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SARESP 2017: mais uma década perdida em SP

Reproduzimos abaixo artigo de Luiz Carlos de Freitas, professor da Faculdade de Educação da UNICAMP, originalmente publicado em seu blog "Avaliação Educacional".

segunda-feira 29 de janeiro| Edição do dia

A imprensa começa a divulgar o SARESP – a prova anual de avaliação que o Estado de São Paulo faz em língua portuguesa e matemática para todos os alunos do Ensino Fundamental (EF) e Médio (EM). Não há alarde sobre o novo fiasco, afinal o “chefe” é candidato a presidente. A Secretaria de Educação procura garimpar algum sucesso, ficando na comparação entre os resultados dos dois últimos anos, esquecendo os demais anos.

Desde a passagem do grupo de Maria Helena Castro pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, com seu “pacote” de receitas (hoje transferidos para o MEC), o Estado se arrasta na educação. A receita milagrosa: definição dos objetivos, materiais de ensino, avaliação e bônus – a curiosa “teoria do alinhamento” -, que vez por outra ouvimos agora de Brasília, não consegue dar conta da complexidade das redes.

Certamente um conjunto de fatores gerou esta situação. Não podemos fazer como os reformadores empresariais que, ao menor suspiro positivo da curva de desempenho dos estudantes, atribuem a melhora à sua política de responsabilização, sem nenhuma pesquisa séria. Se o mero balanço positivo não serve para elogiar, o negativo também não serve para criticar. No entanto, pode-se dizer que o equívoco de persistir em uma fracassada política de responsabilização baseada em testes e bônus de mérito (veja aqui o caso do fracasso americano) tomou o tempo e impediu que se usassem outras abordagens mais participativas e menos controladoras que poderiam ter gerado resultado mais positivo para a rede paulista.

Deixando de lado os sobressaltos momentâneos observados ao longo do tempo, as provas (apesar de não poderem ser consideradas sinônimo de boa educação) mostram uma “planície” no desempenho paulista. São Paulo conseguiu a proeza de ter uma queda em Língua Portuguesa mesmo no ensino fundamental dos anos iniciais, em 2017, área em que o Brasil vai bem desde 2002.

No conjunto, os resultados mostram uma rede estagnada com pequenas variações para cima e para baixo ao longo dos últimos dez anos. Assim vamos no Estado símbolo do PSDB, de década perdida em década perdida.


Em matemática, no terceiro ano do EF, a diferença entre a média de 2017 e o ano em que a rede já teve sua melhor média (2015), é uma queda de -12,4 pontos. Na quinta série, há um acréscimo de 0,2 pontos. Na sétima, de 0,9. Na nona 1,2 e no ensino médio uma queda de -2,5 pontos.

Em língua portuguesa, no terceiro ano do EF, a diferença entre a média de 2017 e o ano em que a rede já teve sua melhor média (2014), é de -13,3. Na quinta série, o melhor desempenho da rede foi em 2016 e há igualmente uma queda de -4,3, em 2017. Na sétima, o melhor desempenho está em 2016 e houve um acréscimo de 2,9 pontos em 2017. Na nona, em relação a 2015, há uma elevação de 4,7 e no ensino médio, em relação ao melhor desempenho ocorrido em 2009, há uma queda de -0,1.

Os dados da Prova Brasil (Ideb) sinalizam igualmente as dificuldades da rede paulista, em especial após 2009. Nos anos iniciais do fundamental, somente em 2015 o Ideb registra retomada de ritmo de crescimento. No entanto, o Saresp que acaba de ser divulgado mostra queda no desempenho dos alunos de 5o. ano em língua portuguesa. Os alunos do 3o. ano já haviam levado tombo antes (tanto em língua portuguesa como em matemática).

Nos anos finais, a rede continua abaixo da meta para o Estado.

Olhando para o número de crianças que no Ideb de 2015 tinham atingido o nível de aprendizado adequado em São Paulo (segundo processamento do site QEdu) temos um quadro que corrobora o fiasco da responsabilização baseada em testes, produto de mais de 20 anos de controle do PSDB no Estado.

Nos anos iniciais (5o. ano) estamos em torno de 60% de aprendizagem adequado no Ideb 2015. No 9o. ano dos anos finais o recuo é grande. Patinamos em língua portuguesa com 33%, e em matemática com míseros 15% de aprendizagem adequada. Se prosseguíssemos a análise levando em conta segregação social, veríamos um cenário mais grave ainda.

O grande serviço que o Estado de São Paulo está prestando ao país é mostrar, para quem quiser ver, que estas políticas de responsabilização baseadas em testes que se quer, agora, ampliar para todo o país via MEC, reproduzindo a política de São Paulo, não servem para melhorar a educação de forma sustentável e com qualidade social. Não aprender com a experiência dos outros é uma coisa, mas não aprender com a própria experiência, é outra: chama-se burrice.

Uma observação final: não achamos que esta engenharia numérica possa dar conta de expressar a qualidade da educação paulista, mas é a que os reformadores empresariais criaram para mostrar como suas políticas são a “salvação nacional” da educação, colocando-a em linha com o século XXI. Com suas próprias regras, com suas próprias medidas, a educação paulista vai mal, muito mal…

Publicado originalmente aqui.




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