Teoria

COMUNISMO

Será o comunismo uma ideia utópica de Marx?

Se depois de mais de um século o comunismo não deu certo, será que esse projeto não terá sido nada mais que um delírio utópico de K. Marx?

Gilson Dantas

Brasília

sábado 4 de março de 2017| Edição do dia

[Esta é a primeira de uma série de notas prévias ao curso O que é o comunismo, a ser realizado na UnB em maio-junho 2017]

Algumas pessoas imaginam isso: que o comunismo é uma espécie de doutrina, do tipo utópica, concebida na cabeça de Marx e Engels [fundadores do marxismo] e justamente por isso mesmo, não deu certo em lugar algum e não poderia dar certo, já que não passa de uma ideia caída do céu, uma espécie de “reengenharia social” e tão imaginária como a utopia de Thomas Morus ou a “república” de Platão.

As aparências, com o desmoronamento da URSS, a restauração capitalista na China e a crise da burocracia cubana dos irmãos Castro apontariam na mesma direção: o marxismo é utópico.

O problema com esse “argumento” é que ele confunde, de saída, a teoria de Marx com a prática de certas lideranças que falaram em nome dele e realizaram experiências onde os trabalhadores terminaram sendo – ou são, nas revoluções depois da II Guerra - politicamente expropriados desde o início [o chamado “socialismo real”]. E acontece que nunca foi ideia de Marx que os trabalhadores sejam substituídos – na gestão da coisa pública – por burocratas quer estes se proclamem comunistas, maoístas ou socialistas e nada tem a ver com Marx que a polícia entre em cena, torturando e fuzilando para resolver divergências políticas [típico do regime stalinista e congêneres].

Mas a ideia de Marx não era uma doutrina que saiu da sua cabeça?

Exatamente o contrário: diferentemente de doutrinas sociais ou religiosas, muitas nascendo de uma “revelação” mística, e que não precisam ou não podem ser submetidas ao contraste entre a teoria e a realidade e nem à análise comparativa com relação à realidade, o comunismo de Marx nem nasce como uma ideia solta e nem foi uma elaboração dogmática, fechada. Trata-se de uma teoria que precisa ser comparada o tempo todo e questionada diante da realidade social e histórica em movimento; especialmente por duas razões que são seminais, essenciais, na gênese do marxismo de Marx e Engels.

O trecho da palestra abaixo, em espanhol, realizada recentemente por Josefina Martinez da Universidad Autonoma de Madrid, Espanha, chama a atenção para este ponto e, citando Emmanuel Barot [colunista do jornal Révolution Permanente, da rede internacional à qual pertence o Esquerda Diário] se faz a pergunta simples e básica: o que era o comunismo para Marx?

E chama a atenção para a dupla acepção da ideia comunista em Marx. A primeira delas diz respeito ao comunismo como fim, como objetivo, e a segunda, o comunismo como movimento que se desprende do real, da vida social e política das sociedades modernas, capitalistas, objetivamente, na condição de tendências, indícios, conflitos, podendo se consumar se se desenvolverem direções políticas conscientes dessas tendências e com a estratégia para vencer.

O comunismo como um fim, significa dar conta de que vivemos em uma sociedade de opressores e exploradores do trabalho humano, portanto fundada na violência dos de cima contra os de baixo, e que almejamos uma sociedade alternativa, sem exploração, onde os trabalhadores se associem livremente, controlando os meios de produção coletivamente e se elimine o Estado e toda forma de coação e opressão sobre o próximo, sobre o corpo, contra a vida, varrendo com a exploração dos que não trabalham sobre os que trabalham. E, finalmente com as guerras. Marx parte da observação de que esta sociedade, como é, nos conduzirá – como tem ocorrido historicamente – para mais e mais da mesma opressão, barbárie e concentração de renda, fundada que é na exploração da grande massa por uns poucos.

Mas então por que não se trata de uma doutrina? Pelo segundo aspecto: o comunismo se desprende do mundo real, uma vez entendido em suas determinações e fenômenos; é um movimento que existe objetivamente, no sentido da crítica contra o que existe e tendência de massas inteiras à abolição do atual estado de coisas.
Aqui não é preciso ir tão longe: basta ler o noticiário e abrir os livros de história. Rebeliões, revoltas, ocupações, revoluções são uma constante geração após geração, por mais que o capitalismo se modernize, que o consumo se estenda [novas classes médias etc] que novas tecnologias apareçam, o grande fato é que os indícios de mal-estar na civilização são marcantes e, pior, crescentes, afora as grandes carnificinas, em escala jamais vista [guerras mundiais, massacre na Síria, no Congo, opressão contra os migrantes, migrações globais, greves]. Somente a Grécia, recentemente foi atravessada por dezenas de greves gerais. Será que aquela classe trabalhadora almejava manter a sociedade como ela é? A mesma sociedade que os lançou no terrível sofrimento social, fundado em relações de desigualdade em meio a tanta riqueza?

Claro está, que se a direção política do movimento não se comporta em função da luta pelo comunismo é outra coisa, mas o que se desprende claramente do real, das condições sociais e econômicas objetivas, na crise, por todos os quadrantes, ao longo do tempo, nos marcos do capitalismo, são movimentos contra o atual estado de coisas.

Movimentos que aspiram uma vida alternativa, almejam a felicidade humana e o fim da opressão, especialmente contra a mulher, contra nosso corpo, nossas mentes. Ou alguém acha – só para citar um exemplo - que o capitalismo é capaz de resolver a questão negra, a questão da desigualdade da mulher, de creches e métodos contraceptivos gratuitos, restaurantes, lavanderias públicas, para que, finalmente, se ponha fim à opressão da mulher? Em que país capitalista isso aconteceu? O país mais rico, os Estados Unidos, nunca resolveu a questão negra e nem da opressão da mulher... por exemplo. Confiram a misoginia e o perfil racista de D. Trump, chefe da maior potência capitalista [e mesmo Obama: nada fez de substancial em relação a quaisquer daquelas questões].

Portanto, longe de uma ideia ou um esquema com o qual se tenta explicar a realidade, Marx procurou interpretar o movimento do real, a emergência de uma classe assalariada, as contradições objetivas do sistema e daí é que vai derivar o desenvolvimento da ideia comunista, isto é, de um fim ao qual o movimento do real aponta e ao qual se pode chegar, mas apenas pelo desenvolvimento da estratégia consciente, novamente fundada no real, nas relações de forças reais, na direção política consciente.

Marx captou, por exemplo, como o desenvolvimento da produção se funda nas relações assalariadas da produção, no conflito orgânico patrão-empregado, o que é, por si, um elemento absolutamente contraditório. E percebeu que o capitalismo vem criando as bases materiais para uma sociedade alternativa: por exemplo, a socialização do trabalho, em escala global, onde um sapato deixou de ser produto de um artesão e sua família, com matéria prima local, e passou a ser “made in” vários países ao mesmo tempo. E onde toda a produção hoje é a combinação ampla de distintos trabalhos sociais e, portanto, a dedução lógica, realista, é a de que basta tirar o peso da apropriação privada da riqueza, a posse privada do produto pela patronal privada e os produtores associados assumirem o controle social da produção social, que, como foi dito, hoje já está socializada....

Os donos da produção são uma minoria: os donos do Wallmart são uma família, cujo patrimônio corresponde a 40% do patrimônio dos assalariados da base da pirâmide salarial dos Estados Unidos.

O comunismo, então, passa a ser um problema político, de posse social dos meios de produção, de revolução proletária. E nada mais atual, quando a classe trabalhadora se tornou maioria no planeta e restam poucos países na categoria de agrários; são urbanos quase todos os que decidem, enquanto o proletariado urbano constitui maioria da população. E tinha gente letrada, universitária, que há pouco tempo dava “adeus ao proletariado”, que iria ser substituído pela automação ou sabe-se-lá-o-quê.

Ou seja, há mais base material para a luta pelo comunismo [agora, finalmente, não-burocrático]: as revoltas – como se viu na recente “primavera árabe” etc – se sucedem mundo afora, faltando preparar e organizar a direção de massas, da classe trabalhadora, em sintonia com o mundo real, com as possibilidades dadas pela realidade, para começar a revolução em um, dois, três países, com base na democracia proletária e assim exorcizar o pseudo-comunismo dos stalinistas, apontando, finalmente, para o comunismo.

A seguir, trecho do vídeo da palestra Estado, democracia y comunismo, pela historiadora Josefina Martinez, do Izquierda Diário, Espanha, onde as ideias acima são pontuadas [em espanhol]:




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