Política

GUERA ÀS DROGAS PARA QUÊ?

Secretário de Ordem Pública no Rio diz que guerra às drogas é inútil, mas “necessária”

Paulo César Amêndola, Coronel e Secretário de Ordem Pública que há mais de três décadas está na Polícia do Rio, afirmou que a guerra ao tráfico é uma ação de "enxugar gelo constante".

Fernando Pardal

@fepardal

terça-feira 1º de agosto| Edição do dia

As declarações de Amêndola foram dadas em entrevista publicada nessa terça-feira, 1, no jornal Folha de S. Paulo.

O Coronel defende todo tipo de ações repressivas: é favorável à presença das Forças Armadas na cidade, utiliza as 840 câmeras de trânsito na cidade para vigilância policial (e quer aumentar o número delas), e quer ainda dar porte de armas de fogo para os Guardas Municipais que estão sob seu comando atualmente.

Em seu currículo, conta com uma enorme lista de crimes praticados com sua farda: atuou a serviço da ditadura prendendo guerrilheiros; criou em 1978 a unidade de elite da PM que daria origem ao BOPE; criou a Guarda Municipal em 1993 sob a gestão de César Maia.

Ele afirmou que o papel que cabe à Guarda Municipal é atuar em defesa da "ordem pública" combatendo pequenos delitos. A isso, ele chamou de atuar "na raiz do problema", revelando sua concepção em que a repressão é a solução efetiva para a violência e que a "raiz" da criminalidade não tem nenhuma relação com a miséria avassaladora em que se encontra o povo do Rio, com um desemprego imenso, condições de vida extremamente precárias nas favelas, serviços públicos completamente devastados e uma desigualdade social que causa indignação. Isso tudo, certamente, não tem nada a ver com a "raiz" do problema da criminalidade para Amêndola.

Para ampliar a repressão, o Coronel ainda afirmou na entrevista que irá recorrer da decisão judicial que impede que os Guardas Municipais utilizem armas não-letais, como tasers e armas de bala de borracha. Ele foi o responsável direto pela criação da Guarda Municipal em 1993 e diz que é necessário que ela esteja armada porque: "É importante porque ela tem de ter capacidade para superar todos os tipos de violência (...) Acho que deveria usar inclusive arma de fogo, para poder dar proteção total ao cidadão". Assim, deixa claro que o que quer é a Guarda matando e reprimindo a população negra nos morros, como hoje já faz a polícia militar.

Sobre os assassinatos constantes da polícia contra a população negra nos morros, que mata impune e indiscriminadamente, inclusive crianças na escola como Maria Eduarda ou crianças ainda na barriga de suas mães, como foi com Arthur, o Coronel repete a mesma ladainha de sempre, a despeito dos dados que atestam que a matança é o modo ordinário de atuação da polícia: "O mau emprego da arma de fogo não é um problema da instituição, mas de alguns policiais, que usam de modo inoportuno e tecnicamente errado. A arma é essencial em algumas situações, mas a instituição precisa selecionar quem pode empregar essa arma e ensinar quando pode empregar."

Ele admitiu que a criminalidade tem aumentado de maneira vertiginosa, aumentando o número de conflitos armados nos morros e disse cinicamente que "o inocente paga o preço, algumas vezes."

Perguntado sobre como resolver a questão do aumento de conflitos, mais uma vez o Coronel mostrou que seu cérebro de policial só é capaz de pensar em reprimir, e para ele a solução está em reprimir de forma mais "amena", incluindo espionagem e ações de infiltramento.

Em resposta à pergunta da Folha, sobre se a ação de combate ao tráfico não seria "enxugar o gelo", o Coronel respondeu: "Se não enxugar esse gelo, o Rio vira uma geleira, o Polo Norte." Nem passa pela cabeça de assassino do policial que a legalização das drogas acabaria de uma vez por todas com essa carnificina que, como ele próprio assume, não resolve o problema nem do ponto de vista desse Estado repressor e assassino. Ele disse, sobre a questão da legalização, que "não tem uma opinião formada". Ele prefere seguir "enxugando o gelo", ou, traduzindo isso para palavras um pouco mais literais, matando a juventude negra nos morros e favelas em nome de uma política inútil e assassina, que acha que as balas vão resolver o problema causado pela miséria capitalista.




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