Cultura

TROPICÁLIA

Rogério Duarte: do sol tropicalista à névoa marginal

Um pouco sobre a vida e a obra do designer gráfico, músico, poeta e tradutor Rogério Duarte (1939-2016), que nos anos 1960 ajudou a definir os horizontes estéticos do tropicalismo.

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

terça-feira 6 de setembro| Edição do dia

Rogério Duarte nasceu em Ubaíra, interior da Bahia, no dia 10 de abril de 1939, na sede da fazenda que fora de seu avô e onde seu pai instalara o quartel general de sua empresa de energia elétrica. Logo depois sua família se estabeleceu em Salvador, capital baiana. Segundo Rogério, em sua obra Tropicaos (2003), ele só pode frequentar a escola aos nove anos de idade devido às doenças tropicais que contraiu nas viagens que seu pai fazia acompanhado da família ao interior da Bahia para construir usinas hidrelétricas.

Neto de desembargador, filho de empresário do setor de energia, sobrinho do educador Anísio Teixeira e do jurista e romancista Nestor Duarte, Rogério nasceu numa família rica e teve uma formação sólida. O jovem tímido viveu entre os livros da biblioteca do pai. Foi aluno de Martim Gonçalves na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia.

Com a ajuda de seu tio Anísio Teixeira ganhou uma bolsa de estudos e foi para o Rio de Janeiro em 1959 estudar desenho industrial. Trabalhou como programador gráfico, foi diretor de arte da editora Vozes e coordenador do Departamento de Artes Visuais do Centro Popular de Cultura (CPC), ligado à União Nacional dos Estudantes (UNE).

O CPC foi criado em 1961, no Rio de Janeiro e o projeto reuniu atores, diretores de teatro, músicos, cineastas, artistas plásticos, poetas e escritores. O objetivo do projeto era a construção de uma "cultura nacional, popular e democrática". Seus idealizadores defendiam uma "arte popular revolucionária" como instrumento de conscientização das massas e transformação social.

Influenciado pelas políticas stalinistas do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Centro de Cultura Popular rejeitavam as vanguardas artísticas, a pintura abstrata, a pop art, a música dodecafônica, com as quais Rogério tinha tido contato no Museu de Arte Moderna da Bahia, como estudante de artes plásticas e membro da Escola de Teatro. Duarte, marxista e admirador de Franz Kafka e James Joyce, criticou a caretice reacionária stalinista e as políticas conservadoras do CPC. Foi taxado de "porra louca", burguês vanguardista e recebeu o apelido de Rogério Caos.

Em 1964, burguesia e Forças Armadas dão um Golpe Militar e instalam uma Ditadura Militar-Burguesa no Brasil. O prédio da UNE no Rio de Janeiro é incendiado e os artistas ligados ao CPC são perseguidos pelo regime ditatorial. Neste ano fatídico Rogério fez o cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme do cineasta Glauber Rocha, importante nome do Cinema Novo.

No ano de 1967, Duarte assina o cartaz do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha. 67 é o ano da explosão tropicalista. Terra em Transe, o livro PanAmerica de José Agrippino de Paula, a exposição Tropicalia de Helio Oiticica, Alegria, Alegria de Caetano Veloso, Domingo no Parque de Gilberto Gil e a montagem da peça O Rei da Vela de Oswald de Andrade pelo Teatro Oficina, marcam este momento estético e político que chacoalhou a cultura no Brasil.

Apoiados na antropofagia proposta por Oswald, os tropicalistas deglutiram Beatles, Bumba Meu Boi, Chacrinha e vomitaram transgressão/ironia na sala de jantar. O objetivo era produzir uma arte não colonizada sem cair no tosco nacionalismo defendido pela esquerda tradicional e por outras cabeças ocas. Conseguiram? Meros palhaços da indústria cultural? A descoberta de Jimi Hendrix foi para o jovem designer baiano uma bomba atômica. LSD, bananas elétricas, araras, cocaína e heroína. Psicodelia brasileira.

Em 1968, Rogério Duarte assinou o cartaz do filme Cara a Cara de Júlio Bressane e a capa do primeiro álbum solo de Caetano Veloso. Segundo o tropicalista do caos, esta capa era uma espécie de ready made porque a ilustração era um padrão, como certos tipos de gravuras medievais, com um dragão que vem de um quadro do pintor Rafael. No mesmo ano fez a capa do segundo disco de Gilberto Gil, onde o músico e compositor baiano veste um fardão da Academia Brasileira de Letras.

A barra pesou e em abril de 1968 Rogério e seu irmão Ronaldo Duarte foram presos ao tentar participar da Missa de Sétimo Dia de Edson Luis, estudante assassinado pela policia do Rio de Janeiro. Rogério e Ronaldo foram torturados durante dez dias. A prisão dos irmãos mobilizou artistas e intelectuais e mereceu ampla divulgação no extinto jornal carioca Correio da Manhã, que chegou a publicar uma carta coletiva pedindo a libertação dos Irmãos Duarte. Os dois foram os primeiros a denunciar publicamente a tortura no regime militar. Após a prisão/tortura Rogério Duarte vai amargar algumas internações em hospitais psiquiátricos. O diagnóstico foi: psicose maníaco-depressivo, demência precoce ou esquizofrenia.

No dia 10 de junho de 1968, Rogério Duarte e Hélio Oiticica organizaram no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ) um encontro intitulado Cultura Loucura Brasileira. Segundo o texto que Oiticica preparou para o debate é um grande erro transformar a cultura em algo comportado digno dos lares recatados da burguesia. Para o artista plástico carioca tudo vale, principalmente o que violente o nosso conformismo de cada dia.

Em julho de 1968, Duarte, Oiticica e a artista plástica Lygia Pape organizaram a manifestação coletiva Apocalipopotese, realizada no Aterro do Flamengo/RJ, da qual fizeram parte os Parangoles de Oiticica, Os Ovos de Pape e o Dog’s Act de Duarte. Apocalipopotese (fusão das palavras apoteose, hipótese e apocalipse) foi uma manifestação de arte pública. Conforme o crítico de arte e curador do evento Frederico Moraes, a manifestação tinha o objetivo de democratizar/dessacralizar a arte no Brasil, até então confinada nas galerias e museus.

Dezembro de 1968 é assinado o Ato Institucional n 5, o AI-5. A barra pesa mesmo. A Ditadura Militar-Burguesa instala o terror no Brasil. Trabalhadores, estudantes, militantes de esquerda, LGBT e artistas são presos, torturados, exilados e mortos. A censura é institucionalizada. O tropicalismo e outras manifestações artísticas são estranguladas. Clandestinidade e medo.

Pau de arara, choque elétrico e afogamento no começo dos anos setenta. Apagaram o sol tropicalista. Tempestades e Negócios. O beijo agora fica engasgado na garganta. Alguns incendiários dos anos 1960 viraram bombeiros/estrelas da TV. Duarte se aproxima das religiões orientais e continua resistindo, mas agora uma resistência alucinada. Contracultura. Underground. Marginália.

Em 1971, com o escritor gaúcho Luis Carlos Maciel e o poeta baiano Waly Salomão, lançam o jornal alternativo Flor do Mal. Em 1974 assina as capas dos LPs Cantar de Gal Costa e do segundo disco de Jorge Mautner. Neste mesmo ano participa da revista experimental Navilouca, publicação que circulou apenas uma edição. Em 1975 assina a capa do LP Qualquer Coisa de Caetano Veloso.

1980, Rogério assina a trilha sonora e o cartaz de Idade da Terra, último filme de Glauber Rocha. Em 1987, volta para a Bahia. No início dos anos 1990 passou a lecionar no Departamento de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em 1998 tem sua tradução do épico hinduísta Bhagavad Gita - Canção do Divino Mestre editada pela Companhia das Letras. Em 2003 é publicado o livro Tropicaos pela editora Azougue Editorial. Em 2011 publica Gita Govinda - A Cantiga do Negro Amor.

Rogério Duarte faleceu aos 77 anos no dia 13 de abril de 2016 vítima de um câncer. Assim como o poeta Torquato Neto, que se suicidou no começo dos anos 1970 e o escritor José Agrippino de Paula que morreu no ostracismo, Rogério Duarte foi um dos tropicalistas que os grandes meios de comunicação fizeram/fazem questão de esquecer/esconder. Tropicalista? Mas não é só Caetano, Gil e Gal?




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