Teoria

ROSA LUXEMBURGO

Rosa Luxemburgo, a questão do partido e o espontaneísmo das massas

Gilson Dantas

Brasília

sábado 11 de julho de 2015| Edição do dia

Rosa Luxemburgo tem seu lugar como uma das mais notáveis revolucionárias marxistas do século XX; sua obra – por exemplo sua crítica ao reformismo e ao oportunismo de esquerda – é atualíssima, e para Lenin, Rosa era “representante do marxismo sem falsificações” e ao integrar a insurreição proletária de janeiro de 1919 na Alemanha, “converteu seu nome em bandeira da revolução proletária”; o mesmo Lenin que reconheceu, em outubro de 1914, que Rosa Luxemburgo compreendeu muito antes dele, que Kautski possuía em alto grau o perfil de oportunismo político.

Como qualquer revolucionário, Rosa teve debilidades em determinadas posições, mas se pensamos em grande escala, nada disso questiona aquela sua localização no marxismo clássico revolucionário; Trotski (1935) é também incisivo neste ponto: “As deficiências de Rosa Luxemburgo de nenhuma forma são decisivas em seu pensamento”; embora hajam aqueles que tratam de generalizar e exagerar ao máximo tais debilidades e “sobre esta base constroem um sistema totalmente absurdo”. E é neste amplo sentido, argumenta ele, que Rosa tinha razão quando contrapunha a espontaneidade da ação das massas contra a linha oficial do aparato social-democrata e teve também razão quando em 1918 a revolução alemã eclodiu “espontaneamente” contra toda precaução e toda previsão do aparato social-democrata.

Nos marcos da esquerda, há, no entanto, um debate recorrente que procura levantar uma imagem de Rosa como defensora da teoria do espontaneísmo, na contramão da lógica e do papel do partido, da ferramenta política consciente da classe trabalhadora. Para “descobrir” esta Rosa, normalmente amplificam ou descontextualizam o debate entre Rosa e Lenin/ bolcheviques.

Neste caso, o primeiro problema vem a ser de tentar levantar uma pretensa Rosa contra a Rosa real. O que revela, no mínimo, um desconhecimento importante não apenas da prática política da Rosa em sua maturidade, como também do próprio debate em seus marcos temporais, históricos.

O debate entre Rosa e os bolcheviques realmente existiu e de fato mais de uma vez Rosa defendeu a greve geral e a ação “espontânea” das massas sem o cuidado de mostrar os limites da greve geral em si mesma (para resolver a questão de poder) e da ação ”espontânea”. A Revolução Russa, a Alemanha com Hitler, e todo o século XX, mostraram que a espontaneidade por si só não basta para a vitória sustentada do proletariado.

Nos limites desta nota vamos apenas chamar a atenção para o “debate” que a própria Rosa trava consigo mesma, isto é, suas reflexões no curto período de meses, em meio ao caldeirão da insurreição de Berlim, da Alemanha, quando ela sai da prisão e se lança a construir o partido comunista alemão. (Registrando que não vai ser possível focar aqui, a questão da democracia revolucionária em Rosa).

Uma coisa é valorizar o combate de Rosa, quando ela apontava sua teoria da espontaneidade – que na verdade jamais chegou a ser uma teoria acabada ou fechada – contra o aparelho burocrático do seu partido, a social-democracia; outra é voltá-la contra Lenin, em sua construção da ferramenta revolucionária - partido comunista - que defendia a estratégia de “todo poder aos conselhos de operários, soldados e camponeses”. Na própria Rosa, aquela crítica a Lenin “apenas ocorreu episodicamente. Ela era demasiado realista, no sentido revolucionário, para desenvolver os elementos da teoria da espontaneidade até chegar a convertê-la em um sistema metafísico consumado. E, na prática, ela própria minava esta teoria a cada passo” diz Trotski (1935).

Os que pretendam usar Rosa contra a construção leninista do partido, vão ter que escolher entre um manuscrito escrito por ela na prisão, muito fraco teoricamente, sobre a Revolução Russa – e que ela nunca publicou – e sua atividade prática. Ao invés de publicar o manuscrito, ela se dedicou a agrupar e preparar a vanguarda para o partido da revolução proletária; esta ação prática e cotidiana da Rosa no calor da revolta proletária de 1918, nos faz crer, como argumenta Trotski, que “dia a dia ela se aproximava da nítida concepção teórica de Lenin sobre direção consciente e espontaneidade”. O que tem a ver com seu trabalho febril em seus últimos meses, de reunir a vanguarda proletária para por de pé o partido. Poucos dias antes de ser assassinada, Rosa proclama a necessidade de “um centro encarregado de organizar a classe operária berlinense”; sua perspectiva é clara, de se lançar, politicamente, ao “todo poder aos sovietes”. Esta é a Rosa real.

Aliás, Mandel, com acertada razão, nos faz lembrar que o entusiasmo de Lenin e de Trotski pelas poderosas explosões espontâneas de massa, pela greve geral é o mesmo de Rosa Luxemburgo. “A diferença entre a teoria leninista de organização e a chamada teoria da espontaneidade – que só pode, aliás, ser atribuída a Luxemburgo com importantes reservas – reside, portanto, não em uma subestimação da iniciativa das massas, mas na compreensão de seus limites. (...) Os limites da espontaneidade das massas começam a ser perceptíveis se se compreende que uma revolução socialista vitoriosa não pode ser improvisada (...) e a `pura` espontaneidade das massas reduz-se sempre à improvisação”.

No século XX, grandes energias e sacrifícios da classe trabalhadora foram desprendidos e invariavelmente se colocou a mesma questão – a qual Lenin se ocupou de resolver – a da falta da ferramenta política que nucleasse os operários mais avançados, as organizações de massa mais ativas e decisivas dos trabalhadores. Como duvidar de que em tempos imperialistas, tempos de crises, guerras e revoluções, o elemento determinante da situação mundial seja a resolução da crise da direção política da classe trabalhadora?

O fato de Rosa ter fundado o partido comunista polonês, de ter, ao longo da sua vida se esforçado por educar, antecipadamente, uma vanguarda política, revolucionária e proletária, é muito demonstrativo de que ela jamais adotou, de forma fechada, qualquer concepção fatalista/espontaneísta sobre a revolução social.

Mesmo em seu manuscrito de prisão, quando Rosa critica aos bolcheviques por sua política agrária, de autodeterminação nacional e na questão da democracia formal, esta mesma Rosa destaca “a ação firme, a previsão e a coerência revolucionárias: tudo isso o fizeram Lenin, Trotski e seus camaradas; toda a honra revolucionária e a capacidade de ação que tanto lhe faltam à social-democracia ocidental, os bolcheviques demonstraram possuir. Sua insurreição de outubro salvou não apenas a Revolução Russa mas também a honra do socialismo internacional”. Observe-se que Rosa não separava Lenin de Trotski, como se tornou costume nos meios stalinistas e também oportunistas de esquerda. Naquele mesmo texto, Rosa conclui:”neste sentido, Lenin, Trotski e seus companheiros foram os primeiros em dar o exemplo ao proletariado mundial. Agora continuam sendo os únicos que podem gritar: nós ousamos!"

Lembremos que Rosa, que anos antes criticara os bolcheviques por terem fechado a Assembleia Constituinte em 1918, enquanto defendiam “todo poder dos sovietes” (conselhos operários), ela mesma irá se opor agora, ao chamado de eleições gerais na Alemanha, mostrando que não fazia da democracia formal um fetiche. Em outras palavras, passo a passo ela vai fechando o ciclo do raciocínio: sovietes mais partido, greve geral mais partido. E por essa via, da prática política, ela “dialoga” com suas ideias anteriores e, por essa linha de conduta, ela mesma implode qualquer imagem póstuma de uma pretensa Rosa “teórica do espontaneismo”, uma Rosa anti-Lenin. Mandel remonta à experiência do século XX, e da própria Alemanha dos anos 1920, onde não faltou a explosão de massa; maturidade e preparação do partido comunista foi o elemento decisivo para a não-vitória proletária e para os acontecimentos políticos nefastos que viriam a seguir.

Não deixa de ser, portanto, uma deturpação vulgar de Rosa Luxemburgo, que vai contra sua seriedade política e organizativa, a ideia de se usar seu nome hoje para acalentar uma futura ação de massas que tudo resolverá, um processo histórico “espontâneo”, um eterno ponto cego tático de uma anti-estratégia que não era a de Rosa Luxemburgo.

Reduzir Rosa à fórmula abstrata de que a revolução social se resolve na espontaneidade não permite resolver a mais profunda crise da classe trabalhadora, a da construção da sua direção política. Para os grandes acontecimentos e convulsões revolucionárias, a classe trabalhadora vai necessitar, sim ou sim, de direções revolucionárias temperadas, construídas em torno do programa consciente, e que ajude a desenvolver o proletariado como sujeito político consciente. É isto ou a derrota.

A insurreição é um processo que se organiza conscientemente: a greve geral tem capacidade para por na agenda o problema do poder, mas não tem como resolvê-lo. Sem rebelião de massas não há revolução, mas para organizar a tomada do poder e sustentá-lo se faz necessária a ferramenta política dos trabalhadores. Esta é uma conclusão de Lenin – articular a insurreição de massas à conspiração organizada, ao assalto ao poder para desbancar a burguesia - à qual Rosa foi se acercando passo a passo. Conclusão incontornável para a vitória da classe trabalhadora.

Referências:

Luxemburgo e a IV Internacional, Trotski, 1935 [Disponivel no site: http://www.ceipleontrotsky.org/ ].

E. Mandel, excerto do texto saído no International Socialist Review de dezembro 1970. Lenin, Notas de um publicista, 1922 [Disponível no site do MIArchive na web] .

Ver biografia política de Rosa Luxemburgo no site: http://centelhaculturallivros.blogspot.com.br/




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