Teoria

EXTRAÇÃO MINERAL

Sede de Ferro: Vale inicia as operações comerciais do maior projeto da indústria de extração mineral no Brasil

A empresa Vale S/A embarcou em janeiro a primeira carga comercial de minério de ferro extraído da mina S11D em Canaã dos Carajás (PA). A Vale saqueará 10 bilhões de toneladas de minério de ferro em aproximadamente 48 anos – expectativa de vida útil da mina.

Livia Tonelli

Professora da rede estadual em Campinas (SP)

quarta-feira 25 de janeiro de 2017| Edição do dia

O Terminal Marítimo de Ponta da Madeira, em São Luís do Maranhão (MA), embarcou a primeira carga comercial extraída na mina S11D. A empresa não informou o destino das 26,5 mil toneladas de minério de ferro exportados.

Em 2012 a empresa anunciou publicamente o Projeto Ferro Carajás – S11D com o subtítulo “Um novo impulso ao desenvolvimento sustentável do Brasil”1. O mesmo desenvolvimento sustentável responsável pelo desastre de Mariana (MG) e pelos mais de 30 anos de Programa Grande Carajás que arruinou territórios indígenas, quilombolas e das comunidades tradicionais da região.

O discurso de sustentabilidade se apoia no emprego de tecnologias que diminuirão a quantidade necessária de água para extração e beneficiamento do minério de ferro. Assim como a diminuição da emissão de CO2 no transporte da carga. Entretanto, isso não apaga e tampouco diminui os impactos ambientais e a miséria há décadas cicatrizados nos territórios e nos sujeitos onde a empresa atua. Não atoa em 2012 a Vale foi eleita em votação internacional da “Public Eye Awards” a pior empresa do mundo.

O Programa Grande Carajás, na década de 80, iniciou a exploração das minas de ferro na Serra Norte do Complexo Minerador de Carajás, localizada no município de Parauapebas. Essa nova “empreitada” da Vale S/A avança para a Serra Sul, localizada no município de Canaã dos Carajás. A empresa calcula que no primeiro ano do projeto será extraído 90 milhões de toneladas do minério e quando o mesmo atingir sua capacidade plena esse valor saltará para 230 milhões de toneladas por ano. O potencial mineral do corpo S11 da Serra Sul do Complexo Minerador de Carajás é de 10 bilhões de toneladas. Sendo a maior concentração no bloco D (4,24 bilhões. Esses números jamais foram registrados nos anuários do Departamento Nacional de Produção Mineral – DNPM.

Trata-se do maior projeto da indústria da mineração brasileira tanto em termos de quantidade absoluta de extração do minério de ferro quanto em criação e aprimoramento de infraestrutura e alocação de recursos financeiros.

A empresa anunciou que foram gastos no projeto aproximadamente R$ 40 bilhões de reais, “o maior volume de investimento privado no Brasil nesta década”. O maior investimento privado foi realizado com mais da metade de recursos públicos. Somente para duplicação da Estrada de Ferro Carajás, instalação de um novo ramal em Carajás e ampliação da estrutura ferroviária no Terminal Marítimo de Ponta da Madeira (um terminal privado da Vale S/A no Complexo Portuário de São Luís) foram disponibilizados R$ 3.8 bilhões. Outros RS 19.9 bilhões foram destinados para outras obras de infraestrutura da mina e usina de beneficiamento. Investimentos que afirmam o papel desenvolvido pelo governo do PT na constituição de grandes monopólios nacionais.

O S11D foi arquitetado em meio ao dito projeto nacional desenvolvimentista do governo do PT e do chamado superciclo das commodities – aumento do preço e da quantidade exportada de commodities entre 2000 a 2013. Entretanto, esse boom apresentou sinais de esgotamento já em 2011 com a queda nos preços das principais commodities da pauta de exportação nacional e da importação chinesa - principal comprador do minério de ferro brasileiro. Este último está ligado a desaceleração da economia chinesa e a queda abrupta do rítmo de crescimento da construção civil e infraestrutura.

Entre 2011 a 2014 registrou-se queda de aproximadamente 50% no preço do minério de ferro. As receitas derivadas das exportações minerais tiveram neste período uma retração de aproximadamente 28%.

Em matéria publicada no início deste ano pela revista Exame, o governo Australiano (maior exportador do minério) anunciou previsão de redução do preço do minério de ferro para os próximos dois anos. Estima-se que em 2018 a tonelada do minério custará 46,70 dólares. Um valor muito abaixo da média do período do superciclo das commodities. Fato que impacta diretamente no superavit nacional, e, portanto, nas expectativas e previsões do governo para o pagamento da dívida pública.

A Vale tenta “compensar” a perda de receita diante da queda dos preços por meio do aumento da quantidade absoluta exportada e do diferencial do minério de carajás – alta qualidade (superior a 66% de hematita). Já o governo golpista acelera a aprovação no planalto do novo marco regulatório da mineração e já alterou as demarcações das terras indígenas. Cabe lembrar que os deputados da Comissão Especial do Novo Código de Mineração compactuaram com o golpe institucional além de estarem envolvidos como proprietários de empresas diretamente ligadas ao setor e com o recebimento de dinheiro para financiamento de campanha eleitoral.

Canaã dos Carajás, a terra prometida, já amarga as desgraças da mineração. Assim como outrora, e cada qual com suas especificidades, foi possível observar em Parauapebas (PA) e Marabá (PA). O crescimento populacional explosivo fruto do período intenso de obras e da ilusão do desenvolvimento que acompanha os projetos de extração mineral já não encontra corresponde real – se é que em algum momento encontrou - em emprego e em infraestrutura e serviços básicos.

Cabe ressaltar, que o projeto S11D foi “colocado de pé” com o uso explícito e exacerbado da violência. Uma prática recorrente e consciente da Vale. Desde relações de trabalho precárias (terceirizações), remoções de famílias e expropriações de terras, atividades de espionagem a criminalização dos movimentos sociais. Não se trata somente de um saque anunciado, mas também de vidas sabotadas que seguem em luta pelo direito a terra e a existência digna.

Bibliografia:
1 - Projeto S11D disponível em: http://www.vale.com/PT/initiatives/innovation/s11d/Documents/book-s11d-2013-pt.pdf

2 - Ver "Qual "projeto de país"? Entre o gradualismo reformista e as contradições estruturais do país. Revista de Teoria e Política Marxista. Estratégia Internacional Brasil. nº 5. Julho de 2011. O texto aborda os plares do crescimento econômico nacional durante o governo do PT.

3-http://industriaextrativa.ibase.br/files/2016/01/BNDES_Sem_Segredos_n04_IBASE_2015_rev1.pdf

4 - http://exame.abril.com.br/mercados/australia-preve-queda-no-preco-do-minerio-de-ferro-em-2-anos/




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