Cultura

LITERATURA

Rumos históricos da literatura

Afonso Machado

Campinas

terça-feira 25 de abril| Edição do dia

Para onde a literatura contemporânea vai? Será que ela deveria ir para algum lugar? Depois que a modernidade estética dos séculos XIX e XX dissecou a palavra escrita, virou e revirou a pele do verbo, remexendo a carne semântica e assim alargando a técnica, subvertendo a forma, o tema e o tempo do texto(Joyce, Mallarmé, Proust, Eliot, etc), o que o escritor de hoje faz com isso tudo? Sabemos que estas não são propriamente perguntas novas, mas a verdade é que as respostas variam. Para aqueles literatos que acreditam numa arte encastelada, a literatura deve buscar caminhos mergulhando em si mesma. Mas para aqueles que sabem que a história existe, não há saída literária fora da política. Tal conclusão deveria eletrizar escritores brasileiros que vivem às vésperas de uma greve geral, num país em que o conservadorismo come solto. A literatura de hoje deve ser uma arma contra a tempestade reacionária. Ao mesmo tempo, sabemos que a sede por justiça social não é garantia para obras literárias revelarem a necessidade de transformações políticas: é necessário pensar as qualidades formais das obras.

A literatura existe, sua relevância não desapareceu diante da avalanche digital (obras literárias são inclusive criadas mediante estes novos meios de produção). Ficou difícil saber qual é a “ tendência “ literária do momento, pois com a fragmentação da informação, a criação literária existe num sentido cada vez mais plural. Porém, este contexto não minimiza a perturbadora pergunta sobre a maneira como o escritor lida com as heranças estéticas da literatura moderna. Pensando no viés político das obras, existe um alargamento da sua função social, pelo menos no Brasil: além do problema econômico e da marginalização social se fazerem presentes na chamada literatura periférica, as questões de gênero ganharam força em manifestações recentes, sendo a obra literária um poderoso contexto para denunciar o racismo, a homofobia e o machismo.

O fato de um autor individualista de classe média não reconhecer o caráter político da literatura, o condena a uma existência artística privada. Ele pode até publicar obras dotadas de um estilo virulento, possuindo domínio da escrita e logo habilidade para expressar suas angústias e sua relação com o mundo. Isto não é crime, pode possuir méritos artísticos e até ajudar a entender o tipo de mundo em que vivemos. Obras de arte nunca devem ir para a fogueira: os leitores que interpretem o seu significado. Entretanto, se nossa análise de uma obra se dá a partir da compreensão do contexto histórico em que ela se insere, devemos apontar suas eventuais qualidades formais e ao mesmo tempo interpretar o seu sentido: a avaliação estética entrelaça-se inevitavelmente com conceitos como classe e ideologia. Se estes conceitos não são suficientes para explicarmos a gênese e a composição de uma obra( e tampouco eles determinam seu valor literário), eles são indispensáveis para avaliarmos a relevância, a função e o alcance da literatura no atual contexto histórico. Estamos pisando no território das convicções artísticas: a literatura não respira fora da história, sendo que suas exigências estéticas são as exigências de um determinado contexto econômico, político e cultural.

Uma primeira acusação feita contra aqueles que puxam a criação artística do céu em direção à terra, abrindo os olhos do escritor para a história, é que a literatura não seria teleológica. A história, e consequentemente a literatura, não possuem rumo? Se a história não tem sentido, sendo ela um mole espelho estilhaçado pelo culturalismo, a literatura seria um mero exercício pessoal sem maiores consequências sociais. O grande problema desta visão, é que ela colabora para que a literatura seja algo obsoleto: transmitir realidades humanas através da escrita, num mundo em que a ação humana não apresentaria a possibilidade de outros rumos históricos, é fazer da linguagem um luxo, um capricho verbal que torna-se um deleite de literatos e especialistas que se contentam em ficar no cantinho da cultura, enquanto os apelos visuais da tecnologia digital fazem todo o resto. Mas se nos arriscamos a pensar o futuro da literatura, então somos desafiados a refletir sobre a influência que a obra literária pode exercer sobre a consciência. Pode-se dizer inclusive que esta é uma preocupação que não nasceu de fora da literatura, mas a partir das conquistas estéticas da modernidade, que, diante do beco da página sem saída, a empurraram em direção à política.

Edmund Wilson, o mais influente crítico literário norte americano do século passado, expõe na sua obra O Castelo de Axel (1931) , que diante das heranças da literatura moderna, o escritor não poderia mais fugir ou confinar sua criação a um contexto privado, isolado da sociedade. Se Rimbaud, por exemplo, abandonou a literatura e se mandou para a África, não podemos fugir com ele: é em nome das transgressoras exigências modernas deste poeta maldito, que os poetas devem ficar e continuar a insultar o burguês. Sendo assim, se o escritor armado esteticamente com a modernidade decide ficar e encarar a história de frente, a política torna-se o combustível da escrita. Mas diferentemente do que muitos pensam, não é a submissão da escrita ao ditame político: o que passa a estar em questão é como os caminhos da literatura podem ficar grávidos de outra sociedade, da sociedade que desejamos.

No final da sua mencionada obra, Wilson diz que : (...) “Começa a importunar-nos novamente a questão de se é possível fazer da sociedade humana um êxito prático , e de, caso continuemos a malograr, umas poucas obras primas, por mais profundas e nobres que sejam, bastarão para tornar a vida digna de viver-se , mesmo para as poucas pessoas em condições de aprecia-las. “(...). Wilson, que serviu-se do marxismo para compreender a literatura (embora abandonasse mais tarde as ideias de Marx), acabou por influenciar um contexto cultural em que críticos e escritores norte americanos adotaram preocupações políticas em suas obras. Eram os anos de 1930... No Brasil, durante este mesmo período, não foi diferente como atesta a denúncia social que transborda nos romances dos grandes ficcionistas do nordeste(Rachel de Queiroz, Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, etc). Pois muito bem, se tudo isto é passado, como é que um artigo pode ter o topete de falar do futuro da literatura?

Para o marxismo um conteúdo histórico específico demanda formas específicas: a história não se repete, sendo que as obras literárias de uma época apresentam formas particulares que são determinadas por conteúdos particulares. Entretanto, observamos hoje situações sociais que, embora revelem um conteúdo histórico particular, apresentam temáticas que já inquietavam os escritores de outros períodos literários: a miséria, por exemplo, cresceu num mundo ainda regido pelo sistema capitalista. Se não podemos escrever como os poetas malditos do século XIX ou como os escritores engajados dos anos 30(o que seria puro idealismo), não podemos pensar a criação literária fora das lições estéticas destes autores que, há bem mais de um século, expressaram sua revolta e indignação contra a sociedade burguesa.

Escrever para meia dúzia ou fugir da realidade são tentações das quais o escritor atual não está livre. Sim, estes são velhos problemas que não foram superados nem politicamente e nem literariamente. Não basta que o escritor deseje dar seu recado político para que sua obra possua força literária. É preciso ler, estudar a boa literatura de combate e assimilar suas contribuições estilísticas. Novas estéticas(e quem sabe novas plataformas literárias) só podem se desenvolver através da leitura de obras que ainda ajudam a entender o mundo contemporâneo. Não é fácil querer ser lido num mundo em que a produção cultural é cooptada pelo capital, em que a capacidade de ler e interpretar criticamente a realidade são abaladas pela ideologia dominante. Entretanto, a história e suas representações em forma de poemas, romances e contos, estão em aberto. Se o futuro da literatura não for o futuro dos trabalhadores em luta, que os escritores amarguem nos seus castelos.




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