Gênero e sexualidade

TRIBUNA ABERTA

Sara Winter e sua cruzada antifeminista e conservadora

Sei que ao escrever esse texto, muitas feministas irão desconsidera-lo por eu ser um homem lutando a favor do feminismo, mas peço encarecidamente a essas mulheres que leiam o texto e depois formem suas opiniões.

quarta-feira 10 de agosto| Edição do dia

Sara Winter, pra quem não a conhece, é uma Youtuber ex-feminista (agora antifeminista ferrenha), que é filiada ao Partido Social Cristão, o mesmo de Jair Bolsonaro e do pastor Marco Feliciano, amiga dos dois e que ganhou fama junto à direita mais conservadora do país por ser exatamente isso. Nos últimos meses participou do programa Fla-Flu da TV Folha e do Pânico no Rádio da Jovem Pan, ambos com uma feminista também participando dos programas.

São 22 vídeos, 12.076 inscritos em seu canal, um vídeo com 151 mil visualizações e os outros variando de 2 mil a 50 mil, sendo que são mais comuns os que se aproximam do menor número. Esse é o alcance dessa Youtuber que faz sucesso com a direita conservadora brasileira. Suas ideias, defendidas à exaustão em seus vídeos e debates, podem ser contadas nos dedos das mãos: é contra o aborto, a favor da família tradicional, contra o estatuto do desarmamento, acha que as feministas são pagas por empresas farmacêuticas para legalizar o aborto e é contra as drogas ilegais.

“Vi muita coisa que não achei certo”. Essa é a resposta de Sara quando lhe perguntam o motivo da saída do feminismo e de seu repentino egresso em uma religião cristã protestante. Clama ser pacifista e que o tempo que passou meditando no interior do estado de São Paulo a ajudou nisso, porém é amiga e segue os preceitos ideológicos de um dos personagens mais belicosos e raivosos da política brasileira, mostrando uma incongruência entre o que ela diz e a realidade. Diz que a religião foi muito importante para sua mudança de perfil e se diz agora uma boa cristã e como tal repudia o aborto, chamando-o de infanticídio. E aqui está uma das primeiras críticas a ela: só por o aborto ser legalizado, não significa que ele é obrigatório. Uma coisa que muitas pessoas contra o aborto não entendem, e nisso se parecem com os militantes contra o casamento gay, que legalizar o aborto significa abrir uma opção às mulheres e não obriga-las a abortar. Ela também cobra melhorias no acompanhamento pré-natal, o que é uma causa justa, apesar dela só defender as casas pré-natal cristãs, mas se nega a aceitar o aborto.

“Nós, mulheres brasileiras...”. Essa é uma frase que ela usa de maneira que beira a abusividade. Ela se considera uma mulher brasileira conservadora, e, sem base nenhuma, chama a maioria das mulheres brasileiras de conservadoras também. Nessa frase “Nós, mulheres brasileiras...”, Sara Winter exclui as feministas desse grupo, deixando entender que elas são antinacionalistas e expatriadas.

Como qualquer “pessoa de bem”, ela defende os amigos, principalmente Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Talvez amizade não seja a palavra certa para definir a relação dos dois, pois ela tem mais uma admiração cega por ele. Talvez a palavra certa seria subordinação. O que eu vou escrever agora é somente uma conjectura: Bolsonaro nunca teve uma imagem muito forte junto às mulheres, ao contrário do que Sara Winter afirma. Por isso, ele teria cooptado Sara e sua imagem para melhorar sua imagem junto ao público feminino. Pode ser apenas uma conjectura, mas é difícil ver em outras pessoas públicas a mesma ferrenha admiração e defesa de Jair Bolsonaro, réu no STF por apologia ao estupro. Voltando ao mundo real e pegando o gancho desse assunto, Sara lembra, sempre que pode, que Maria do Rosário, deputada pelo PT do Rio Grande do Sul, “defendeu” Champinha, ainda menor de idade, quando este estuprou e matou uma adolescente durante cinco dias. O caso foi o seguinte: Bolsonaro defendia a diminuição da maioridade penal em uma entrevista à RedeTV quando Maria do Rosário interferiu com sua opinião contra. Nesse momento, Bolsonaro supostamente disse que “quem não concorda que leve ele (Champinha) pra dirigir seu carro com sua filha do lado”. Logo depois houve um bate-boca entre os dois no qual Bolsonaro afirma “Eu sou estuprador! (...) Eu não te estupro porque você não merece!”. Essa é a defesa de Maria do Rosário à Champinha. Ainda sobre isso, Sara afirma que “movimentos de esquerda usam da dor e sofrimento dos outros para se auto promover”, mas o próprio Bolsonaro usa do caso para promover a menor maioridade penal.

Uma tática usada por ela e pela direita conservadora é pedir que as pessoas não se manifestem pelo que elas estão se manifestando, e se manifeste pelos motivos que ela quer. Ela pede que as feministas se manifestem a favor dos projetos de lei de Jair Bolsonaro contra os crimes de estupro, mas afirma que elas não vão fazer isso para não dar popularidade a ele, ou seja, acha que Bolsonaro é perseguido politicamente.

Acabar com o estatuto do desarmamento também é um dos objetivos de Sara Winter e de Jair Bolsonaro. Esse parágrafo também é uma crítica ao ILISP (Instituto Liberal de São Paulo), que apoia a mesma medida. De acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa econômica aplicada), 70,1% das vítimas de estupro são menores de idade. Sendo dito isso, por que apoiar o fim do desarmamento como medida para combater o estupro? Má-fé, apoio às fábricas de armas e munições ou, como acho que é o caso de Sara Winter, falta de informação. Posso afirmar isso com base em um fato importante: assim como Jair Bolsonaro e boa parte da direita conservadora no Brasil, ela é histérica. Antes que me chamem de machista, quero dizer o seguinte: ela, não como mulher, mas como pessoa é histérica e deve ter aprendido isso com o próprio Jair Bolsonaro, que não suporta ser peitado ou desmentido. Com Sara acontece o mesmo, quando alguém se opõe a ela e prova-a errada, a postura pacífica e calma dá espaço a uma figura belicosa e apelativa, que não aceita perder.

Concluo esse texto da seguinte maneira: Sara Winter é uma pessoa que ganhou popularidade por ser uma ex-feminista que se aliou à direita conservadora e agir como ela. Seus argumentos defendendo suas ideias são pífios e baseados mais na emoção do que na razão. Ela presta um desserviço à mulher por diminuir a luta das mulheres e do feminismo pela história e sempre se apoia na religião para mudar o Estado. Para fechar, deixo uma transcrição de uma fala de um de seus vídeos.

“Os homens se f...... toda a história, a vida toda, para dar pras mulheres uma vida mais segura e mais confortável e ceis ainda reclama cara? Vai [inteligível] um terreno então. Vai lavar uma louça. Eu, eu nunca imaginei que eu ia dizer isso na minha vida, mas eu consigo agora enxergar como eu estava errada, como eu estava cega. As feministas acham realmente que vão mudar a vida de alguém, que vão dar um amparo pro sofrimento de uma pessoa que sofre um estupro, um abuso sexual de qualquer tipo mudando a foto do perfil do Facebook? Cara, isso é ridículo”. WINTER, Sara.




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