Cultura

CRÔNICA

São só garotos

Crônica de Rubinho Giaquinto, originalmente publicada na Revista Língua de Trapo.

terça-feira 30 de agosto| Edição do dia

Estudo em uma escola de música localizada em um bairro dito ‘nobre’. Dessas denominações mais imperiais que rondam nosso mundo contemporâneo. Esse bairro abriga lojas de marcas de roupas e bolsas famosas, ao gosto dos moradores locais. Há também um shopping, que todos dizem frequentado pela fina flor da burguesia. Acho que encontramos mais emergentes neste espaço que qualquer outra coisa. Uma gente que só enxerga o próprio umbigo. Daquelas que acreditam ser o suprassumo da sociedade. Esse shopping, como não poderia deixar de ser, reproduz a sociedade desigual, com mão de obra moradora da periferia e frequentadores-ostentação. Existe também um colégio católico, com mensalidades astronômicas, onde estudam os filhos da elite.

Muitas vezes, passo por dentro do shopping para cortar caminho em direção à escola de música. Sempre passo com o olhar sanguinário do vigia, quase sempre, um negro como eu.

Dia desses, estava eu na praça de alimentação quando ouvi uma discussão. Estranhei, pois eram três meninos com uniformes do colégio católico, um segurança, uma moça da limpeza e outra mulher.

Um dos meninos gritava, ou melhor, berrava que queria outro lanche de qualquer forma. Dizia que a moça da limpeza tinha jogado seu lanche no lixo. Fiquei de longe tentando entender o que se passava. Foi quando veio uma atendente de um fast-food e enfrentou os meninos. Estava tudo muito confuso e não conseguia entender de fato o que se passava. Depois de algum tempo comecei a entender o caso. A atendente explicou-me como funciona o golpe dos meninos.

Eles compravam um lanche em uma loja de fast-food. Até aí, nada de mais! Sentavam à mesa e, quando estavam pra terminar o lanche, levantavam e ficavam de longe observando o pessoal da limpeza se aproximar pra limpar a mesa. Nessas praças de alimentação, o pessoal da limpeza é orientado para limpar constantemente. Levantou alguém, lá vem o pessoal da limpeza com o pano na mesa. E os meninos, como frequentadores do shopping, conhecem bem este funcionamento. Eles esperavam o pessoal da limpeza retirar os restos do lanche, deixados de propósito, para acusá-los de jogarem o lanche no lixo. Exatamente isso! Estes meninos ricos dando golpe em gente trabalhadora. São inteligentes e conhecem as regras do jogo e um pouco das leis. O mais velhos deles exigia que a moça da limpeza pagasse outro lanche pra eles. Mas, uma atendente interveio e disse que não era a primeira vez que eles aplicavam este golpe no pessoal da limpeza. Eles ameaçaram chamar os pais, caso outro lanche não fosse servido, e um deles disse que seu pai era juiz. Fiquei impressionado com a cena. Um menino de no máximo treze anos, usando a lei para dar um golpe numa trabalhadora. Reproduzindo o que sempre foi feito neste 500 anos de invasão.

Com a confusão estabelecida, foi chegando mais gente. E quem se aproximava ficava logo sabendo da história.

Neste dia, eles não tiveram êxito. Saíram revoltados e impunes e ainda disseram que iriam tomar ‘providências’ contra esta espelunca de shopping. Um deles repetia que seu pai era juiz e que isso não iria ficar assim.

Aí fiquei imaginando um desses meninos ocupando postos estratégicos na sociedade, pois eles, muito em breve, estarão preparados pros melhores vestibulares e concursos. Saí pensativo em direção à escola.

Porém, o que mais me impressionou foi o silêncio que se abateu sobre a praça de alimentação, sempre tão ruidosa. Além da atendente do fast-food, não vi mais ninguém defender a trabalhadora da limpeza. Aliás, foi com coragem que ela escancarou o golpe que os meninos aplicavam havia tempos.

Entendi o que é a luta de classes na prática. Nesse dia entendi o que é a Casa Grande. Nesse dia, entendi que há muito por fazer ainda. Nesse dia, entendi que os de cima jogam duro mesmo. Que os de baixo estão pagando a conta há vários séculos. De um lado um silêncio absurdo, e do outro a solidariedade da atendente lutando contra as injustiças do cotidiano. Por outro lado, impressionou-me, mesmo, a conversa de três mulheres, destas hedonistas típicas que andam de verde e amarelo, cartazes contra a corrupção e falam que aeroportos viraram favelas, que indignadas diziam: -Que absurdo o que fizeram com estes meninos lindos. São só garotos!




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