Economia

ECONOMIA INTERNACIONAL

Robótica, produtividade e geopolítica

Os temores do G-20 em Hangzhou. Fenômenos políticos e novas experiências. Acordo Transpacífico, globalização, democracia liberal e autonomia nacional. Estados Unidos e China: tecnologia e produtividade.

Paula Bach

Buenos Aires

sábado 10 de setembro| Edição do dia

Há alguns dias culminava a reunião do G-20 em Hangzhou, China, concluindo em sua declaração que o ano de 2016 poderia ser o mais perigoso economicamente desde 2009. O organismo expediu múltiplas advertências entre as quais ressaltam o crescimento da desigualdade, o declínio ou estagnação da renda real entre 65% e 70% das famílias nas economias avançadas, a insegurança no mercado de trabalho, a crise mundial de refugiados sem precedentes, o risco de uma escalada protecionista e a necessidade de apontar as “vantagens” da globalização, entre muitos outros. Entre tantas descobertas mais ou menos esperáveis, chama atenção a referência simultânea, tanto à debilidade da inversão e a produtividade em “alguns países”– leia-se os centrais – como à necessidade de enfrentar uma “próxima revolução da produção”

Esta esquizofrenia discursiva é em grande parte reflexo da “esquizofrenia empírica” que combina extraordinários avanços tecnológicos com um alarmantemente débil incremento da produtividade durante os últimos anos. Como abordamos de variados ângulos em diversos artigos, a profundidade da crise capitalista mundial em curso tem muito a dizer a respeito do dualismo que contrapõe a produtividade com a tecnologia em geral, e com a robótica em particular. Esta contradição – um fato não ordinário, mas tampouco original na história – é manifestação do caráter extraordinário do estancamento econômico que se desenrola diante dos nossos olhos.

Fora do comum (a ortodoxia e o extraordinário)

Analisávamos até algum tempo em Estagnação secular, fundamentos e dinâmica da crise, diversas características que permitem comparar o processo que se iniciou em 2008 com as maiores convulsões econômicas da história do capitalismo. Mencionamos lá como definição mais geral que enquanto a crise atual se destaca pelo que tem de específico e original, ela compartilha com as de 1873, 1929 ou 1970 a particularidade de ser chamada a intervir na anatomia global em termos tanto econômicos como políticos e geopolíticos. Em alguns aspectos – e como por vezes ocorre – a realidade avançou para além de nossa análise, proporcionando novos argumentos.

Como também defendemos nesta coluna, uma crise não catastrófica, mas persistente acabou derivando em novos fenômenos políticos que poderiam – ao menos a médio prazo – desbaratar o estratagema das “elites dirigentes” que mostraram bastante experiência na administração da crise durante os últimos anos. Em certo sentido, Donald Trump e Bernie Sanders podem ser interpretados como símbolos antecipatórios de uma eventual e futura necessidade de políticas mais “radicais” que o atual gradualismo ordenado do establishment.

Entre elas, experimentos bonapartistas de direita ou possíveis “new deals”. Não se pode descartar que uma mudança na gestão da crise termine derivando não de uma nova catástrofe econômica direta – nunca descartável – mas sim das consequências políticas de quase 8 anos de estagnação. A litania pouco convincente do G-20 a respeito da ineficácia das políticas monetárias e a necessidade de pôr em prática medidas urgentes que estimulem a demanda, incluindo obras públicas, fim da austeridade e aumentos salariais, adquire o formato de um discurso preventivo.

Concomitantemente, os efeitos larvais de uma economia estagnada transformados em novos fenômenos políticos – cujo desenvolvimento atingiu a velocidade de cruzeiro durante o último ano – têm consequências sobre as relações interestatais. A crise dos acordos comerciais que se expressa tanto nas negociações pós-Brexit como nas turbulências nos Estados Unidos em torno do Acordo Transpacífico (TPP), promete repercutir sobre a geopolítica e outra vez sobre a economia. O TPP que busca agrupar 40% da economia mundial excluindo a China e mantendo a influência estadunidense no Pacífico é considerado o pivô do giro asiático de Obama. É visto por sua vez como um fator de agudização dos efeitos desindustrializadores e deslocalizadores da globalização enquanto busca novas vantagens externas para as multinacionais estadunidenses, destruindo postos de trabalho, reduzindo salários e rebaixando ainda mais a qualidade do emprego nos Estados Unidos. Justamente a oposição a este acordo é um ponto central da campanha de Trump, foi um eixo da de Sanders e obrigou Hillary a prometer que acabaria com o acordo, contra seu programa original.

Um artigo recente do Financial Times adverte que uma ocasional presidência de Donald Trump poderia provocar a reestruturação do poder na Ásia e uma reconfiguração geopolítica. Um maior isolacionismo estadunidense poderia empurrar seus aliados para os braços da China, principal rival de Trump. Os autores afirmam que Tóquio e Seul se preparam para enfrentar as mudanças que virão depois das eleições nos EUA. Mudanças associadas fundamentalmente a um incremento dos gastos de defesa e a possível morte do Acordo Transpacífico que segundo certos analistas – que por sua vez buscam influir politicamente – poderia significar o fim da globalização liderada pelos Estados Unidos. Talvez o mais interessante do artigo acima mencionado é a afirmação de que mesmo com uma vitória de Hillary – altamente provável apesar da nova guinada de Trump, adicionamos – poderia acelerar essas mudanças, e que para além de que Trump seja ou não eleito presidente, o lado obscuro do isolacionismo seguirá infiltrando na política estadunidense podendo torná-la mais fechada.

Em um sentido mais “ideológico” pronunciou-se Martin Wolf em consonância com as declarações utópicas do G-20 que pregam um equilíbrio entre os direitos dos investidores internacionais, os dos Estados e outras partes envolvidas em fazer acordos sobre comércio e investimento. Wolf vincula bem política e geopolítica apontando as incompatibilidades entre democracia liberal, autonomia nacional e globalização econômica, sobretudo nos momentos em que, como disse, uma mistura venenosa de desigualdade crescente e diminuição do crescimento da produtividade torna a democracia intolerante e o capitalismo ilegítimo. As migrações massivas como fator comum da globalização resultaram, na visão de Wolf, responsáveis pelos maiores conflitos entre as liberdades individuais e a soberania nacional, criando fricções entre a democracia nacional e as oportunidades da economia global. Um pouco do que analisamos nesta coluna conceituando como fracasso do êxito neoliberal.

Wolf teme pelo matrimônio entre a democracia liberal e capitalismo global e adverte sobre o maior fantasma, que em uma espécie de reedição dos cenários dos anos 30, poderia dar lugar àquilo que define como um “capitalismo nacional controlado”. Em seu afã por salvar o par democracia liberal/capitalismo global, retorna à questão dos tratados comerciais, perguntando-se um tanto retoricamente se vale a pena promover novos acordos internacionais que suprimam as regulações nacionais em favor das corporações existentes. Concordando com um conselho de Summers, recomenda priorizar o “poder dos cidadãos” frente à “harmonia criada” ou as “barreiras derrubadas”. Remata sentenciando que não se pode perseguir a todo custo a ganância resultante do comércio. Ou seja, moderação e um tipo de propaganda “isolacionista” preventiva ou alguma concessão à “autonomia nacional”, para salvar o globalismo...

China: entre a geopolítica e a robótica

Diante de tudo isso, no terreno das alianças geopolíticas as hipóteses de realinhamentos abundam na Síria – outra das maiores preocupações do G-20 como o “Salão de baile” no qual começam a se mostrar novas e ainda indefinidas relações perigosas. Dentro desta hipótese – entre as quais se inscreve a escalada de um novo cenário de guerra fria russo-estadunidense – há quem especula que desde o ascenso ao poder do reformador liberal Xi Jinping, a China estaria abandonando a aversão à intervenção militar nos conflitos estrangeiros. Analisamos reiteradas vezes os problemas da transição chinesa e sua relação com o baixo crescimento global por dois longos anos tendem a converter em salvo conduto para os capitais excedente do mundo desenvolvido em competidor de espações mundiais de acumulação.

A necessidade de abandonar um sistema de trabalho intensivo, incrementando a automação, a robótica e a produtividade tem dois lados e objetivos. Deriva-se tanto dos limites externos do “modelo exportador” de produtos de baixo valor agregado como da perda relativa da vantagem salarial e a – também relativa – escassez interna de mão de obra. Os objetivos sintetizam-se por um lado na necessidade de um giro ofensivo na captação de novos mercados tanto para a produção – utilizando mão de obra barata no exterior – como para o transporte de mercadorias e a aquisição de tecnologia. E por outro lado, a necessidade de criar uma base nacional de consumo suficientemente ampla.

Em última instância e em termos marxistas, trata-se da meta combinada de aumentar a obtenção de mais-valia absoluta fora e mais-valia relativa no interior da China. Questão esta que, para além do disciplinamento da força de trabalho, permitiria o aumento concomitante de lucro e salários reais à custa da redução do salário relativo. Consiste na dificultosa tentativa de forjar a base social de setores de trabalhadores comparativamente bem pagos – condição necessária de toda nação imperialista –, que nos países centrais se debilita progressivamente, pondo em questão o status quo vigente. Digo mais prosaicamente: a China almeja conquistar internamente o que os Estados Unidos e o Reino Unido estão perdendo e que já acarretou a aterradora consequência do vertiginoso ascenso de Trump, o UKIP, a ala de extrema-direita do Partido Conservador, e finalmente, o Brexit.

No quarto trimestre, como observou outra nota do Financial Times, o governo chinês está promovendo a automatização, e em 2014 Xi Jinping reivindicou uma “revolução robótica” visando transformar “a China e o mundo inteiro”. Mas os contrastes neste campo – como em todos – resultam na comoção do gigante asiático. A China possuía em 2015 em torno de 36 robôs para cada 10.000 trabalhadores industriais segundo a Federação Internacional de Robótica (FIR).

Isto significa uma concentração de robôs 14 vezes menor que a da Coreia do Sul, 10 vezes menor que a da Alemanha e em torno de 2,5 vezes menor que a dos Estados Unidos. No entanto, e também segundo o Financial Times, desde 2013 estaria adquirindo mais robôs industriais por ano que nenhum outro país, incluindo os gigantes de fabricação de tecnologia high-tech como Alemanha, Japão e Coreia do Sul. De acordo com a FIR, no decorrer deste ano a China superaria o Japão como maior operador de robôs industriais do mundo, exibindo um ritmo de transformação “único na história dos robôs”.

A necessidade de aumentar a produtividade exige por sua vez transformar em parte a fisionomia e o destino dos capitais chineses, privilegiando a aquisição de tecnologia em detrimento de matérias primas. Para atingir este objetivo, e segundo outro artigo do Financial Times, a Alemanha está se convertendo no principal alvo chinês na busca tecnológica. Até agora a China adquiriu quase tantas empresas alemãs como em todo ano de 2015, entre 35 e 40% do investimento na Alemanha durante o ano em curso provém da China.

Recentemente, após a comoção da elite política alemã, a aparente insatisfação de Merkel e as múltiplas idas e vindas, a empresa chinesa de eletrodomésticos Midea acabou comprando – o que representou a maior aquisição chinesa de uma empresa alemã – 95% das ações da Kuka, uma das empresas de engenharia mais inovadoras do país, mais conhecida pela utilização de grandes robôs industriais na fabricação de carros e aviões – segundo o Financial Times – e que está investindo em máquinas mais inteligentes para enviar e receber dados desde a nuvem e conectar-se com a “Internet das coisas”. Antes da compra da maioria acionária, Kuka acabava de lançar ao mercado o robô estrela Liwa, um “assistente inteligente de trabalho industrial” que é capaz até de servir um copo de cerveja ou preparar uma xícara de café.

A necessidade da China de captar tecnologia, conquistar novos mercados, reconverter a economia contraindo o crescimento – sem cair demais – e alcançar uma maior ingerência internacional no terreno político e militar, será em grande parte condicionada ao menos por dois fatores. Por um lado, as múltiplas contradições acumuladas – entre elas um crescimento da dívida privada em 70% em relação ao PIB, entre 2007 e 2014, que impedem de excluir a possibilidade de uma explosão interna. Por outro, o giro está em boa medida sujeito ao novo mapa geopolítico em configuração, uma parte significativa do qual resultará influenciado pelas implicações políticas de quase oito anos de estagnação econômica como apontamos mais acima. De imediato, e como consequência do Brexit, o projeto conjunto sino-britânico, com investimento chinês para construir a usina nuclear Hinkley Point, ficou momentaneamente sob revisão. O projeto é a estrela da nova relação entre China e Reino Unido e é fundamental para uma maior presença militar internacional do gigante asiático. É preciso ver como se desenrola o próximo capítulo, já que muitas vozes apontam que logo após a saída da União Europeia, a relação comercial entre o Reino Unido e a China tornou-se chave. E, além disso, muito diferente será o cenário de a China sofrer um cerco com o tratado transpacífico, que no caso de uma eventual morte do TTP lhe outorga mais ar para avançar.

Paradoxos globais

Voltando ao início e somente para apontar uma linha do que aprofundaremos num próximo capítulo, parece impensável abordar a lacuna entre inovação tecnológica e produtividade, independentemente do atual emaranhado múltiplo da economia, a política e a geopolítica, que a condiciona. O paradoxo da globalização, a democracia liberal, o Estado e as consequências da crise, que tão bem descreve Martin Wolf, é na realidade o substrato do paradoxo entre as novas tecnologias e a produtividade.

As parcas oportunidades para a acumulação do capital nos Estados Unidos que explicam o processo de deslocalização – tratados de livre comércio, incluídos –, e, portanto, o escasso investimento interno, exigem imperiosamente a obtenção de novos “espaços em branco” e fontes externas de mão de obra barata. Assim, um processo de investimento em território nacional que permita a aplicação em grande escala das novas tecnologias, substrato único de um incremento enérgico da produtividade, resulta inimaginável na situação atual da economia norte-americana. Trata-se de um paradoxo bastante insolúvel por agora, embora esta “normalidade” é cada vez mais indigesta e opõe de forma quase explícita as necessidades do capital com os interesses da base social que lhe dá sustento. A contradição faz pensar a necessidade/possibilidade – a médio prazo – de um giro político frente à gestão da crise econômica, questão que explica os temores de Wolf de cenários similares àqueles dos anos 30. Se, ao menos por agora, e como levantamos em “A fúria populista que comoveu o mainstream", o discurso de Trump transborda demagogia discursiva porque não expressa os interesses imediatos do grande capital “globalizado”, o desenvolvimento daquela contradição está convocado a criar novos cenários. E é importante frisar que apenas experimentos hipotéticos de maior “controle” estatal sobre o capital poderiam propor uma resolução da aparente contradição entre avanço tecnológico e produtividade. Embora pelo que nos diz a história e como bem expressa Robert Gordon em sua visão retrospectiva de ascensão e queda do crescimento americano, somente o poder da Segunda Guerra Mundial fechou contundentemente a lacuna entre desenvolvimento tecnológico e produtividade manifesta ao longo das décadas dos anos 1920 e 1930. Como já alertamos, dedicaremos a este assunto um próximo capítulo.

No caso da China, um salto qualitativo na automação, na “robótica” e na produtividade – para além dos condicionamentos apontados no parágrafo anterior – é inimaginável separado da exportação de capitais, da conquista de novos mercados, da capitação de fontes de tecnologia ou da transformação de sua estrutura produtiva. O chamado “giro ao mercado interno” é complementar à exportação de capitais, o que significa que o objetivo de superar a baixa produtividade endêmica, decorre em paralelo à necessidade de conquistar novos espaços no mundo para enfrentar o que começa a manifestar-se como problemas de superprodução e superacumulação. Xi Jingping expressou com toda clareza: “Não só temos que atualizar nossos robôs, também temos que conquistar mercados em muitos lugares”. Um tipo de trilogia entre robótica, produtividade e –provavelmente – maior militarismo, inseparável da crise econômica e suas derivações políticas e geopolíticas. Algo que o comando de voz da “revolução robótica” acompanha a conversão da China em um competidor pelos espaços mundiais para acumulação de capital.




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