Política

PERFIL DE UM INTEGRALISTA

Saiba quem é o fascista que foi expulso de evento por estudantes da USP

Fernando Pardal

@fepardal

quarta-feira 29 de novembro| Edição do dia

Victor Emanuel Vilela Barbuy é presidente da Frente Integralista Brasileira e foi um dos membros desse movimento que foi expulso por mais de cem estudantes da USP de um evento acadêmico onde iria palestrar.

Se considerássemos Victor como meramente um advogado que julga que escrever textos empolados e pedantes é um ótimo passatempo, - como nesse risível trecho de sua apresentação "Chamo-me Victor Emanuel Vilela Barbuy e nasci em São Paulo, capital da província de mesmo nome (...) Sou, pois, um filho da Cidade e da Terra Bandeirante e do Império do Brasil, ou, se preferirdes, da América Lusíada." - ele poderia ser apenas um ótimo motivo de risadas. Mas a ideologia integralista, da qual é representante, nada tem de engraçada.

O integralismo teve como pai Plínio Salgado, e era uma versão brasileira do fascismo de Mussolini, tal qual o nazismo havia sido a versão alemã dessa mesma ideologia. Se propondo a criar uma "estetização da política" com rituais e adereços, como seus parentes europeus, o integralismo trazia como símbolo o sigma grego, e a sua saudação "anauê". Criaram também as suas milícias de camisas verdes. Era um movimento nacionalista de ultra-direita, que queria esmagar o livre pensamento, os comunistas, o movimento operário e criar um estado baseado na força e na discplina. Um capitalismo gerido sob um governo ditatorial e férreo.


outubro de 1935, aniversário de 3 anos do movimento integralista em Blumenau

A tragédia de uma ideologia dessas, quando triunfante, nós tivemos a oportunidade de assistir em alguns países da Europa. Por isso, por mais tentador que seja apenas dar risada do ridículo que representa o integralismo, é fundamental sabermos que ele não deve ser tolerado, sob pena de que, quem sabe, possa fincar raízes em algum lugar - por improvável que isso pareça hoje, com ideologias e semi-ideologias de direita como o "bolsonarismo" muito mais em voga.

O "combate sem tréguas ao comunismo" é um dos pontos com os quais Victor define sua doutrina. Outras definições dele sobre o integralismo são de que é um movimento "tradicionalista, patriótico e nacionalista inspirado, antes de tudo, no Evangelho, na Doutrina Social da Igreja e nos ensinamentos de grandes pensadores pátrios".


cartaz do integralismo nos anos 1930

O presidente da FIB, em seus chatíssimos textos que procuram obter a façanha de superar os mais entediantes escritores da "última flor do lácio", diz de forma absolutamente confusa ["que igualmente me oponho ao capitalismo, que entendo não como o regime econômico baseado na propriedade privada e na livre iniciativa, que, aliás, defendo, mas sim como o sistema econômico em que o sujeito da Economia é o Capital, cujo acréscimo ilimitado, pela aplicação de pretensas leis econômicas mecânicas, é considerado o objetivo final e único de toda a produção, e que é, em última análise, um destruidor não apenas da propriedade, (...) como também da livre iniciativa e mesmo dos princípios morais e das tradições cristãs e nacionais."

Bom, ainda que o confuso galinha verde não saiba, o que ele defende é, sim, o capitalismo. Porém um "capitalismo cristão", submetido não apenas a seus próprios dogmas religiosos, como a um Estado autoritário que defenda com unhas e dentes a propriedade dos capitalistas, a sua exploração e o seu lucro.

O presidente da FIB, em sua trajetória acadêmica, se debruçou sobre os intelectuais de seu movimento, como o fascista Miguel Reale, que foi fundador, ao lado de Plínio Salgado, da Ação Integralista Brasileira, e foi um ideólogo do movimento. Como reitor da USP nos anos de chumbo da ditadura, de 1969 a 1973, Reale também participou diretamente da redação da emenda constitucional que consolidou o regime militar no Brasil, consolidando os Atos Institucionais da ditadura. Victor Barbuy estudou "O Estado Ético no pensamento de Miguel Reale". Também se dedicou ao pensamento jurídico de José de Alencar, escritor brasileiro que foi autor do livro assinado com um pseudônimo "Cartas a favor da escravidão".

Digamos que Victor e seu clã de direitistas delirantes - cujo potencial para ser um movimento de massas foi felizmente extirpado com a luta da Frente Única Anti-Fascista nos anos 30 - segue hoje como um cadáver político ambulante, defendendo o retorno de um regime ditatorial baseado em seus princípios lunáticos. A ditadura militar, os ideólogos da escravidão, os fascistas dos anos 1930 são seus modelos.

Hitler, que antes de se tornar ditadora havia sido uma piada também, disse certa vez que a única forma pela qual o nazismo poderia ter sido detido seria se fosse implacavelmente esmagado ainda em seus primórdios. Bom, por mais improvável que seja que a volta triunfal dos esquecidos e desmoralizados galinhas verdes (não à toa eles despertam a solidariedade de seus amigos monarquistas que como ele são uma sucata ambulante da história), isso não significa que devamos deixar que eles falem impunemente sobre como desejam esmagar toda a liberdade que conquistamos e que ainda mantermos a duras penas.




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