Teoria

PAULO FREIRE E EDUCAÇÃO

Ser católico e não lutar: contradição religiosa ou premissa do cristianismo?

Sobre os limites que a lógica cristã traz para a pedagogia de Freire a partir de uma análise das comunidades eclesiais de base, organismos da igreja influenciados por esse pedagogo que surgiram na luta contra a ditadura militar

sexta-feira 5 de janeiro| Edição do dia

Incentivadas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), surgem as comunidades eclesiais de base (CEBs) com o intuito de voltarem a dar algum prestígio para a igreja que vinha perdendo força na época. Para isso, precisavam responder aos anseios da maior parte da população, ou seja, os trabalhadores, camponeses e diversos movimentos sociais, que nos anos 50/60 se encontravam num grande ascenso, reivindicando mudanças radicais (reforma agrária p. ex), mudanças estas que se embatiam diretamente com os interesses da burguesia nacional.

O erro estratégico do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao se aliar com essa burguesia nacional para desenvolver o capitalismo industrial buscando, a partir disso, realizar as reformas, cobrou seu preço: em vez de organizar os trabalhadores para combatê-lo, alimentou o capitalismo para uma burguesia que estava longe de cumprir qualquer papel "progressista". Assim, o ascenso de massas que vinha ocorrendo foi facilmente derrotado no golpe de 64, pela falta de uma perspectiva de superação desse sistema, que deveria partir de uma direção revolucionária que incentivasse a auto-organização dos trabalhadores para tomarem o poder.

Essa derrota estratégica do PCB e a forte repressão subsequente à ditadura tiveram como resultado um refluxo das greves, movimentos sociais e todo o ascenso operário que ocorria naquela década. Dentre os movimentos que restaram, estão as CEBs. Compunham estas não apenas a população católica, mas também movimentos populares que incluíam pessoas de diversas religiões e ateus. Segundo Frei Betto (1985), nessas comunidades a divisão não estava “entre quem tem e quem não tem fé”, mas sim entre “quem está do lado dos interesses dos pobres e quem está a favor dos privilégios dos opressores”.

Desta forma, a partir da reflexão sobre os problemas do bairro, da família e do trabalho, essas comunidades cumpriram um importante papel na tentativa de suprir a falta de organismos de auto-organização dos trabalhadores e da população pobre. Essa valorização dos saberes e da experiência de um povo a partir de sua vivência e da organização com seus pares faz com que aqueles que participam do processo descubram seu próprio valor e se coloquem como sujeitos da história. Isso culminou no fato dessas comunidades terem sido capazes de, em alguns lugares, conseguir vitórias regionais e também fazer pressão contra a ditadura.

O caráter das comunidades eclesiais de base questionava aquilo que Paulo Freire (1974) chama de “assistencialização manipuladora”, que era promovida pelo governo por meio do populismo, e também pela própria Igreja em suas ações de “generosidade” pontuais. Segundo Freire, essas formas assistencialistas funcionam como um anestésico, que distrai “as massas populares quanto às causas verdadeiras de seus problemas.”

Mas esse anestésico já não fazia efeito no Brasil dos anos 50/60, afinal, como aponta o pedagogo, “os grupos assistidos vão sempre querendo indefinidamente mais (...) E, como não podem as elites dominadoras assistencializar a todos, terminam por aumentar a inquietação das massas”. Por isso foi preciso se pensar em outras vias para silenciar esses movimentos. Como pontuamos, a via do governo foi a repressão vinda com o golpe. E a via da Igreja?

Alguns setores se colocaram como aliados da ditadura, mas não todos, e essas comunidades são resultado disso. Mas como devemos encarar as CEBs nesse contexto, então? Seriam novos mecanismos da Igreja de contenção dos trabalhadores contra uma via revolucionária, ou trazem um questionamento que aponta para essa via? Para pensarmos sobre essa questão, é preciso analisar os diferentes percursos que esses organismos traçaram ao longo da história até chegarmos aos dias de hoje.

O assistencialismo que Freire combate também era colocado pelas CEBs nessa época como um problema. A perspectiva das CEBs ali não era de que a Igreja deveria conseguir simplesmente pequenas concessões de ricos para pobres em atos de caridade, como foi costume até então, mas sim de que era preciso lutar para superar as desigualdades a partir de questionar as opressões que eram recorrentes em suas vidas. E, desta forma, tomar ações contra elas, de modo a se tornarem agentes de sua própria libertação, sujeitos da história, e não objetos dignos de piedade, caridade e assistência, rompendo com a concepção passiva de espera da intervenção divina.

Os líderes religiosos dessa época precisavam responder aos anseios dessa base organizada em constante discussão nas CEBs, o que os mantinha em uma relação umbilical com a classe trabalhadora e todos os setores oprimidos. É isso que Michael Lowy aponta no seu texto “O catolicismo latino-americano radicalizado”, ao mostrar que enquanto o PCB, (que não tinha esse trabalho de base) defendia em seu Congresso (1967) que "a socialização dos meios de produção não corresponde ao nível atual da contradição entre forças produtivas e relações de produção", os bispos da região Centro-Oeste do Brasil, em 1973, divulgam um documento, O Grito das Igrejas, afirmando:

"É preciso vencer o capitalismo. É ele o mal maior, o pecado acumulado, a raiz estragada, a árvore que produz esses frutos que nós conhecemos: a pobreza, a fome, a doença, a morte da grande maioria. Por isso é preciso que a propriedade dos meios de produção (das fábricas, da terra, do comércio, dos bancos, fontes de crédito) seja ultrapassada."

A Pedagogia do Oprimido, as CEBs e Fidel Castro enquanto “liderança revolucionária”

A força das CEBs se deu pelo fato desse método de organização responder aos anseios de uma classe que, pela ausência de uma direção revolucionária consequente, buscava diversas saídas. O método dialógico que utilizava e aliança dos que “estão contra os privilégios dos opressores” que trazia favoreciam a auto-organização dos trabalhadores, algo essencial para se alçar uma revolução. Mas por que isso não ocorreu? Qual foi o erro estratégico desses movimentos que não levou a isso? Para refletir sobre esse ponto, interessa analisarmos os próprios limites de Freire - que servia de norte para muitas dessas comunidades - a partir dos limites que a religião traz para a “libertação dos oprimidos”.

Algo que chama atenção na Pedagogia do Oprimido, de maneira positiva, é a defesa da relação que a teoria precisa ter com a práxis. Entretanto, é impossível deixar de notar que essa práxis fica um tanto subvalorizada no livro, lacuna que faz com que os poucos exemplos históricos citados para exemplificar sua teoria na realidade saltem à vista e nos ponham em alerta.

O exemplo que Freire dá sobre a “liderança revolucionária” da qual Fidel Castro seria expressão elucida este caso. Ao longo do livro defende que a liderança revolucionária precisa fugir como da peste de uma “concepção bancária” digna da classe dominante, que “deposita” suas ideias, em contraposição de ter uma ação dialógica que fomente que o sujeitos pensem em si, em suas condições de vida, no que elas se relacionam com seu papel na sociedade e qual o papel que podem cumprir na história se acreditarem em suas próprias forças.

Porém o exemplo de Fidel faz exatamente o contrário dessa concepção dialógica se formos pensar na história da Revolução Cubana. A revolução de 1959 ensinou que, para alcançar a libertação nacional, o fim do latifúndio e a resolução do problema da moradia é preciso combater as burguesias nacionais, destruir seu aparato repressivo, expulsando-as do poder político e expropriando suas propriedades. Em seu momento esta realidade significou um golpe ideológico tremendo no estalinismo dos PCs latino-americanos que pregavam a revolução por etapas e a via institucional dentro do regime burguês.

Entretanto, pelo fato da tomada do poder ter se dado por meio da estratégia de guerrilhas (e não a soviética), nasce um Estado operário deformado, a mando de uma burocracia com pouca ligação com a base. Essa ligação se dá não pelo diálogo constante a partir de organismos de auto-organização, mas pela figura bonapartista de Fidel, que tem dois objetivos: por um lado sustentar-se no apoio popular frente às ameaças imperialistas e da burguesia contrarrevolucionária no exílio. Por outro, bloquear e impedir o surgimento de instituições de democracia direta (como os sovietes ou conselhos das revoluções Russa e Europeia nos anos 20) que expressem a autodeterminação e o governo direto das massas operárias e camponesas, assim como substitui o livre debate e a liberdade dos partidos e correntes que apoiavam a revolução pelo regime de partido único.

O trecho em que Freire reivindica Fidel, explicando a adesão das massas à revolução pelo fato de que isso “exigiu [de Fidel] o testemunho corajoso, a valentia de amar o povo e por ele sacrificar-se”, parece colocar de lado a organização pela base reivindicada durante o livro todo, pois aponta elementos no sentido de uma posição “pacífica” da população: o diálogo é substituído pelo testemunho, pela valentia e pelo sacrifício de um indivíduo, algo semelhante ao estilo messiânico de um profeta que mantém seus adeptos à espera da salvação que traz.

Os exemplos da carta dos bispos que, por pressão da base, defendem uma revolução; da falta de dialogicidade de Fidel na revolução cubana; e da própria experiência da burocratização do estalinismo na revolução russa mostram que, apenas tendo que prestar contas a uma base em constante diálogo, é possível um dirigente não se degenerar e se colocar inteiramente a serviço dos trabalhadores e de todos os setores oprimidos.

Ascenso operário nos anos 70, CEBs e o surgimento do PT

A lógica religiosa messiânica do cristianismo, junto a uma estratégia pautada mais no Evangelho que no marxismo revolucionário, não tardaria em fazer com que as CEBs caíssem em algum desvio político. Isso porque apenas a auto-organização não basta, é preciso que haja princípios estratégicos que discutam o antes, o durante e o depois da tomada de poder, e para isso é necessário um partido revolucionário. Entretanto o partido que surgiu na redemocratização não foi este.

Em 1974 a ditadura sofre uma derrota nas urnas para o MDB. Pressionada por essa derrota e pela crise econômica que explode internacionalmente, se inicia com Geisel o processo de "abertura lenta, gradual e segura" do regime. Nos anos que se seguem eclodem uma série de lutas, greves e comitês, e os setores progressistas da Igreja Católica intensificam sua atuação. A participação da Igreja não se dá apenas no apoio aos movimentos sociais, mas ocorre na participação direta em diversas manifestações, na promoção de debates e na organização por meio das CEBs, possibilitando relações com outros setores do movimento operário.

Em maio de 1978, a partir da paralisação da ferramentaria Scania, fábricas maiores entraram em greve numa movimentação que se expandiu até as greves gerais metalúrgicas no ABC e em São Paulo. O movimento de ascenso operário se estendeu pelos anos 80, resultando em uma onda de mobilizações e greves, colocando em xeque o plano de abertura gradual dos militares.

Com o processo de abertura do regime militar, no debate da época no início da década de 1980, era bastante comum entre parte dos intelectuais de esquerda que estavam aderindo ao Partido dos Trabalhadores, a discussão de "novidade" do PT como partido operário de massas. Era uma reflexão que buscava romper sem fazer um profundo balanço histórico com a experiência do PCB, que por seus erros estratégicos e de ação, como a já citada a aliança e o apoio a alternativas nacionalistas burguesas com Jango, deixara espaço aberto para o surgimento de um novo partido operário de grande proporção.

O surgimento do PT está circunscrito no contexto de abertura política e reformulação partidária colocada pela ditadura, e da emergência no interior dos movimentos sociais e alguns dos setores católicos progressistas na necessidade da existência de um partido que representasse o fervor da época e fosse capaz de aglutinar se as forças sociais em movimento. Isso é expresso por uma das lideranças católica da Teologia da Libertação, muito ligado às Comunidades Eclesiais de Base e posteriormente militante do PT, Frade Leonardo Boff, que em 78 diz "A médio prazo, os cristãos comprometidos, principalmente as comunidades eclesiais de base , devem ajudar a construir e reforçar um partido popular, com o objetivo de criar uma democracia popular[...]" .

Na própria composição e visão político-estratégica do Partido dos Trabalhadores e movimentos sociais como MST, desde suas origens, existe um discurso semelhante ao que existia na organização das CEBs dentro de uma noção de organização popular, sem delimitação clara da centralidade da classe trabalhadora, demonstrando justamente uma carência estratégica tanto do PT quanto das CEBs no que diz respeito a organização e a libertação das massas oprimidas. Com o acirramento das lutas, a queda do regime e a redemocratização, mesmo com inserção na classe operária e camponesa, as CEBs rapidamente se incluem dentro da ordem numa lógica governista por meio do MST ou dos movimentos sociais de periferia e núcleos de base do PT. O caráter dialógico da auto-organização se enfraquece para dar lugar à figura bonapartista de Lula como grande representante messiânico dos trabalhadores.

Assim, segundo o Padre José Oscar Beozzo, da Teologia da Libertação,
"nos anos 70 e 80, a Igreja era o guarda-chuva para a sociedade civil na defesa dos direitos, um abrigo para os movimentos sociais e um centro de atividade política. Quando abriu o regime não precisou mais exercer esse papel, porque floresceram outras institucionalidades."

Comunidades Eclesiais de Base hoje

Atualmente as Comunidades Eclesiais de Base não têm o peso significativo que tinham em décadas anteriores, perderam grande parte da força entre os movimentos sociais que detinha até os anos 80, em parte pela repressão da própria Igreja, em parte pela institucionalização dos movimentos sociais durante a abertura do regime.

No interior de sua organização ainda levam pautas de interesse dos setores da classe trabalhadora e juventude no âmbito econômico e das relações urbanas como é visível no texto base para a 14° Intereclesial das CEBs que ocorrerá ano que vem e tem como tema: "Desafios do Mundo Urbano", com um caráter comunitário e fortemente evangelizador e uma visão das Comunidades enquanto construtoras de uma “solidariedade”.

Com a juventude entrando em cena fortemente nas mobilizações desde as jornadas de junho de 2013 se vê uma necessidade dos setores progressistas da Igreja Católica de entrar em diálogo com esses movimentos dado ao caráter que as CEBs tiveram historicamente, porém com menor inserção real entre esses setores se comparado ao que existia no período ditatorial até a redemocratização.

Assim, as comunidades eclesiais de base desde seu surgimento até hoje, apesar do caráter progressista no que diz respeito aos direitos sociais e liberdade dos mais pobres carecem de um programa mais firme e de uma estratégia concreta para a conquista plena desses direitos pelos setores ditos populares, visto que nascem no seio da Igreja com base no Evangelho. Inclusive a própria Igreja é quem incorre em diversas represálias que visam a podar qualquer avanço desse movimento a uma saída revolucionária.

Desde 84 a Igreja Católica fiscaliza a Teologia da Libertação, que baseia muitas CEBs, corrigindo “exageros”, como em 86 quando a Carta do João Paulo II ressaltou sobre a questão do “amor preferencial aos pobres”, dizendo que deve ser um “amor preferencial e não excludente nem exclusivo para com os pobres”, o que evidencia que a Igreja não exclui de seus amados a classe que oprime.

A discussão que Freire faz sobre a libertação dos opressores, que se dará apenas com a libertação dos oprimidos, parece dialogar com essa necessidade de “não exclusão dos ricos”. Apesar de estar correta grande parte da discussão no que diz respeito à ideologia dominante também residir nos indivíduos oprimidos, que muitas vezes acabam sendo por isso também opressores, cria um problema por nunca falar nas categorias “burguesia” e “proletariado”, mas apenas “opressor” e “oprimido”, o que dilui o caráter de classe de quem sofre a opressão em primeiro lugar, que é a classe que tem em suas mãos o desejo e a capacidade de superar o capitalismo como solução para as opressões.

Assim, embora ainda haja críticas à sociedade capitalista e elementos progressistas, há hoje poucos elementos no texto-base para o Encontro Interclesial de 2018 que apontam efetivamente para a superação do capitalismo, como apontava O Grito das Igrejas em 1973. A perspectiva que traz é muito mais reformista que outra coisa. Um exemplo está na introdução, que incentiva que “formemos comunidades onde não haja necessitados porque o pão é repartido” , e não uma nova sociedade em que todos tenham pão.

A partir dessas reflexões, podemos concluir que as CEBs, pela experiência de testar a fé cristã efetivamente na práxis, nos ensinam que esta por si só é insuficiente para levar a humanidade a sua libertação. Afinal cristianismo não é progressista em si, só o que faz é responder aos estímulos dos atores da história a partir da luta de classes. Em um momento de refluxo, assumirá sua face reacionária. Em um momento de ascenso, terá sua face progressista.

Que os revolucionários saibam compreender estes movimentos para que, assim, possam apontar uma saída que supere os entraves da religião e mostre de fato aos trabalhadores e a todos os setores oprimidos que é possível sermos sujeitos da história e construirmos um novo mundo, a partir da “fé no homem e em seu futuro”, que são “força de resistência como religião alguma poderia fornecer”.

BETTO, Frei. O que é comunidade eclesial de base. São Paulo: Brasiliense, 1985.
BRANDES, Dom Orlando. Texto-base da 14º interclesical. Site Cebs do Brasil. 2017. http://www.cebsdobrasil.com.br/materiais/
DUARTE, Laura Maria Schneider. Isto não se aprende na escola. A educação do povo nas CEBs. Petrópolis: Vozes, 1984.
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FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
LOWY, Michael. O catolicismo latino-americano radicalizado Estud. av. vol.3 no.5 São Paulo Jan./Apr. 1989
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