CORONAVÍRUS

"Sem testes não teremos condições para aplicar estratégias mais efetivas", Eliseu Alves epidemiologista da USP

O Esquerda Diário entrevistou o Prof Dr Eliseu Alves Waldman, docente do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP - USP), vice-coordenador do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia e membro do Comitê Tecno-científico COVID-19 da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.

terça-feira 7 de abril| Edição do dia

A pandemia que já resultou em dezenas de milhares de mortos pelo mundo, teve seus antecedentes, seja o H1N1 ou o Ebola. Os sistemas sanitários e de saúde dos países poderiam estar muito melhor preparados para o cenário atual, se não fossem ignorados as diversas evidências das altas probabilidades de novas pandemias e a destruição e descaso de décadas de neoliberalismo com a saúde pública, através de seu desmonte e privatização.

Perguntamos para o professor sobre o histórico epidemiológico recente do mundo, assim como a importância da realização de testes massivos para que se tenha a informação necessária para a condução de um isolamento social efetivo, assim como de medidas para a recuperação da saúde pública. Além disso, o professor comentou sobre atividades de controle da atividade humana e animal assim como do ambiente para uma maior capacidade de resposta diante de epidemias e pandemias. Confira a entrevista completa abaixo.

Pergunta: Sabemos que a pandemia do COVID-19 foi antecedida por outras pandemias ou declarações da Organização Mundial da Saúde (OMS) de emergência em saúde pública, como a pandemia de H1N1 (gripe suína) em 2009, um ressurgimento da poliomielite e a epidemia de ebola em 2014, o surto de vírus zika em 2016. O Sr poderia nos contar mais sobre essas declarações e comentar a redução de tempo entre uma declaração e outra evidenciando a importância disso para saúde pública?

Resposta: Em 2009, a Organização Mundial da Saúde Já declarou situação de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional em cinco oportunidades. A primeira delas foi em função da pandemia de associada ao vírus influenza H1N1, que a semelhança do SARS-CoV-2, é uma doença de transmissão respiratória e que rapidamente disseminou-se por todos os continente e estima-se tenha determinado algo em torno de 18.500 óbitos em todo o globo. Nesse caso porém era disponível uma vacina, ainda em quantidade bem inferior a demanda, em virtude das dificuldades de se ampliar rapidamente a sua produção, além disso, dispomos de tratamento com antivirais. A letalidade média do H1N1 em todo o globo situou-se em torno de 0,4%, mas no Brasil foi de 0,1%.

Em 2014, a Organização Mundial da Saúde declarou pela segunda vez, situação de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, desta vez, em virtude do risco da reemergência da poliomielite, cujo Plano de Erradicação já encontrava-se na Fase Final, na qual a transmissão restringia-se a três países endêmicos (Paquistão, Nigéria e Afeganistão). Neste caso, teve o objetivo de chamar a atenção dos 194 países membros da OMS, da importância de manter elevadas coberturas de vacinação contra a pólio e garantir uma vigilância capaz de identificar rapidamente eventuais surtos para a imediata resposta. Vale salientar que a poliomielite não tem comportamento pandêmico.

Também em 2014, a Organização Mundial da Saúde declarou novamente situação de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, desta vez, em virtude da epidemia de ebola em três países africanos (Libéria, Guiné e Serra Leoa), determinando milhares de mortes nestes três países africanos e também pelo risco potencial de disseminar-se entre países vizinhos e para outros continente. A importância do ebola deve-se a sua elevada letalidade (30% a 50%), no entanto, é uma doença transmitidas pelo contato de secreções, portanto, os grupos de risco são os contato muito próximos dos casos e profissionais de saúde.

No início de 2016, tivemos a declaração pela Organização Mundial da Saúde de situação de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, em virtude da possível associação da infecção pelo vírus Zika durante a gestação e microcefalia. Naquela ocasião epidemias de Zika atingiam muitos países da América Latina, com epicentro no Brasil, mais especificamente, no nordeste brasileiro, onde fora observado importante elevação de casos de microcefalia.

Finalmente, em janeiro de 2020 temos a declaração Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional em virtude da emergência do Novo coronavírus (SARS-CoV-2) que determina um quadro de infecção respiratória aguda e em sua forma mais grave uma pneumonia. Sua letalidade não é muito elevada, possivelmente em torno de 1%, mas é 10 vezes mais elevada do que a influenza sazonal. Sua transmissão é respiratória por gotículas ou por aerossol, e como é um vírus emergente, ele surpreende toda a população como suscetível. Sua principal importância em saúde pública deriva da sua grande capacidade de transmissão e, portanto, de rapidamente infectar elevado número de pessoas, ainda que somente 15% dos infectado apresentem quadro clínico cujo tratamento deva ser hospitalar. Em decorrência, podemos ter um colapso do sistema de saúde, fato que aumenta a letalidade.

Pergunta: A questão de falta de testes arreata a subnotificação dos dados relacionados a casos e a óbitos. Estamos vendo o colapso, no Equador, não só do sistema de saúde mas também do sistema funerário, enquanto o pais tinha ainda 91 mortes por COVID-19 oficialmente notificada. Corremos o risco de um cenário de muitas mortes subnotificadas no Brasil?

Respostas: Se não conseguirmos implantar um sistema de informação em tempo real e se não conseguirmos dispor de quantidade suficiente de kits de testes de diagnóstico, seguramente, teremos muita subnotificação.

Pergunta: A partir dos dados que temos atualmente e sabendo das mudanças constantes e da falta de testes massivos que permitiria ter dados científicos mais precisos para conter a pandemia no Brasil, quais são os possíveis desdobramentos dessa pandemia aqui no país?

Respostas: Se não conseguirmos quantidade suficiente de kits de diagnóstico, teremos sérios desafios, não só para conhecer a verdadeira extensão da pandemia em nosso país, como também não teremos condições para aplicar estratégias mais efetivas para a mitigação da pandemia em nosso país.

Pergunta: O Sr colocou em diversas atividades realizadas em encontros online com a comunidade da Faculdade de Saúde Pública da USP a questão da estratégia de saúde única como um conjunto de medidas a serem tomadas de forma integrada para realmente combater a pandemia. Mas como estas estratégias vêm sendo aplicadas pelo governo brasileiro em relação ao COVID-19, sendo que nem testes massivos vêm sendo realizados para dar base para estas estratégias?

Respostas: É sempre importante salientar que cerca de 60% das doenças infecciosas emergentes são determinadas por microrganismos que circulavam em populações animais e que o comportamento das doenças infecciosas emergentes e reemergentes são influenciadas pela forma de contato da população humana entre si, com populações animais e com o ambiente. Portanto, se queremos monitorar os fatores influenciam essas doenças, a vigilância não deve restringir-se ao acompanhamento dos fatores diretamente relacionados a população humana, mas também daqueles relativos às populações animais e ao meio ambiente. Em síntese a estratégia da Saúde Única propõe que a vigilância e as atividades de controle se façam de forma articulada nesses três componentes, homem, animal e ambiente. Na última epidemia de febre amarela as atividades de vigilância observaram essa estratégia, o que a meu ver constituiu um importante avanço. Em relação a Covid-19, a prioridade nesta fase é implantar um sistema de vigilância sensível, fortalecer a estrutura dos serviços de saúde, diminuir a velocidade da disseminação da doença com a finalidade de evitar o colapso do sistema de saúde e mitigar o impacto da pandemia em nossas populações vulneráveis.




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