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SOBRE O ÁLBUM “LOKI” DE ARNALDO BAPTISTA. NOTAS

segunda-feira 26 de setembro| Edição do dia

“…que a vida só consome
o que a alimenta.”
Ferreira Gullar.

O álbum “Loki” (1974) é uma obra marcante e estranha na vida e obra de Arnaldo Baptista. Se não tivesse havido os “Mutantes” e, em particular Rita Lee, dificilmente teríamos o “Loki” na feitura que temos hoje. Parto de um pressuposto básico: falar do disco “Loki” é falar de um sentimento, de um testamento vivido profundamente e não apenas de 10 músicas produzidas em 1974. Muito mais que um mero álbum. É uma obra da mais “pura dialética”: é sintoma de uma época e ao mesmo tempo a força e a fragilidade interior de um homem solitário naquela quadra dos anos 70.

Começo por esta dimensão “política”. Desde a formação dos “Mutantes” nos anos 60, tínhamos uma rota anárquica onde a brincadeira tomava conta das apresentações do grupo e nas “performances” a coisa chegava as raias do absurdo. Os “Mutantes” eram, por natureza, performáticos onde letra e forma nas composições se misturavam e no encontro com os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil a explosão se tornou inevitável dando cara original a um “rock`n roll brasileiro”.

O festival de música da Record de 1967 é um marco, onde a música de Gilberto Gil “Domingo no parque” revela ao Brasil os Mutantes na sua formação original e na sua irreverência de costume. Estávamos numa ditadura e o comportamento dos mutantes e suas composições eram uma afronta ao caretismo dos militares e de uma certa classe média conservadora e apoiadora da ditadura que avançava desde 1964. Assim, a obra de Arnaldo Baptista com os mutantes convocava a uma vida livre, autêntica e sem aquelas paranoias da “sala de jantar… acostumada a nascer e morrer…” como bem cantavam à época.
Havia na vida e nas composições dos Mutantes uma ideia de juventude cosmopolita, rebelde e antenada imediatamente com o que de mais rebelde acontecia no mundo: de Beatles a Bob Dylan; de Janis Joplin a Pink Floyd. E tudo isto batia de frente com um país minado e mandado por um grupo de militares que mudavam bem para pior a cultura do Brasil. As origens musicais de Arnaldo Baptista estão dentro deste contexto: de grandes mudanças na MPB e ao mesmo tempo de radicalização política contra uma ditadura e nas mudanças de costumes arraigados há séculos na vida cotidiana brasileira. Arnaldo se embebeu de tudo isto azeitado por uso de uma série de drogas (o LSD sendo a grande descoberta daquele momento e de grande impacto na vida do mutante mestre).

A saída de Rita Lee dos Mutantes e a separação radical de Arnaldo, foi um grande golpe na vida dos mutantes e o começo do fim. Recomendo para melhores esclarecimentos sobre esse rompimento o filme: “Loki” (2009) de Paulo Henrique Fontenelle. Há neste filme um material de arquivo e uma série de depoimentos sobre o começo do fim dos mutantes e a saída de Rita Lee que reputo o melhor material histórico para se compreender essa difícil situação e as suas consequências na vida pessoal de Arnaldo Baptista e na forma como ele chega ao disco “Loki”.

O álbum “Loki” é mais do que o sintoma de uma época (que é, sem dúvida e este é o lado político do disco) é algo que vem de um profundo sentimento de desamparo de Arnaldo Baptista. Era um momento final do grupo Mutantes e início de uma carreira solo e sem apoio de ninguém. Ou quase ninguém: Roberto Menescal foi de grande valia na produção do trabalho e sem ele dificilmente teríamos o disco na sua forma original.

Arnaldo chegava já quase ao fundo poço pessoal e ainda marcado pelo uso de drogas fortes e sem controle e solitário (a droga mais pesada de todas na vida humana!). “Loki” nasce das entranhas de Arnaldo, nasce do seu inconsciente selvagem e sofrido, nasce da sua força criativa. Por isto, estamos diante de uma obra marcante. Para ela, serve a frase do filósofo espanhol Miguel de Unamuno sobre um de seus livros: “Leitor, quem toca este livro toca um Homem”. Diria, parafraseando o filósofo, ouvinte: quem ouve este disco, ouve Arnaldo Baptista em carne viva. Ouve um grito de lamento e um desespero inumano. É o “uivo” de Arnaldo com força dos que sofrem e não têm a medida do sofrimento.

É um disco em que está a alma do ex-Mutante e sente-se tudo isto ao escutar com cuidado e paciência, exigências de toda grande obra de arte. “Loki” é a prova cabal da capacidade criativa de Arnaldo Baptista onde ele junta algo da bossa nova, de um leve samba, narrativas pessoais, brincadeira com melodrama e um testamento vivido até aquele momento. Temos um desabafo, temos cuidadosas composições, arranjos antenados com a época e o sentimento de um homem que tá abrindo seu coração num grito inevitável. É um disco único naquele ano cinzento de 1974 onde a ditadura se enraizava na vida dos brasileiros e das brasileiras. Diria mais: é uma obra singular em toda a música brasileira. Nada se compara a esta criação musical de Arnaldo Baptista em toda a história da MPB.

Este álbum pode ser lido como o testemunho de um compositor extremamente sensível e num momento muito amargo de sua vida. “Loki” é uma premonição: Arnaldo mergulhava aos poucos numa depressão e que será a realidade de Arnaldo Baptista nos anos 80. O filme de Paulo Henrique Fontenelle nos informa desse período da depressão do Arnaldo de maneira sincera e não sensacionalista e com depoimentos das pessoas que viram e o ajudaram naquele momento.

Vem aí a banda “patrulha do espaço” e um outro mergulho no rock. Outra história. O álbum “Loki” fica pra história como algo genial e pessoal ao mesmo tempo e sem dever nada a qualquer obra de arte que temos.




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