Economia

TECNOLOGIA E CAPITALISMO

Robotização, desemprego e miséria social. Os males do avanço tecnológico no capitalismo

Não espanta ninguém afirmar que houve um grande avanço tecnológico no período histórico que compreende o capitalismo. Escrevo isso sentado em frente ao meu notebook feito de peças que produzidas em várias partes do mundo, e provavelmente com mão de obra barata em condições precárias, com luz fornecida de energia de hidroelétricas que provavelmente retirou milhares de famílias de suas casas, além de, ao longo da história, causar milhares de casos similares ao da Samarco. Nesse texto abordaremos um pouco dos impactos que a tecnologia traz para o ser humano no capitalismo, as relações do homem com a natureza e o um legado de Marx sobre o tema.

quarta-feira 26 de julho| Edição do dia

Em recente notícia publicada na Folha sobre o avanço da robótica na indústria têxtil, onde curiosamente é ainda um ramo que não consegue ser totalmente automatizado e onde se gerou a primeira revolução industrial, se comenta como novas inovações podem retirar o emprego precário de milhares de trabalhadores.

Com investimentos de grandes grupos empresariais como o Walmart e marcas de roupas famosas, o projeto visa “eliminar” o trabalho humano empregado no processo de confecção de roupas. Se por um lado poderíamos pensar que deixaria o serviço mais fácil, reduzindo jornadas de trabalho e aumentando o salário proporcionalmente à produtividade, no capitalismo pode se transformar no terror de países como Índia e China, com desempregos crescentes. Por outro lado, não poderíamos defender também a continuidade do trabalho precário e em situações de semi-escravidão que acontecem nesses países.

Um olhar marxista sobre o tema

No livro I de O Capital Marx nos dá algumas definições sobre a relação do homem/natureza: “O processo de trabalho, tal como o apresentamos em seus movimentos simples e abstratos, é atividade orientada para a produção de valores de uso, apropriação do natural para os carecimentos humanos, condição geral do intercâmbio material entre homem e natureza, eterna condição natu¬ral da vida humana e portanto independente de todas as suas formas sociais”.

O trabalho sempre foi algo inerente ao homem e à sua sobrevivência enquanto espécie. Contudo, nunca antes na história da humanidade chegamos à um nível tão grande do uso da natureza e suas variações na produção. A grande produção submete, antes de tudo e em larga escala, as forças da natureza, como o vento, a eletricidade, a água, o vapor, ao processo produtivo direto, transformando-as em agentes sociais.

Na grande produção, a utilização das forças da natureza viram agentes sociais a partir do momento em que se emprega trabalho na transformação da natureza para se adaptar ao processo produtivo, o que não acontecia em sociedades pré-capitalistas que se utilizavam da agricultura e estava ao sabor das variações de clima e temperatura.

Esse emprego de fatores da natureza, enquanto agente social que prescinde de trabalho. É acompanhado do desenvolvimento da ciência enquanto algo “autônomo” da produção em um primeiro momento. O capital não cria a ciência, mas antes se apropria dela para a produção de mercadoria e para a sua reprodução social e ideológica enquanto modo de produção. Não à toa vemos nas universidades um grande interesse de empresas privadas, tanto no sentido de guiar o conhecimento e a ciência voltadas ao mercado, quanto para dela fazer enquanto uma instituição que sirva ao capitalismo.

A tecnologia e o Trabalho

Um economista burguês, John Maynerd Keynes, em um artigo denominado “As possibilidades econômicas para nossos netos” de 1930 escreveu que em 100 anos estaríamos trabalhando 3 horas por dia, num total de 15 horas por semana graças ao progresso técnico trago pelo capitalismo.

Em que se pese não é de se acreditar que em 13 anos jornadas de trabalho de 10 ou 8 horas por dia caiam até 3. Na verdade, o que se vê com o avanço da política neoliberal pelo mundo é a possibilidade do aumento da jornada de trabalho, aumentando a mais valia absoluta nos conceitos de Marx e uma maior precarização do trabalho, que aliado ao emprego de uma maior tecnologia como a robótica afetariam na mais valia relativa.

O conceito de mais valia absoluta e relativa em Marx são conceitos bastantes amplos, mas que, de forma grosseira, a absoluta significaria um maior excedente produzido pelo trabalhador a partir do aumento de sua jornada de trabalho, enquanto que na relativa esse excedente aumentaria a partir do aumento da produtividade advindo de progresso técnico.

Quase 100 anos depois da profecia de Keynes, o progresso técnico avançou em termos nunca antes vistos. Com a robótica e a inteligência artificial, podendo causar uma revolução tecnológica nos mesmos níveis ou maiores que as que a antecederam.

Contudo, isso não se reverte em uma diminuição na jornada de trabalho ou em aumentos salariais diretos e proporcionais ao aumento da produtividade. A medida que se diminui o tempo necessário socialmente para a produção de mercadoria, o que se vê por um lado é um aumento da jornada de trabalho ou em processos de demissão em massa, que visam reduzir os custos de produção.

A lógica do capitalismo em última instância não é a do progresso técnico para a melhoria da vida humana, mas a do aumento e valorização do capital. Contudo, é verdade que a maquinaria, a internet, os computadores e todo o avanço técnico dos últimos séculos no capitalismo transformaram a vida da população global, mas não é verdade dizer que era isso que se buscava com o progresso técnico e o avanço da ciência em si.

Tanto é que hoje, a relação do capitalismo com a natureza chega em níveis tão alarmantes que por um lado bloqueia e guia a ciência que poderia ser boa para o progresso humano, como curas de doenças entre outros, e ao mesmo tempo chega em um nível de devastação que pode explodir o planeta.

Apenas com o fim do capitalismo, e toda a lógica que esse modo de produção acarreta, podemos ter uma ciência e tecnologia que pense e sirva em última instância para os interesses sociais. E que de fato possa nos tirar da escravidão assalariada, aproveitando o aumento de produtividade para jornadas menores de trabalho, onde a produção de mercadorias seja pensado a partir de nossas necessidades e não na do lucro.




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