Sociedade

CRIMINALIZAÇÃO DAS DROGAS

Senado apaga postagem com mentiras sobre maconha, mas mantém campanha pela criminalização

Fernando Pardal

@fepardal

segunda-feira 25 de junho| Edição do dia

Como denunciamos nessa matéria a página do Facebook do Senado, apoiando-se em informações divulgadas pela Polícia Federal, publicou uma postagem defendendo a criminalização da maconha. Entre os supostos efeitos nocivos, uma série de mentiras, como a de que a maconha causa "agressividade" ou mesmo "morte" se encontravam na lista apresentada.

Após o repúdio de milhares de pessoas, e a ridicularização das informações falsas veiculadas, a Secretaria de Comunicação Social do Senado fez uma nova postagem com um "esclarecimento" que não esclarece coisa alguma sobre as mentiras que havia divulgado, mas afirma ter tirado o conteúdo do ar.

O "esclarecimento" feito pela Secretaria de Comunicação Social do Senado pode não esclarecer nada sobre as mentiras que divulgaram, mas deixa uma outra coisa bem clara: que eles têm plena consciência de que as informações fornecidas pela Polícia Federal sobre as drogas cuja proibição defendem - os posts informativos sobre outras drogas lícitas e ilícitas como cigarro, ecstasy e cocaína foram mantidos - não possuem absolutamente nenhuma confiabilidade, e cumprem o papel de propaganda ideológica, e não de trazer informação para a população.

Como afirmamos na matéria sobre a postagem mentirosa a respeito da maconha, a proibição está relacionada a um papel econômico e político, a defender privilégios de determinados grupos e a manter uma justificativa ideológica para a brutal repressão estatal - por meio da polícia e do exército - que está todos os dias nas periferias, nos morros e nas favelas das grande metrópoles assassinando e encarcerando o povo pobre, sobretudo a juventude negra.

Cientistas sérios que debatem a questão das drogas sem a distorção ideológica conservadora instituída pela política imperialista da guerra as drogas, tal como Carl Hart, desmentem os absurdos divulgados nessas campanhas feitas pelo Estado - e que, não à toa, não são feitas por meio de universidades e estudos científicos, mas sim por instituições repressivas como a Polícia Federal e embasadas absolutamente na ideologia da criminalização das drogas e de seus usuários. Eles demonstram que mesmo entre aquelas pessoas cujo o uso prolongado e abusivo de determinadas substâncias psicoativas, como o crack, levou a problemas graves de saúde ou a morte, o determinante para isso não foi a substância ou seu uso em si, mas sempre o contexto de miséria, desemprego, falta de direitos sociais básicos que leva às pessoas a situações desumanas em que o consumo abusivo de drogas é um fator que está longe de ser a causa primária de qualquer problema.

Podemos ver essa questão em relação à droga mais popular do mundo e legalizada, o álcool: já no século XIX Engels mostrava como alcoolismo era um grave problema entre a classe trabalhadora, e isso não era à toa. A vida embrutecedora do trabalho alienado, das imensas jornadas, dos baixos salários, das péssimas condições de vida eram o que induzia ao abuso do álcool, o que podemos facilmente constatar até hoje entre a classe trabalhadora.

Nosso problema não são substâncias psicoativas, mas sim a miséria capitalista que leva a que tantas pessoas cheguem ao extremo de consumir de forma excessiva e auto-destrutiva substâncias que, em pequenas quantidades, não fariam mais mal do que tantas outras que são liberadas, como o açúcar ou a gordura.

O "esclarecimento" do Senado, enquanto mantém sua reacionária campanha pela proibição das drogas, mostra que não há nenhuma preocupação com a saúde da população, mas sim em manter a desinformação e o preconceito a serviço da sua própria dominação, da manutenção da repressão policial e do negócio bilionário do tráfico de drogas. Mas mostra também que, se nos organizamos e lutarmos contra essa farsa que querem impor, podemos ir derrubando o cerco de mentiras. Uma postagem removida de uma rede social pode parecer pouco, e de fato é, mas é uma pequena demonstração de que essas campanhas se sustentam na ignorância, no preconceito e na ideologia burguesa que elas mesmas visam reproduzir.

Por isso reafirmamos: é necessário lutar pela legalização das drogas, para que todos possam ter acesso a informação efetivamente científica sobre seus efeitos, usar de forma livre e responsável, ter acesso a um sistema de saúde integrado e efetivo, e a condições de vida que não levem a ter que recorrer a substâncias psicoativas para "aguentar o tranco" da vida cotidiana. A questão da legalização das drogas sob controle dos trabalhadores é um pilar fundamental para acabar com a matança e o encarceramento em massa produzido pelo Estado sob o pretexto da "guerra às drogas", e combater a violência gerada pelo tráfico. Basta de ser enganado por essas campanhas absurdas que são irmãs gêmeas da brutal repressão estatal.




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