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Sem mencionar o FMI, Kirchner propõe um “contrato social” com os empresários que aplicam ataques

A ex-presidenta fez um discurso durante a 45ª Feira Internacional do Livro em Buenos Aires, no lançamento de seu livro “Sinceramente”. Em tom eleitoral, mencionou que sua obra é uma contribuição ao debate sobre as saídas para a crise. Em discurso moderado, convocou especialmente os empresários argentinos (que recentemente saudaram com entusiasmo os “dez pontos” de Macri) e evitou qualquer menção ao FMI ou à crise de dívida que vive a Argentina.

sexta-feira 10 de maio| Edição do dia

Tradução http://www.laizquierdadiario.com/Sin-mencion-al-FMI-CFK-propuso-un-contrato-social-con-los-empresarios-que-ajustan

Em local simbólico dos anos kirchneristas, a Sociedade Rural, a ex-presidenta Cristina Kirchner apresentou nesta quinta-feira (9) seu livro “Sinceramente” durante a Feira do Livro de Buenos Aires.

Entre convidados do evento e um numeroso grupo de simpatizantes que acompanhavam do lado de fora, estiveram presentes personalidades políticas, sindicais e culturais como Fernando Espinoza, Verónica Magario, Teresa Parodi, Pablo Echarri, Pino Solanas, Victoria Donda, o humorista “Tute”, o ex-ministro Carlos Tomada, Jorge Taiana, o empresário e proprietário do Grupo América Daniel Vila, Adolfo Pérez Esquivel, Agustín Rossi, Eugenio Zaffaroni, Julieta Díaz, Aníbal Fernández, Alberto Fernández, Felipe Solá, Roberto Baradel, Hugo Yasky, entre outros.

O início do evento teve um tom militante, com os simpatizantes kirchneristas cantando palavras de ordem como “voltaremos”, “Cristina presidenta” e um grito contra o atual presidente que tornou-se um hit em shows e estádios de futebol.

Sobre o objetivo da apresentação, Kirchner declarou: “Quero que este livro sirva aos argentinos como um instrumento de discussão e debate”, enquadrando seu discurso dentro da crise vivida na Argentina.

Obviamente, faltando poucas semanas para a apresentação dos candidatos à presidência, marcada para 22 de junho, sua fala foi interpretada por muitos como parte de sua própria campanha eleitoral, ainda que a senadora não tenha feito nenhuma referência à sua candidatura.

Um “contrato social” sem romper com o FMI e com os empresários que aplicam demissões e ataques

O eixo central do discurso da ex-presidenta foi sua proposta de “um contrato social de cidadania responsável”.

Em sua intervenção, Cristina Kirchner enfatizou especialmente dois aspectos. O primeiro, na verdade, se expressou por meio de um estrondoso silêncio, durante todo seu discurso, em relação ao FMI e à questão da dívida pública, tema latente da crise argentina.

É impossível considerar que isto foi apenas um relapso, dado que trata-se de um tema central da realidade do país. Este silêncio se explica, então, pela postura conciliadora de Kirchner com o FMI – como se vê nas promessas de seu ex-ministro Axel Kicillof de que, caso eleitos, não romperão com o Fundo e pagarão toda a dívida aos especuladores, como já o fizeram em seus governos anteriores.

O segundo eixo importante de sua proposta de “contrato” foi o contundente chamado aos empresários. Em diversos momentos, a ex-governante dirigiu-se aos homens de negócios, convocando-os a gerar empregos e advertindo que sem crescimento econômico e sem mercado interno não haverá a possibilidade de lucros. Seu modelo para isto foi reivindicar o Pacto Social de Perón – que, vale lembrar, terminou na grande crise econômica chamada de “Rodrigazo” em meados da década de 1970, e tentou ser implementado mediante a utilização da AAA (Aliança Anticomunista Argentina), responsável pelo assassinato de lutadores operários que questionavam o acordo. “Para que ganhem mais dinheiro, é necessário que todos tenham salário e comida”, Kirchner sinalizou justamente aos empresários, os responsáveis pelas demissões e pela precarização.

As câmaras empresariais acabam de reivindicar euforicamente os “dez pontos” do acordo nacional proposto pelo governo Macri, que inclui maior ajuste fiscal, reforma trabalhista e da previdência, e o pagamento de toda a dívida aos especuladores. Nada positivo pode vir disto.

Também a respeito do emprego, a ex-presidenta quis descolar-se de sua imagem “populista” e apontou que em seu governo e no de seu marido, Néstor Kirchner, diminuiu a quantidade de políticas sociais concedidas pelo Estado, enquanto que durante o governo de Mauricio Macri este número aumentou.

Ironicamente, disse que agora existem mais “choriplaneros” (expressão argentina utilizada para referir-se pejorativamente aos kirchneristas ou peronistas que trocavam seu apoio por benefícios estatais). Trata-se de uma guinada à direita (já que setores conservadores utilizam a mesma expressão para criticá-la), no marco de um discurso de tom moderado e conciliador que, frente às eleições, busca ampliar seu espaço político para além da base kirchnerista tradicional.

A menção à crise de 2001, obviamente, não foi casual. A ex-presidenta, consciente da proximidade do período eleitoral, procura difundir a ideia de que ela pode tirar a Argentina da situação de crise atual.

Vale lembrar que, há mais de um ano, Kirchner vem utilizando sua projeção política para apontar a espera pelas eleições como a única via possível para a saída da crise.

Esta política, por um lado, já implicou até agora no avanço dos planos do FMI, de Macri e dos governadores, com centenas de milhares de demissões e a queda do poder de compra dos salários.

Neste sentido, tampouco foi por acaso que nada tenha sido dito sobre o papel dos deputados e senadores peronistas que votaram a favor de todas as leis de Macri, e aos quais agora se faz um chamado pela unidade eleitoral, assim como aos governadores peronistas.

Neste domingo (12), haverá eleições na província de Córdoba, onde o kirchnerismo já anunciou sua lista de candidatos, favorecendo a Juan Schiaretti, o “amigo peronista” de Macri.

Se é difícil pensar que com estes aliados pode haver alguma saída para a crise que seja favorável às grandes maiorias, é ainda mais difícil imaginar um cenário melhor para o povo trabalhador sem uma ruptura com o FMI.

Referindo-se à saída da crise de 2001, Cristina Kirchner vende a ilusão de uma situação anterior que é muito diferente da atual. Distante das condições de crescimento dos anos iniciais do governo kirchnerista (baseadas no saque da desvalorização levada adiante por Eduardo Duhalde e num contexto internacional favorável, que ainda assim não resolveram problemas estruturais como a precarização do trabalho ou a subordinação nacional ao capital estrangeiro), hoje a situação argentina é muito mais complexa, tendo como dois problemas centrais a subordinação ao FMI e o crescente peso da dívida.

A renegociação com o FMI proposta pelo kirchnerismo não pode trazer nada de bom para o povo trabalhador, uma vez que este organismo internacional exigiria em troca mais ajustes e reformas estruturais. Neste marco, não é casual que a ex-presidente não tenha mencionado nenhum dos dois temas.

Contra os planos do macrismo de submissão ao FMI, e contra as ilusões vendidas por distintos setores do peronismo, a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT) apresenta seus próprios “dez pontos”, que indispensavelmente partem da necessária ruptura com o FMI e o não pagamento da dívida aos especuladores.

Por último, mas não menos importante, Cristina Kirchner tampouco falou da luta pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito, pelo qual uma enorme maré verde vem se mobilizando há mais de um ano em todo o país. Vale lembrar que em um de seus últimos discursos públicos, havia sugerido “unir os lenços verdes com os azuis” (empunhados pelos setores conservadores contrários ao direito pelo aborto legal). Desta vez, Kirchner optou por sequer falar deste tema.




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