FAVELAS SÃO PAULO / PANDEMIA / POVO NEGRO /

São Paulo: povo pobre está atravessando fome endêmica com a pandemia

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 15 de maio| Edição do dia

Fome ameaça a maior favela de São Paulo é notícia deontem na UOL.

Em depoimentos, moradores da favela de Heliópolis, famílias inteiras que moram em espaço mínimo, de um ou dois cômodos, reclamam da falta de comida ao longo do dia.

São diaristas e trabalhadores informais, desempregados e precarizados e que, quando recebem os 600 reais do governo gastam quase todo no aluguel. Saneamento básico inexistente, córregos sujos e, por fim, a lenta agonia diária da busca de qualquer alimento.

“Em Heliópolis, onde milhares dependem do trabalho informal, falta de alimentos é uma agonia diária para família”. Conseguir algum alimento depende de doação de ONGs no bairro. Um frango, por exemplo. Em vários depoimentos, mulheres, cabeças de família, relatam a vigência da fome.

“Márcia, 30 anos, conseguiu um frango. Com a filha de um ano no colo e na companhia do filho de cinco anos, ela conta que o marido perdeu o emprego como pedreiro. A minha avó chegou a pegar esse coronavírus. Ela está em casa agora, não pode ver ninguém", afirma.

“Filas se formavam rapidamente quando a distribuição de alimentos – por uma ONG - era notada pelos moradores”. A ausência do Estado é total. A fome do nosso povo, absolutamente, não é um problema do governo, de Dória a Bolsonaro.

Filas e aglomerações se formam quando chega o representante da ONG [Cufa] com alimentos, sempre aquém da necessidade. “Foi um susto quando chegou", diz Marcivan Barreto, que coordena as atividades da Cufa em Heliópolis.

"São 220 mil pessoas que moram aqui. A maioria tem um trabalho informal e está sem renda agora", explica o morador da comunidade, que todos conhecem pelo nome. "A gente quer ajudar todo mundo. Já tem gente sofrendo com a fome", relata Barreto.

O ambiente insalubre que marca aquela área de centenas de milhares de pessoas com baixíssima renda é propício para todas as doenças transmissíveis.

“São ambientes muito escuros, pequenos e com bastante gente", é o relato sobre as moradias da comunidade da agente de saúde comunitária que prefere não ter o nome publicado.

"A gente tem encontrado muitas pessoas com sintomas da covid-19, desempregadas ou sem salário", revela o cenário que se depara durante as visitas aos moradores. No dia de hoje, em SP, são 4,3 mil mortos [subnotificados, logicamente] e boa parte deles nas regiões mais pobres.

O ambiente é de “desemprego e fome Assim que soube da distribuição de alimentos feita pela Cufa, Alaíde caminhou dois quilômetros, de sua casa até a sede da ONG, com a filha mais nova no colo. Ela já havia passado por outro ponto de doação de cesta básica nas redondezas, sem sucesso. "Está faltando tudo em casa. Sem trabalho, como a gente vai comprar?", diz Alaíde à DW Brasil”. Ela trabalhava como doméstica e denuncia “Agora estou parada, nenhum condomínio deixa a gente entrar, ainda mais quando sabem que a gente vive em Heliópolis", adiciona.

Centenas de milhares de membros da família trabalhadora vivem, somente em São Paulo, esse martírio de fome e pandemia. Brasilândia, uma favela paulista maior que Heliópolis, maior que Paraisópolis, assim como Parque São Rafael, estão na mesma situação que Heliópolis. Além de Interlagos e várias outras.

Em todas falta assistência médica, saneamento básico, habitação e escolas de qualidade, como também renda e salubridade. Em todas, famílias inteiras, com crianças, estão amontoadas em barracos escuros e sem ar.

Confirma-se assim aquela a pesquisa “Coronavírus - Mães das Favelas” realizada pelo Data favela e pelo Instituto Locomotiva, que mostrava que as favelas brasileiras abrigam 5,2 milhões de mães e com média de 2,7 filhos cada uma, e que indicava que 86% dessas moradoras de favelas morreriam de fome em menos de um mês sem renda para sobreviverem em meio a pandemia do novo coronavírus

Essa calamidade está agora presente. Com privações sociais de todo tipo, justamente a matéria prima da qual são construídas as doenças.

Não se pode pretender que haja saúde com famílias morando em viveiros de doenças. “Na Região Metropolitana do Rio, por exemplo, segundo o Censo 2010, um único quarto com mais de 3 pessoas é a realidade de 300 mil casas” e, obviamente, porta aberta para todo tipo de patógeno.

Além de perpetuar tais privações, de não realizar testes massivos, o governo, nessa emergência, não oferece saída para os infectados e casos menos complexos a não ser ficar nas comunidades, operando como eixo de transmissão do vírus.

O mais elementar, que seria confiscar os grandes hotéis e spas e acolher os infectados pobres, com alimentação de qualidade, banho de sol, suplementação vitamínica até zerarem a carga viral, nada disso é feito, nem garantia para os trabalhadores da saúde, contratação em massa para reduzir a carga de trabalho, reconversão industrial para não faltar equipamentos de segurança [EPIs], nada é feito.

Mais uma vez, entre as vidas e os lucros, o capitalismo escolhe acumular capital.

[Crédito de imagens: opovo.com.br e imagem NULL , da jovempan]




Tópicos relacionados

favelas   /    Coronavírus   /    negras e negros

Comentários

Comentar