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Rosa Luxemburgo e o problema estratégico da greve geral política

Gilson Dantas

Rosa Luxemburgo e o problema estratégico da greve geral política

Gilson Dantas

Um ponto que se destaca no debate de Rosa sobre greve de massas, contra Kautski, é o fato de ela ter a sensibilidade de perceber uma mudança qualitativa em termos da nova localização/peso da classe operária e da luta de classes na era imperialista.

Imagem por Bruno Portela

Não tem consciência até o final, por exemplo, que passos dar a partir da greve geral. Ela percebe que no campo da classe operária acaba de surgir um obstáculo no caminho da vitória, na burocratização dos sindicatos, do partido social-democrata, direção, de fato, da II Internacional.

Essa nova força, que emerge do final do século XIX para o início do século XX, é a aristocracia operária, base da burocracia operária e sindical. Esta vai operar como quinta coluna da burguesia no seio da classe operária, e como muralha contra o desenvolvimento da ação espontânea de massas.

Rosa percebeu esse fenômeno em sua expressão imediata, alemã, através da ossificação e da tendência do seu partido, a social-democracia alemã, ao reformismo. Seu livro Greve de massas é uma expressão disso, quando ela passa a defender a greve de massas política, revolucionária, assim como tinha sido, em outra medida, o seu Reforma ou revolução? Rosa está conduzindo um debate, no começo contra Bernstein [“pai” do reformismo] e, irá paulatinamente se contrapondo também a Kautski, aos cardeais do seu partido.

Kautski, diante do debate de Rosa em 1910, sobre a necessidade de transformar a greve geral em uma greve de combate, política, responde de forma conservadora, não aceita tal conversão política da greve. Mas ele trata de levar sua resposta para o plano estratégico tal como ele entendia a estratégia em relação ao proletariado.
Para ele, qualquer ação da classe operária terá que se prender e se limitar à esfera do desgaste e de exigências políticas e econômicas em relação ao governo instituído. Mas sem confronto. E somente concebe que a greve geral de massas possa ter um caráter de greve política apenas diante de uma situação de vida ou morte, e se deflagrada pelo partido, mesmo assim em um momento em que todo proletariado se posicione como poder único frente ao poder estatal.

Ou seja, abraça a estratégia de desgaste, inclui greve como parte disso, e remete qualquer projeto político para a greve, para um futuro remoto, idealizado e sempre dirigido pelo partido.

Ou seja, ele remete a greve política para o futuro, ao passo que Rosa propõe, que se considere a necessidade de politizar e preparar uma greve para abalar o poder político. E não no futuro.

O que a Rosa não resolve até o final, é a questão de como transferir o poder para o proletariado. Portanto, a questão insurrecional não é tematizada por ela.

Rosa está no campo estratégico correto, embora não indo até sua conclusão lógica.
Por exemplo, uma greve geral coloca a questão do poder. Como se viu em 1905. Rosa escreveu sobre 1905 [no seu Greve de massas], mas não tem uma definição frente a essa situação. Ela não resolve, a questão sensível de, por exemplo, como consumar a greve política de massas em tomada do poder, portanto, como parte da mecânica da insurreição, e de como, ali, equacionar a passagem do poder para o proletariado.

Ou seja, embora Rosa se coloque na perspectiva estratégica revolucionária, ao contrário de Kautski, ela não vai até o seu final lógico-estratégico, dando consequência, portanto, a uma estratégia oposta à de Kautski. Na verdade, ela defende a greve geral como uma forma de auto-intervenção e auto-organização das massas para sacudir um partido e uma burocracia sindical engessados. Ambos. E esse é o grande problema político-estratégico de Rosa na Alemanha.
Ou seja, ela percebe um partido imobilizado [inclusive na vigência das grandes greves de 1905 na Alemanha], e capta a ideia de que há uma nova barreira, interna, no caso a burocracia sindical e partidária.

O problema é que, ao mesmo tempo, essa mesma Rosa combate a concepção de partido de Lênin e, no real, ela segue abraçando a concepção de partido da II Internacional [onde o partido se confunde com a classe], ela está travada para levar aquela questão da greve geral política até o final, até seu desfecho político. E a direção do seu partido é contra.

Rosa é fiel a Marx na ideia do Manifesto, de que as massas somente podem contar consigo mesmas, com sua decidida ação de classe. Por seu lado, a direção da social-democracia, na figura, dentre outros, de Kautski, nega isso, na prática e na estratégia.

A burocracia sindical/partidária tenta regular, conter e adiar a possibilidade de uma greve geral de massas e política. E Rosa? Ela confia na ação das massas como mola propulsora para mudar o rumo do partido.

E se Kautski não define a questão do poder, e se se mantém na sua estratégia de desgaste, e Rosa se opõe, mas também é certo que Rosa aponta para uma saída pela metade.

Um dos seus méritos para a construção do marxismo: o de enxergar, adiante de Lênin e Trotski - sobretudo já naquele momento dos anos 1910 -, perceber e lutar contra o novo fenômeno histórico que Lênin não se dá conta antes de 1914, mas que, naquele momento, já empatanava a social-democracia alemã. Rosa lutava contra esse fenômeno.

Só que tomada por uma enorme tensão: lutava contra a burocracia partidária mas não por um novo partido, que se separasse, organicamente, da ala reformista e oportunista [ela o fará somente muitos anos depois, quando essa questão era colocada pela realidade da luta de classes de forma letal].

Historicamente, a verdade é que o surgimento daquela camada burocrática muda os termos da estratégia de poder no marco, portanto, de uma nova era, a do imperialismo.

Rosa, tendo sido mais precoce em detectar o novo fenômeno, não apresentará, no entanto, solução para ele. Seguirá presa ao partido social-democrata de direção oportunista, reformista e que já capitulara fragorosamente em 1914.

Lênin, partindo da experiência russa no século XIX, ao contrário, já elabora uma nova concepção de partido, mais de vanguarda [e de massas] e, por essa via, essencialmente, ele está criando a força material que se funde ao proletariado, levantando volume de forças para a revolução. É o partido leninista de combate.
Rosa não consegue captar a essência dessa nova concepção do partido. Ela só se desembaraça da social-democracia praticamente “na noite da revolução”.

Sua percepção é a de que Lênin está propondo um partido sectário, centralizado. Não percebe que Lênin propõe a criação de uma força política material proletária, revolucionária que, na Alemanha, por exemplo, seria a ferramenta – ao ganhar influência de massas, fundido à vanguarda proletária - para se contrapor a força material da burocracia.

Desde que vá se forjando como um partido delimitado do reformismo, em aberta luta contra toda tendência reformista, centrista, e desde que e tome o proletariado como o sujeito único e insubstituível da revolução. Essa era a concepção de Lênin. Ele jamais propôs um partido que substituísse o proletariado como sujeito político, ao contrário.

Lênin esteve forjando o partido que cria frações revolucionárias nos sindicatos, no parlamento [quando isso é possível], no seio do movimento operário, sempre na perspectiva de poder. E de poder de massas.

No caso de Rosa, ela tinha consciência da necessidade da força proletária, claro, mas se prendia a somente enxergar a força material do partido que já contasse com a forte presença da classe operária, de antemão, mesmo que sua direção fosse reformista; tendia, neste caso, a confundir e identificar partido de base operária com classe operária.

Apesar de ser a pioneira em denunciar o reformismo da direção do seu partido, mas valorizará, mais que tudo, o fato de que a social-democracia tinha parte importante do proletariado alemão nas suas fileiras.

Não colocava em primeiro lugar a constatação – sua, aliás – que o partido era um “cadáver pútrido” [em 1915] e que um partido sem delimitação de classe [amplo] é uma ferramenta enferrujada, sem fio e que só prepara traições.

Portanto, enxergava na social-democracia, uma vez que mudasse de política, a força material para fazer a revolução. O que significa não avaliar até o final o quanto, na verdade seu partido já estava travado pela burocratização, Rosa continuava acreditando no partido amplo, que inclui reformistas.

Quando na verdade, e no real, a força-partido já estava travada, no seu seio, pela emergência de uma força material contrarrevolucionária, a burocracia.

Lênin só enxerga a burocratização da social-democracia, sobretudo depois de 1914, quando esta entra na guerra a favor da sua burguesia e lança seu proletariado para ser chacinado no campo de batalha sob a bandeira do capital alemão.

Lênin vinha construindo o partido revolucionário de antes. Na estratégia de criar uma força material partidária, levando permanente debate político – ou luta de tendências - contra os mencheviques [oportunistas, partidários de uma aliança com a burguesia liberal], e Lênin vinha fincando frações revolucionárias no movimento operário, sempre apontando a perspectiva de poder de massas [operários e camponeses ao poder].

Por outro lado, historicamente, sempre se deve levar em conta que o oportunismo e o reformismo da social-democracia foram engendrados com base no desenvolvimento real, objetivo, da aristocracia operária. E que, diante desse fenômeno, tratava-se de criar o partido de novo tipo, para fazer frente a essa nova força material contrarrevolucionária, a burocracia sindical.

É certo que Rosa apontava para um elemento estratégico real quando se lança a mobilizar as massas, auto-atividade de massas, para sacudir a burocracia e afirmar o sujeito proletário de massas.

Mas é Lênin que dá conta desse problema de uma forma eficiente, ao contrário de Rosa, ao formular a criação da força material revolucionária na forma de partido com um projeto de poder, partido de quadros e de massas, coisa que já não correspondia à social-democracia, fundada na aristocracia operária, e que deixava de lado a maioria esmagadora do proletariado, mais explorada e mais combativa. E cuja linha, da direção, conciliava um discurso socialista com uma estratégia onde a insurreição está ausente, para dizer o mínimo.

Mas R Luxemburgo se apoiava no cálculo, problemático, de que a social-democracia, por ter consigo, milhões de operários, poderia, algum dia, fazer sua direção reformista girar para a revolução.

Neste item, Trotski não era qualitativamente diferente: ele, tampouco, tinha resolvido essa questão verdadeiramente estratégica. Mesmo que ele, como também Rosa [e é preciso dizer: também como Lênin], apostassem no proletariado como sujeito da revolução, revolução de massas, mas persistia a visão problemática da natureza da ferramenta partido.

Trotski, já em 1905, percebe a importância da greve política de massas como um meio para desorganizar o governo e o Estado, e impulsiona o soviete a partir da própria organização da greve, no sentido de assumir as funções do governo, como ele analisa em seu livro 1905-Resultados e perspectivas.

Mas deixava de pé a questão da passagem do poder, do partido revolucionário delimitado do reformismo, não tinha claro a necessidade do partido, como fração revolucionária dos sovietes capaz de levá-lo a evitar que cumpra o papel de conciliação de classe [como na revolução alemã de 1918-9]. Portanto um partido com delimitação de classe, onde não coubessem bolcheviques e mencheviques.
Na verdade, Trotski acredita, e por algum tempo debate contra Lênin, que bolcheviques e mencheviques “devem” se unir e dirigir a revolução. Ele subestima a ideia do partido construído desde antes com perfil revolucionário [não partido amplo, que inclui reformistas etc] embora, bem antes de Lênin, ele já é consciente de que a direção da Revolução Russa é proletária, e não uma “ditadura democrática de proletários e camponeses”.

Trotski somente enxergará o papel daquele partido com definida delimitação de classe e que luta por ter influência de massas através de Lênin, ao abraçar a concepção leninista de partido de novo tipo, e do caráter insubstituível do partido revolucionário, como elo necessário na estratégia para transferência do poder a partir da greve geral ou da ação revolucionária dos sovietes, da insurreição.

Então aquilo que aqui especialmente nos interessa, no debate Rosa-greve de massas, nos tempos históricos onde a burocracia sindical passou a ocupar o centro do palco em termos de reação contrarrevolucionária, é localizar o debate de Rosa contra a II Internacional estrategicamente. Ou seja, ontem como hoje, a burocracia é o grande obstáculo, mas a resposta deve passar pela frente única operária, no marco da construção de frações revolucionárias e que representem a estratégia de poder proletário, soviético, tarefa que partidos oportunistas/reformistas não podem levar adiante. ---.
Referências –
ESAM-Greve massas-texto de Castilla-Rosa e a greve de massas do IdZ de 20-1-2019. Tirem as mãos de Rosa.

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