Política

Sartori, o homem mais odiado do Rio Grande do Sul

"Meu partido é o Rio Grande!" Foi com esse slogan que o atual governador do Rio Grande do Sul foi eleito, desbancando o petista Tarso Genro em 2014. Dois anos depois tanto o Rio Grande quanto o seu partido estão em maus lençóis. Com o aprofundamento da crise econômica no estado, as demissões e a inflação crescendo e os abusivos parcelamentos dos salários dos servidores públicos, o pemedebista vem virando candidato número um para homem mais odiado do estado.

sexta-feira 5 de agosto| Edição do dia

Para chegar a essa conclusão não é necessária uma pesquisa tão ostensiva, basta se atentar às conversas no bus, no horário de almoço, nas ruas voltando pra casa… O ódio se expressa ainda mais na crescente palavra de ordem presente em cada ato e pixação pelas ruas da capital gaúcha: Fora Sartori!

O Correio do Povo, em parceria com o Instituto Methodus, concluiu em pesquisa que a larga maioria dos gaúchos desaprovam veementemente o atual governo. Em Porto Alegre, menos de 20% dos moradores aprovam o governo, levando aos gigantescos 80,4% de desaprovação na capital. Em Canoas e Pelotas o número é semelhante. Apenas em Caxias do Sul o número de desaprovação chega a 47,3%. Ainda que a pesquisa se limitasse à 4 cidades, a tendência é o rechaço se reproduzir interior afora.

E as razões são muito legítimas. Semana passada foi anunciado o parcelamento salarial dos servidores públicos (pela oitava vez desde o ano passado) em R$ 650. No ano passado, também em Agosto os servidores receberam R$ 600. As definições de mês do desgosto vem sendo atualizadas pelo “gringo da colônia”. Como fazer para pagar o aluguel, se locomover com a tarifa de 3,75, botar comida na mesa e ainda assim conseguir aproveitar algum lazer no fim de semana com míseros R$ 650? Malabarismos matemáticos que deveria ser respondidos pelos parlamentares, pelo governador e seus secretários que recebem mais de R$ 20 mil ao mês.

Como se não bastasse, o crápula não se cansa de cinismo. Se achávamos que ano passado a piada do Tumelero (quando perguntado sobre o piso salarial dos professores, Sartori disse que se quisessem saber de piso, que fossem à Tumelero, loja de artigos de construção) já havia sido a gota d’água, este ano o dirigente do Piratini disse achar "estranha" e "exagerada" a paralisação dos servidores após o parcelamento nessa quinta-feira (4).

A lista de maldades é grande e talvez nem caiba nesse texto. Mas a depender das próximas ações do governador, esses 80% de rejeição podem sair das estatísticas e pisar firme nas ruas das cidades exigindo a cabeça de Sartori. Agora, uma questão que deve ser aprofundada pelo conjunto da esquerda e dos movimentos sociais é: apenas derrubando o governo vamos resolver os problemas que os gaúchos enfrentam todos os dias? Ou essa mesma luta deve desde já apontar para um programa de emergência a ser levantado pelas organizações de esquerda, sindicatos e movimentos sociais?

A pindaíba existe?

Já ouvi muita gente de esquerda falando que essa tal “crise” do estado não existe, que é palhaçada do Sartori para arrasar com os pobres. Afinal, gigantescos financiadores de campanha, como a Gerdau e Itaú sonegam bilhões em impostos todos os anos. Tem dinheiro pra banqueiro, mas não tem pra educação? Essa reflexão é só parcialmente correta.

É claro que as prioridades de Sartori passam longe da defesa dos direitos dos trabalhadores. O parcelamento salarial comprova isso. Mas isso não exclui o fato de que a pindaíba exista, e é devastadora, os números comprovam isso.

Calculando a receita com os gastos do RS se vê que os últimos dois anos foram particularmente difíceis, houve diminuição da arrecadação e do repasse pelo governo federal. Houve também reajustes generosos à casta política e jurídica do estado (que já estavam muito bem, obrigado), configurando um escárnio sem tamanho para quem peleia para pagar as contas e está se endividando. Esses reajustes devem ser cortados e reinvestidos em setores que necessitam, como saúde e educação, mas mesmo assim ainda não bastaria para resolver o problema mais de fundo.

Esse quadro se agrava ainda mais quando abordada a sonegação de imposto por parte das multinacionais e bancos, que não apenas o governo permite, como estimula. Na ponta do lápis, os sonegadores no Rio Grande do Sul, que começaram a dar suas caras mais abertamente com o desenvolvimento da operação Zelotes, acumula a marca dos bilhões. É urgente a resolução dessa questão, com o retorno do montante sonegado, bem como a devida punição aos sonegadores.

Agora o panorama geral que envolve todo esse cenário é a crise econômica em curso. Ela existe e não podemos negá-la. A crise capitalista está em curso desde pelo menos 2008 no mundo e achar que o Brasil, ou até mesmo o Rio Grande do Sul, está isenta é no mínimo ingênuo. A verdade é que sim, empresas fecharam as portas no Rio Grande do Sul no último período, diminuindo a arrecadação. Isso tudo por conta de falências, mas também para aproveitar mão de obra mais barata em outros estados e dessa forma manter seus lucros. Empresas fechando, empresas demitindo e inflação crescendo diminui o consumo e com isso o ICMS, uma das principais fontes de arrecadação. Como se não bastasse, temos na atual legislação um sistema de dívida que impõe ao estado uma relação de refém com o governo federal e os bancos.

Dessa forma Sartori, como legítimo representante da burguesia, despeja toda a crise nas costas dos trabalhadores. O resultado conhecemos, vai desde o parcelamento salarial até demissão em massa. O debate que queremos travar com o conjunto da classe trabalhadora e com a esquerda é que para combater todos esses problemas é necessário atacar os privilégios da casta política, os sonegadores e também levantar um programa para a crise, sendo esta última negada por parte da esquerda.

Programa para a crise

Enquanto não atacar a raiz do problema, que tem a ver com o pacto com a união referente à dívida pública e os interesses dos grandes latifundiários, empresários, industriais e banqueiros, ano após ano vamos se afundar na tremenda pindaíba causada pelo sistema. Esse discurso de que a crise não existe favorece a estratégia petista de que basta trocar o gestor que as coisas mudam. Quantas vezes não ouvimos em assembleias do CPERS e textos do Sul 21 que o que falta ao governo é “vontade política”? E a esquerda repete. A verdade é que Sartori, Ana Amélia, Tarso ou até mesmo Luciana Genro são incapazes de resolver os problemas pela via institucional. O que mudará não é a gestão ou a administração mais correta, íntegra e ética, mas sim os alicerces de sustentação do regime, que se chama capitalismo. O governo Sartori está condenado a reproduzir o programa da burguesia para a crise, que envolve enxugamento de gastos (parcelando até mesmo o salário da brigada militar, mesmo em um caos de aumento da criminalidade que incomoda todo e qualquer governante) e salvamento das grandes empresas como se vê nessa matéria do Correio do Povo onde Sartori assina o benefício de quase R$ 500 milhões para um punhado de industriais (http://www.correiodopovo.com.br/noticias/?noticia=574879). Caso contrário as empresas fogem do estado, colocando ainda mais trabalhadores nas ruas.

O oposto desse programa que chamamos de burguês seria um programa operário que envolvesse sim a derrubada do Sartori pela força da mobilização, mas não para colocar outro alguém mais carismático no lugar. Mais que isso, com a organização do conjunto da classe trabalhadora, a dívida pública não deve ser paga para poder, em primeiro lugar, devolver o salários dos servidores. Com isso avançar nos problemas mais de fundo referentes à moradia, saúde e educação. Os principais ramos da economia, como os transportes por exemplo, devem ser estatizados e colocados sob controle dos próprios trabalhadores, sem indenizar os empresários. Contra as demissões e o desemprego que vem crescendo, diminuição das horas de trabalho sem redução de salário e contratação de todo o efetivo necessário para dar continuidade à produção. Às empresas que dizem não ter dinheiro para contratar, que se abram os livros de conta então para que os operários saibam para onde está indo o lucro. Isso tudo só é possível com uma ampla mobilização da classe trabalhadora junto à juventude e demais setores que também vem sofrendo com a crise.

Todo esse debate não pode ser descolado das já existentes lutas contra o Temer. Não é um acaso o governo federal estar sendo comandado por um dos correligionários de Sartori, que também vem aplicando medidas de ajustes contra os trabalhadores. Afinal, a luta contra as crises nos estados passa também por atacar o governo federal que dita as regras do jogo a nível nacional.

Esse debate é urgente. Enquanto os sindicatos, as organizações de esquerda e os ativistas continuarem reproduzindo o discurso de que a crise não existe, quem vai sair ganhando é o próprio Sartori, mesmo sendo amplamente rechaçado. Ou então quem vai canalizar toda essa insatisfação é o reacionário braço do regime chamado polícia, como já estamos vendo fazer nessa quinta-feira com a paralisação. Mais uma vez a sabedoria das ruas fala mais alto, o peão que vê o irmão sendo demitido, o feijão mais caro a cada dia e o bife ficando menor, sabe que a crise existe. Mas se não encontrar uma saída em seus companheiros de classe e na esquerda, o que vai restar é apenas o ódio contido e mais um voto daqui a dois anos para quem tiver o discurso “menos pior”.




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