Quanto ao uso do Neuromarketing para a influência na compra de produtos e como uma das estratégias para empresas manterem seus clientes fieis - mesmo em tempos de crise estrutural do capital -, os documentários Neuromarketing Des citoyens sous influence? (Neuromarketing, os cidadão sob influência?) e NeuroMarketing : votre cerveau les interesse ( Neuromarketing: seu cérebro lhes interessa ) expõem de que modo tem se dado a aliança entre o Capital transnacional e o desenvolvimento de experiências nesse campo, já não mais reservado apenas às distopias de ficção científica.

Por fim, a vertente mais inusitada e belicosa é aquela que chamam de Neuroengenharia. A finalidade desta, por sua vez, volta-se à pesquisa da aplicabilidade de tecnologia da informação, nanotecnologia, engenharia elétrica e outros campos como a robótica, para o desenvolvimento de próteses, exoesqueletos robóticos para soldados e interações entre Cérebro e Máquinas. Os desenvolvimentos de tal vertente são reconhecidos como preocupantes até mesmo por uma das mais privatistas e autoritárias das mídias impressas brasileiras, que não vale citar o nome aqui no corpo do texto: reconhece-se que a Agência de Projetos de Investigação Avançada do Pentágono (DARPA, em inglês) chegou a receber 240 milhões de dólares em 2011, enquanto que o Exército recebia 55 milhões, a Marinha 34 milhões e a Força Aérea, 24 milhões. O acúmulo de recursos, somado às pesquisas com Drones, inteligências artificial e neuroengenharia, perfaz um cenário de expansão do poder bélico norte americano que periga fugir do próprio controle do país.

Apenas para citarmos dois dos mais bizarros exemplares de programas com finalidade militar, ficaremos com o projeto Silent Talk (conversa silenciosa) e Mind Reading Binoculars (Binóculo de leitura de menters). O primeiro tem por objetivo permitir a comunicação entre soldados, no campo de batalha, sem o uso de discursos vocalizados, apenas operando através da análise e estimulo de sinais neurais. Numa primeira fase, tal projeto já conseguiu intercomunicação através de tecnologias de estímulo eletromagnético do córtex cerebral, que, em resumo, criam pequenos clarões no olho esquerdo e direito dos soldados. Os clarões disparados de um e do outro lado da visão já seriam o suficiente para uma espécie de código Morse – intercerebral. Já no segundo caso, o Mind Reading Binocular, o que se pretende é a criação de uma ferramenta para rastrear e grampear a atividade subconsciente da mente do pretenso inimigo de guerra, apenas apontando este “binóculo” que atravessaria nossos pensamentos.

Não é preciso de nenhum tipo de procedimento laboratorial para compreender que muita grana e interesses pra lá de capitalistas estão envoltos nas roupagens da Neurociência aqui descritas. E, apenas para não imaginarmos que isso é algo que se passa para além de nossas fronteiras brasileiras, lembremos que Miguel Nicolelis, o tão aclamado neurocientista, que não esconde suas predileções políticas pelo PT, foi financiado, em seus estudos sobre Brain-machine-interface e criação de próteses comandadas pelo Cérebro, nada menos do que pelo departamento de defesa Norte Americano: o Pentágono...

Como se a contradição não fosse pouca, nosso neuroengenheiro-brasileiro-PTista, não se ruboriza em ter encampado a criação de um centro de neurociência, na cidade de Natal-RN, financiado pela Edmonde J. Safra Philanthropic Foundation. A associação é ainda do desencarnado Edmonde Safra, dono do banco Safra, mas mantida por Lily Safra, sua esposa. No nordeste do nosso país, na cidade que viveu a intentona comunista, que poderia homenagear a tantos grandes heróis esquecidos da luta social, o seu instituto se chama: Instituto Internacional de Neurociências de Natal - Edmonde e Lily Safra (IINN-ELS).

[1] - Uma referência introdutória para o que a Neuroeconomia pode ser encontrado em: Neuroeconomics. Decision Making and the Brain. Editado por. Paul W. Glimcher, PhD. Center for Neuroeconomics. New York University. New York, NY, USA.

[3] - http://www.nytimes.com/2015/11/04/world/americas/neuropolitics-where-campaigns-try-to-read-your-mind.html?partner=rss&emc=rss&_r=0

[4] - Disponível, com legendas em português, em: https://www.youtube.com/watch?v=6jf5gQadpkM

[5] - Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9lrORl6KypE

[6] - Caso haja curiosidade: http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,avancos-em-neurociencias-representam-dilemas-eticos-para-militares,851047

[7] - https://www.wired.com/2009/05/pentagon-preps-soldier-telepathy-push/




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