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Samba agoniza mas não morre: Os enredos das escolas de samba de 2019

Em 2018 a agremiação Paraíso do Tuiuti entrou para história colocando na avenida o grito de revolta dos brasileiros contra as reformas de Temer e em 2019 não será diferente escolas de SP e RJ vão marcar a avenida com enredos politizados.

Thiagão Barros

morador de Mauá, no ABC paulista

segunda-feira 4 de fevereiro| Edição do dia

Já se passaram 40 anos desde que Nelson Sargento escreveu a canção Agoniza mas não morre, música crítica ao processo de mercantilização do samba e se faz atual até os dias dias de hoje.É uma luta incessante,o samba já penou muito,a começar pelos tempos em que fazer samba era caso de polícia as censuras no período da ditadura, o samba resiste , mas não é sobre isso que vamos falar, traremos de discorrer que o samba como diz Nelson Sargento é um negro forte e destemido e que as correntes que o seguram começam a trincar e refletir vários aspectos sociais, culturais e políticos de um país em crise.

Em um país com o maior número de negros fora do continente africano, o carnaval sempre expressou ângulos da realidade dos negros, principalmente a partir dos anos 30 quando surgem as escolas de sambas, enredos como Navio Negreiro do Salgueiro de 1957,Leilão De Escravos da Unidos da Tijuca de 1961 e Sublime Pergaminho da Unidos de Lucas de 1968 expressavam a necessidade do negro de contar e conhecer sua história.Época de ouro do samba, quando a influência do mercado era pouca e os artistas gozavam de amplo espaço para criar e produzir o que mais os tocavam, o que não perdurou por muito tempo, nos anos 70 Candeia funda o Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo, a agremiação tinha com objetivo lutar contra a mercantilização do carnaval enfatizando identidade cultural afro-brasileira.O carnaval é transformado em um grande negócio e o seu conteúdo passa a expressar cada vez menos aflições,felicidades e questionamentos dos trabalhadores, mas o samba assim como tudo é influenciado pelo motor da história, a luta de classes, o como tal sempre que as contradições sociais,econômicas e políticas se aprofundam o negro forte e destemido se levanta.

Foi o que aconteceu em 2018, o governo golpista de Temer aprovou a reforma trabalhista em novembro e logo em fevereiro a Unidos do Tuiuti rompeu a avenida em um desfile histórico, uma apresentação perfeita a escola fez todos se arrepiarem e emocionou o público que viu na sapucaí a história de dor e luta do povo negro, a escravidão do negro de ontem e a escravidão assalariada de hoje foi estampada em rede nacional.Os comentaristas da rede globo engasgavam ao comentar a comissão de frente,Temer teve tremeliques com a sua representação na avenida de Presidente Vampiro e a censurou, a burguesia assistia a contragosto o desfile, foi uma crítica sensível e profunda que mostrou vários aspectos da questão negra no país.

Em 2019, o carnaval promete ser mais politizado ainda, diversas escolas do RJ e SP vão abordar temas que exaltam a história dos negros e os problemas nacionais. Em São Paulo a Vai - Vai mostra a lutas do povo negro em um enredo intitulado "Vai-Vai, o quilombo do futuro", Águias de Ouro questiona o que é a liberdade do negro “Ontem preso na senzala, maldade e dor
O negro suplicava: - ó meu senhor!/Hoje amargo preconceito,/Liberdade é uma quimera/Viver livre quem me dera!” e a Mancha verde vai contar as lutas de Aqualtune, vale destacar também a Camisa 12 do grupo de acesso de sp que vem com um enredo em homenagem aos professores que diz “E o salário, oh! Tá doido /A crueldade é feroz /Podem oprimir e até nos espancar/Mais ninguém vai calar a nossa voz”.Comissões de frentes e as alas também vão ter fortes críticas, Acadêmicos do Tucuruvi por exemplo conta com uma ala que fala sobre os direitos trabalhistas e a greve geral,mas o destaque desse ano é sem dúvidas da Estação Primeira de Mangueira que cita Marielle Franco no samba enredo “História para ninar gente grande”.

Todos estão de olho no desfile da Mangueira que toca em uma ferida aberta no momento que o governo cruza pela crise da operação intocáveis e a relação do clã Bolsonaro com as milícias.Quem matou Marielle e Anderson? essa pergunta invariavelmente vai surgir na cabeça de cada um que assistir o desfile, a energia contida nos desfiles de 2019 com certeza vai sensibilizar milhões de pessoas e colidir contra a agenda de reformas prevista e todo racismo destilado pelo Presidente Jair Bolsonaro. Mas esse momento não é eterno, é apenas um pequena fissura que rapidamente se fecha,por isso é preciso aproveitar o instante de alegria e politização para renovar as energias e preparar as batalhas contra a reforma da previdência e demais ajustes, as centrais sindicais tem que parar de prometer “pressionar” o governo e romper de vez com a “paz” com Bolsonaro, não é podemos permitir que a crise seja despejada nas costas dos trabalhadores sobretudo os negros. Como diz Jovelina Pérola negra no samba Elos da Raça,“Agora é formar uma corrente/Com elos muitos resistentes/Daqueles que levam bom tempo para arrebentar”.




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