Política

FRENTE DO POVO SEM MEDO

Rumos do PSOL: dando os braços com o lulismo e PT em uma frente que não dá medo a ninguém?

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

sexta-feira 9 de outubro de 2015| Edição do dia

FOTO: Representantes de várias correntes do PSOL junto ao presidente estadual da CUT-SP e Guilherme Boulos do MTST

Em meio à crise econômica, política e acelerado processo de rupturas com o PT o PSOL tem evitado assumir uma posição de claro combate a Dilma, Lula, o PT e todo o governismo, focando suas críticas em Cunha e na direita.

Isso se mostra não somente nas intervenções de suas figuras (salvo algumas das correntes minoritárias), mas agora também no terreno do que eles pretendem camuflar como se fosse “de luta contra os ajustes". Depois de uma ala minoritária do PSOL ter se negado a participar do ato governista de 20/8 e ter participado do dia 18 que foi “contra o governo e contra a direita”, agora se reunificam em amplíssima maioria (até agora sem nenhum protesto) em uma política mais à direita do que meramente um ato de rua: lançam uma frente permanente com os governistas, a chamada “Frente Povo Sem Medo".

Além disso, se negam a tirar as lições da ruptura do seu único senador, Randolfe Rodrigues, e de seu único prefeito, Clécio de Macapá, que ingressaram na Rede de Marina Silva, e seguem colocando para dentro de seu partido figuras políticas que não tem nada a ver com a independência política da classe trabalhadora frente ao governo e partidos burgueses.

Viemos insistindo que neste cenário nacional, onde não podemos estar nem com a direita e nem com o governo, o PSOL poderia cumprir um papel fundamental de combate ao PT em especial buscando canalizar pela esquerda a insatisfação popular. Foi nesse sentido que votamos como MRT a política de entrar no PSOL para batalhar por uma orientação revolucionária neste partido, que tem como um eixo fundamental o combate ao PT e ao lulismo e sua influência na classe trabalhadora. No entanto, vamos aqui debater francamente contra essa política adaptada que se seguir aprofundando esse curso, o PSOL vai perder a oportunidade de se apresentar como uma verdadeira alternativa política frente à crise do PT.

Frente do Povo Sem Medo blinda CUT de seu papel de força auxiliar no ajuste contra os trabalhadores

A “Frente do Povo sem Medo” foi constituída no final de setembro como uma frente permanente com objetivos declarados de lutar contra os ajustes e contra a direita. São signatários da frente o MTST, MST, a CUT, CTB, a UNE e praticamente todas as alas do PSOL. No dia 6/10 várias referências do PSOL participaram de conferência de imprensa desta frente que será lançada neste 8/10, com a presença confirmada inclusive de Luciana Genro.

Unidades pontuais com setores governistas em torno de mobilizações concretas com pautas específicas e progressistas são possíveis e úteis aos trabalhadores. Quando a CUT chamou mobilizações contra o PL 4330 que amplia e precariza a terceirização era correto “golpear junto”, guardando toda independência para mostrar o papel de Lula e Dilma em ampliar a terceirização e também para exigir da CUT uma mobilização efetiva em suas bases.

Não se trata de nada parecido nesta frente. Por mais que possa convocar um ou outro ato e colocar críticas às medidas do governo para parecer que “luta contra o ajuste”, essa frente termina sendo um ponto de apoio para o governo pela via de seus agentes no movimento sindical e popular, a CUT, a CTB, a UNE e outros agentes governistas. A CUT está traindo todas as lutas em curso para defender o governo, basta ver a recente greve de correios e sua política de PPE nas indústrias. O PCdoB está votando a favor de todos os ajustes no congresso que ele dizem ser contra. Fechar os olhos para isso e lançar uma “frente permanente” com estes setores não pode ser mais do que uma bóia salva vidas para o governo e essas direções que deveriam afundar junto com ele.

Alguns componentes nesta frente com o petismo como Guilherme Boulos do MTST e Luciana Genro buscam justificar como esta frente seria de “esquerda” e não uma frente governista como a “Frente Brasil Popular” liderada por Lula e Stédile. Porém, como é possível diferenciar uma de outra, se grande parte dos signatários de um também são signatários da outra? Douglas Izzo, presidente da CUT São Paulo respondeu na coletiva de imprensa de lançamento desta Frente Povo Sem Medo, quando questionado sobre a relação desta com a Frente Brasil Popular: “a diferença é que esta Frente é exclusiva de movimentos sociais e a FBP tem partidos na organização (...) A CUT apoia, coordena e participa das duas frentes porque ambas atuam em defesa da classe trabalhadora e da população brasileira.” Ou seja, a CUT escancara o que o PSOL e o MTST querem ocultar, que no fim das contas as duas frentes são funcionais para o governo. Assim, o PT e o PCdoB podem seguir votando todos os ajustes e aparecer junto a outros setores da esquerda “lutando” contra eles pra tentar sobreviver no movimento dos trabalhadores e popular que está cada vez com mais ódio do governo, do PT e dos ajustes.

Já vimos como na manifestação de 20 de Agosto quando parte do PSOL (Insurgência, Unidade Socialista, entre outros) participaram junto ao MST nos atos chamados pela CUT como apareceram críticas ao ajustes e a Levy mas o tom geral, nacional, que primou foi o “defesa da Dilma contra o golpe”. Se isto aconteceu em um dia de ação pontual o que é possível ganhar em uma frente permanente com estes defensores de Dilma? O que neste acordo caminha-se para o combate ao lulismo, ao petismo, e ao papel concreto que CUT e CTB estão desempenhando para a aprovação dos ajustes nas fábricas, derrotas e isolamento das greves?

Deste modo constroem uma frente que coloca pouco medo. Não coloca medo nas patronais já que é uma frente com a CUT que ajuda a implementar o PPE, e também não mete medo no governo, em Dilma, em Lula, pois estão cientes do papel de CUT, CTB, UNE em auxiliar em sua defesa “contra a direita”, nem que para isto tenha que diminuir o “fogo amigo” contra os ajustes.

O pior é lançar essa política num contexto em que está cada vez mais claro, apesar do jogo político para ganhar votos e do sensacionalismo de alguns jornais, que o tal “golpe” não existe e que o PT e o governo estão fortalecendo eles mesmo a direita e colocando o governo cada vez mais em suas mãos.

Toda a pressão é principalmente para debilitar o PT, mas a chave é que a burguesia nacional e internacional não deixa de disciplinar todas as alas dos partidos da ordem para que garantam a governabilidade para aplicar os ajustes. Mesmo depois da reforma ministerial em que Lula negociou a rendição de Dilma e o controle dele (Lula) sobre o governo, unificando e centralizando o PT e concedendo tudo ao PMDB, ao ponto de entregar o Ministério da Saúde ao PMDB do Congresso e o Ministério de Ciência e Tecnologia para Eduardo Cunha e seu "pau-mandado" Celso Pansera? Como pode apoiar uma frente "contra o conservadorismo" com o PT que ajoelha ao "chefe do conservadorismo"?

PSOL e seus parlamentares: porque poupam Dilma, e Lula, os “pais” do ajuste?

Que a CUT, CTB, UNE não queiram combater “seu” governo e façam de tudo para isolar ou mesmo impedir greves de categorias que se choquem com o governo federal (como em correios, bancários e petroleiros) não é uma surpresa. O problema é o PSOL se negar em apresentar uma verdadeira alternativa política ao PT pela esquerda em meio à tamanha crise do petismo e do lulismo, ligando as denúncias contra o PT ao combate à direita, sempre clarificando que o PT a alimenta. Essa é a única forma de que não seja a direita que capitalize estas rupturas.

Os parlamentares do PSOL como figuras muito conhecidas poderiam cumprir uma papel chave nesta orientação, no entanto este não tem sido seu foco.

Não tem peso central sequer utilizar a tribuna da Câmara de Deputados contra os ajustes de Dilma-Lula-Levy, nem mesmo apoiar as medidas de luta tomadas pela CSP-Conlutas. Ao contrário, elogia-se os atos e marchas da CUT, MTST, CTB. Quase também não ganha importância na atuação parlamentar um mero discurso parlamentar em apoio às greves dos correios (Babá foi o único parlamentar que deu importância em aparecer publicamente em apoio), dos bancários.

É necessário combater Cunha, mas porque diminuir a centralidade de combater Dilma que aplica os ajustes? Porque também não combater também Lula que está por trás das nomeações do ministério Dilma-PMDB e é um dos articuladores destes ajustes e já declarou publicamente apoiá-los?

Não dar este combate fortalece a direita e Marina e sua Rede a se postarem como “anti-Dilma”, “anti-PT”. Não apoiar as greves em curso ativamente nem mostrar a necessidade de superar os limites impostos pela burocracia sindical governista dificulta a que surja uma força real de combate aos ajustes.

Uma atuação parlamentar e uma orientação partidária consequente na luta contra os ajustes exigiria denunciar implacavelmente não só a direita mas mais ainda quem nos ataca, Dilma e o PT, e ajudar os trabalhadores em greve a sua vitória.

Abertura ao petismo, fechamento aos revolucionários?

Esta política de frente permanente com petistas e governistas é complementada pela entrada no PSOL de políticos sem nenhuma trajetória da defesa da independência política dos trabalhadores frente ao governismo petista ou a partidos burgueses ditos progressistas.

Uma grande parcela da militância do PSOL e seus simpatizantes comemoram a saída do senador Randolfe Rodrigues e do prefeito Clécio do Macapá para o Rede Sustentabilidade de Marina Silva. Eram representantes de uma política “sem limites” que permitia alianças eleitorais com o DEM e usar a justiça contra os trabalhadores em greve. A saída destes dois deveria levar a uma conclusão de ruptura com estes oportunistas de todo tipo que tentam fazer carreira em partidos de esquerda, assim esperavam muitos militantes. Mas não é isto que as novas filiações apontam.

Já entraram no PSOL Brizola Neto que foi da direção nacional de um partido (PDT) que apoiou e apoia até hoje o governo Dilma. Também tem entrado políticos oriundos do PSB, como Glauber Braga (de Nova Friburgo – RJ) que foi presidente estadual deste partido que sustentou o lulismo por mais de uma década.

Enquanto as principais correntes do PSOL estão abrindo suas portas para estes deputados oriundos do governismo e correntes lulistas-petistas como a Esquerda Marxista, ao mesmo tempo as maiores correntes seguem colocando dificuldades para a entrada de uma corrente que dentro ou fora do PSOL busca combater o petismo e avançar uma perspectiva de independência de classe. Isso apesar de que a campanha do MRT pela entrada no PSOL já foi apoiada por diversas correntes internas, por figuras públicas como deputados estaduais e vereadores e intelectuais que apoiaram a entrada de uma corrente revolucionária neste partido.

No entanto, está em questão se vai seguir primando no PSOL este rumo de adaptação ao PT e ao governismo e de fechamento de espaço a correntes que defendam abertamente essa perspectiva em chave revolucionária como o MRT ou se, por outro lado, vão vir a se reposicionar forças que apontam em outro sentido, o de construir o PSOL como uma verdadeira alternativa pela esquerda ao PT.




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