Gênero e sexualidade

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Secretaria de Mulheres do Sintusp contra a cultura do estupro

sábado 28 de maio de 2016| Edição do dia

A SECRETARIA DE MULHERES DO SINTUSP manifesta sua solidariedade às duas adolescentes vítimas dos mais recentes casos de estupro coletivo: uma, no Rio de Janeiro, atacada por 33 homens; e outra, no Piauí, violentada por 5 homens.

Segundo as estatísticas oficiais, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil. Em razão da vergonha, do medo e da frequente culpabilização das vítimas, estima-se que o estupro seja o crime com mais subnotificações no país, com apenas 30% de casos denunciados. Há muito mais estupros do que mostram os números que chegam até nós.

Estes últimos casos chocam porque o estupro de gangue evidencia o extremo de desumanização das mulheres que o machismo e a misoginia provocam. No entanto, hoje e todos os dias é preciso lembrar que o estupro (coletivo ou individual), a agressão física, a agressão psicológica e o assédio são uma realidade cotidiana, que atinge meninas e mulheres em casa, na escola, no trabalho e na rua.

Aqui na USP também sabemos como funciona a cultura do estupro. O escândalo da CPI dos trotes trouxe à tona os inúmeros casos de estupros ocorridos na Faculdade de Medicina que chocam, não apenas pela barbárie, mas pelo acobertamento da reitoria, que pune mulheres que lutam ao mesmo tempo que silencia sobre os casos de estupros e assédios. No Crusp, moradia estudantil, também inúmeros casos são acobertados, o que culminou, este ano, na Ocupação da SAS (Superintendência de Serviço Social) por mulheres dispostas a dar um basta ao machismo institucional da USP. Ainda esse ano, na UFRJ, mais uma mulher foi vítima de estupro e recentemente suicidou-se, perseguida pelo trauma da violência.

E por que isso acontece? A cultura do estupro naturaliza a ideia de que os corpos das meninas e mulheres não passam de instrumentos à disposição do prazer e do exercício do poder masculino. Corpos que não contém um sujeito, dotado de autonomia e dignidade próprias. A cultura do estupro naturaliza a ideia de que as vítimas são culpadas pelas agressões que sofrem, em razão da sua roupa, do seu comportamento e dos lugares por onde circulam. A cultura do estupro invisibiliza o sofrimento das vítimas e reforça a sensação de impunidade dos agressores, fazendo com que essa violência nunca tenha fim.

Não, os estupradores não são monstros ou psicopatas. São filhos saudáveis do patriarcado, criados sob um regime que celebra a objetificação da mulher, a exclui dos espaços políticos e trata sua dor com negligência. É sintomático que, no mesmo dia em que o vídeo com as imagens do estupro ocorrido no Rio viralizou, o Ministro da Educação do governo interino tenha recebido em seu gabinete Alexandre Frota, que confessou um estupro em tom de piada na televisão.

O governo interino, assim como o anterior, vem proibindo o debate de gênero e a educação sexual nas escolas, medidas fundamentais no combate à cultura do estupro. Além disso, o Estado não oferece adequada estrutura de atendimento e acolhimento para as vítimas de violência e seus filhos, e extinguiu a Secretaria de Políticas para Mulheres. Nos últimos tempos, o avanço de uma agenda conservadora no Congresso, personificada em figuras como Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha, tem permitido a tramitação de projetos de lei como o 5069/2013, que dificulta a assistência de saúde a vítimas de estupro e pretende acabar com o direito ao aborto nestes casos.

Exigimos a punição dos agressores e a responsabilização do Estado, com indenização as vítimas, e conclamamos todos, mulheres e homens, a combaterem as manifestações da cultura do estupro, tanto na esfera individual quanto na das políticas de Estado. É necessário tomar as ruas para expressar nossa indignação, exigir nossos direitos e interromper o ciclo de violência que atinge meninas e mulheres.

Diversos atos estão sendo convocados em todo o Brasil para a próxima semana. A Secretaria de Mulheres do Sintusp levará um bloco ao ato marcado para a próxima quarta, 01/06, às 16h, no MASP, e chama todas as trabalhadoras, trabalhadores, entidades e organizações a se somarem nesta luta.




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