SAMIR AMIN [3/9/1931-12/8/2018] / MARXISMO E GLOBALIZAÇÃO /

Samir Amin: morre um crítico incansável do imperialismo

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 24 de agosto| Edição do dia

Para a nossa geração, setentista, Samir Amin era uma das grandes referências quando se tratava do tema geopolítico do imperialismo, os processos das revoluções coloniais [do então chamado “Terceiro Mundo”] e da emancipação dos povos oprimidos.

Sua percepção das formas sucessivas de barbárie adotadas pelo imperialismo seguem de pé: a crescente precarização do trabalho, a liquidação de qualquer arremedo de burguesia nacional, a escalada na concentração de renda e inúmeros outros fenômenos que são a cara do imperialismo, foram mais de uma vez analisados e denunciados por Samir Amin. Ele foi um marxista nascido no Egito e cuja evolução política e formação universitária se desenvolveram na Europa, particularmente na França, onde, depois de integrar o PC, migrou para o maoísmo, naquele momento em alta em Paris, onde ele vivia.

Samir Amin morreu há pouco mais de uma semana, em 12/8/18, aos 87 anos, de câncer, em um hospital no Senegal.

Foi ícone do chamado movimento “alter mundista”. Ex-professor universitário em várias capitais, em 2001, esteve lado a lado com Lula na promoção do primeiro Fórum Social Mundial em P. Alegre [a última edição deste Fórum ocorreu em março de 2018 em Salvador, com forte presença do PT]. Amin estudou em Paris durante dez anos [até 1957] e graduou-se em Estatística e em Economia.

Palestrante internacional, notório escritor de centenas de artigos, nos legou inúmeras obras que marcaram fortemente a esquerda dos anos 1970. Seus estudos sobre a mundialização do capital são conhecidos. Assim como sua definição do imperialismo como um sistema necessariamente agravador da miséria, da desigualdade social e polarizante por excelência.

Em entrevista recente, no Página12 da Argentina, do dia 7 de junho passado, mostrou como via o futuro no capitalismo:

“É preciso saber que a sobrevivência do capitalismo é impossível sem crescimento e não vejo possibilidade de outra fase do capitalismo com um crescimento sustentado. O que não significa que o regime vá morrer lenta e silenciosamente de morte natural. Ao contrário, o capitalismo senil se torna mais agressivo com contradições internas mais profundas. Para os povos, a crise sistêmica do capitalismo implica a crescente desigualdade na distribuição dos lucros e das riquezas dentro das sociedades, que é acompanhada de um profundo estancamento, por um lado e o aprofundamento da polarização social por outro”.

Ele não imaginava nenhum futuro harmonioso para o capitalismo, pelo contrário, enxergava “uma crise estrutural profunda, um estancamento relativo, uma aceleração das desigualdades sociais e uma aceleração das desigualdades em escala internacional, ou seja, um aprofundamento das polarizações” [p. 71 do seu El imperialismo colectivo, Buenos Aires, 2003, Instituto de Estudios y Formación de la CTA].

Contra essa realidade dominada amplamente por forças reacionárias, Samir Amin defendia incansavelmente a revolução socialista, e por ela e contra o imperialismo lutou até o fim.

Dotado de uma escrita simples – ao contrário de boa parte dos intelectuais do tema – e de bons insights, continua um autor que pode ser lido com grande proveito.

No entanto, Samir Amin deve ser lido, necessariamente, com uma perspectiva crítica.

Profundo conhecedor do país China - se orgulhava de ter viajado por toda a China – sua militância maoísta de juventude deixou marcas na sua concepção de mundo. Por muito tempo via na China uma alternativa à stalinização da URSS.

Ao mesmo tempo desenvolvia formulações teóricas particulares em relação a Lenin, ao imperialismo atual [que chamava de “imperialismo coletivo”, título de um dos seus livros] e também à teoria do valor de Karl Marx.

Naquilo que ele via como nova etapa do imperialismo, ele percebia a extraordinária centralização do capital, hoje com oligopólios controlando praticamente tudo; também criticava a equalização da política pela economia [política dos oligopólios praticadas tanto por socialistas quanto por liberais], e entendia, ao pensar o imperialismo da nova etapa, que agora o imperialismo estava concentrado em uma tríade, Estados Unidos-Europa-Japão.

Por conta de sua dificuldade de entender Lenin até o final, Amin migrou para uma posição mais que ambivalente em relação ao imperialismo, ao concebê-lo como “imperialismo coletivo”, uma construção que articulava Estados Unidos-Europa-Japão de forma abusiva, minimizando, em algum grau, as contradições entre os distintos imperialismos.

Para Amin, “o imperialismo é uma característica permanente do capitalismo e não uma fase particular do capitalismo. Quando falamos de capitalismo também falamos de imperialismo, mas imperialismos no plural” [p. 23 op cit].

E assim concebia seu “novo” imperialismo: “Minha hipótese é a de que os diferentes segmentos dominantes [do capital] possuem agora um sentido muito agudo da comunidade de interesses fundamentais que os une. E é por isso que agora os países capitalistas aceitam a hegemonia dos Estados Unidos e o funcionamento desse imperialismo coletivo”. [p. 26, op cit].

Ele via, portanto, “o imperialismo conjugado no singular, ´o´ imperialismo coletivo da tríade Estados Unidos-Europa-Japão” [p. 72 op cit].

E finalmente, não há outra palavra, desembarcava de Lenin:

“Minha hipótese é de que a nível do capital, dos segmentos do capital dominante, o caráter comum dos interesses na gestão do sistema é mais importante que os conflitos” [p. 89 op cit]. Ele via a tensão Europa-Estados Unidos como uma tentativa da França e Alemanha de impor aos Estados Unidos “que compartilhe as responsabilidades da gestão do imperialismo coletivo” [p. 93 op cit].

Sua perspectiva estratégica [ou falta de] o levava a regularmente embelezar movimentos de conciliação de classe como Lula no Brasil, mas também Hugo Chávez, homenageado por ele quando da sua morte, quando declarou, diante de Maduro, que “morto o presidente H Chávez, a revolução bolivariana continua”. Amin jamais se liberou dessa visão de um progresso ao socialismo pela via de alianças populistas, com burguesias locais [que ele curiosamente chamava de “povo”, “nação”, um conceito indeterminado].

E há muito há havia abandonado a centralidade proletária para a revolução socialista.

Em um dos seus recentes livros ele argumentava, a respeito do papel do proletariado na revolução, que “o que eu proponho é que o sujeito da história é o produto da própria história e não pode ser definido a priori. Um bloco pode transformar-se em sujeito histórico de transformações. Ou por exemplo, nos casos da liberação nacional, um povo ou uma nação – sem que isto exclua as classes sociais – pode transformar-se também em um sujeito histórico”.

Depois de seguir argumentando que velhos sujeitos históricos perderam seu papel e eficácia, ele arremata: “por isso eu perguntaria não quem será o sujeito histórico da transformação mas sim que tipo de transformação necessitamos, que sujeito histórico pode ser o autor desta transformação, e como podemos construir esse sujeito histórico”. [p. 49].

Defendia – como também o fez François Chesnais – a taxação do capital financeiro [taxa Tobin] pelo próprio Estado burguês e o ataque à dívida pública através de sua judicialização, de uma legislação internacional “correta”.

Sua escassa compreensão sobre a natureza teórica da burocratização da Revolução Russa o levava a fazer certas afirmações sem o menor sentido, como por exemplo, de que a queda da URSS foi uma demonstração de que “o êxito do sovietismo encontrou seus próprios limites” [p. 95 op cit].

Sobre o maoísmo, ou a “via chinesa” para o socialismo, jamais abandonou suas ilusões, como revela um dos seus pensamentos: “Mao argumentou: ´O que é que estamos construindo? Estamos construindo o capitalismo e são vocês, os líderes do Partido Comunista, que são os capitalistas neste país´. A tentativa pra superar esse horizonte foi feita por ele através do chamamento à juventude, tentativa que não foi bem sucedida, do meu ponto de vista, e que culminou na Revolução Cultural” [p. 108, op cit]. Mais adiante, ainda segundo Amin, virá o contragolpe, com a corrente burguesa dentro do PC chinês. Essa era um pouco da sua visão da revolução chinesa, carente de uma crítica até o final da burocracia que Mao levantou desde 1949 com sua política de “bloco de classes”...

Amin também foi crítico da lei do valor em Marx. Alegando que a aceitava, mas destacava mudanças nesta teoria nos marcos do imperialismo globalizado. [Este debate não tem como ser desenvolvido nos marcos desta nota].

É certo que Amin, em anos recentes, criticaria o Fórum Social como insuficiente porque não conseguiu ser mais do que um local de encontro, sem buscar um poder real de mudança [fez essa declaração no encerramento da Semana Galega de Filosofia, em 2011].

Só que seguia alimentando sua hipótese da revolução socialista sem o sujeito proletário.

Tanto assim que nessa mesma palestra propunha a construção da Quinta Internacional, já em perspectiva capituladora em relação ao proletariado: “É necessário construir a Quinta Internacional, na qual já não falaremos de proletários mas de trabalhadores que é um conceito mais amplo, e onde falamos de povos, que é também um conceito amplo. As alianças transformadoras serão distintas em cada país”.

Feitas as ressalvas, de que a obra de S. Amin deve ser abordada em chave crítica, sem sombra de dúvida deve ser apropriada pelas novas gerações com proveito.
Dele sempre se poderá dizer que lutou até o fim contra a opressão dos povos pelo imperialismo.

Pode lhe interessar uma nota sobre a morte de S. Amin no La Izquierda Diário.

Você pode também assistir aqui trecho de palestra de Amin, 2012, intitulada: Características del capitalismo contemporâneo:




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