Teoria

TRABALHO E PANDEMIA

Ricardo Antunes lança novo livro “Coronavírus: o trabalho sob o fogo cruzado”, veja trechos inéditos

Conheça um pouco mais sobre “Coronavírus: o trabalho sob o fogo cruzado”, a mais nova obra de Ricardo Antunes, um dos principais intelectuais brasileiros da sociologia do trabalho contemporânea, professor titular do departamento de sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.

sexta-feira 19 de junho| Edição do dia

Após suas contribuições mais recentes no terreno da sociologia do trabalho, como a organização de Riqueza e miséria do trabalho no Brasil, em quatro volumes, ou o livro de sua autoria O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços da era digital, ambos lançados pela Boitempo Editorial, desta vez Ricardo Antunes traz ao mundo do trabalho seu lançamento Coronavírus: o trabalho sob o fogo cruzado, também pela Boitempo.

Trata-se de uma necessária reflexão sobre os efeitos da crise sanitária global nas relações entre o capital e os distintos setores da classe trabalhadora, em sua diversidade de gênero, sexual, racial e étnica.

“Assistiu-se a verdadeiros experimenta in corpore vili [experimentos num corpo sem valor], como aqueles que os anatomistas realizam em rãs. ” — Essa citação, retirada de O Capital, de Marx, abre o novo livro de Ricardo Antunes.

São cinco capítulos, onde o autor nos traz um panorama das relações entre capital e força de trabalho, resgatando os impactos e transformações da última crise capitalista global, de 2008-2009, na nova morfologia vivenciada duramente pela classe daqueles que sobrevivem de seu próprio trabalho e seus setores mais precários para, então, discutir o aprofundamento e novos marcos colocados pela pandemia do novo Coronavírus a um sistema social já marcado pela brutalidade e penúria de massas. "O que se poderá esperar, então, em relação à classe trabalhadora? O que o sistema de metabolismo antissocial do capital tem a oferecer à humanidade que depende de seu trabalho para sobreviver?"

O primeiro capítulo trata das vésperas da pandemia, com dados e exemplos das relações de trabalho já açoitadas pela uberização, mas que em meio à crise sanitária ganha contornos mais dramáticos, tanto na principal economia imperialista do mundo, os EUA, como nos “tristes trópicos”, mas Antunes argumenta que, se os efeitos da crise trazem calamidade global, é justamente nestes últimos, em países como o Brasil, que sua promessa assume um caráter “verdadeiramente desesperador” à amplas camadas dos proletários.

"No Brasil, onde vivenciamos desde sempre formas intensas de exploração do trabalho e de precarização ilimitada, as consequências são ainda mais perversas do ponto de vista social. Só para dar alguns exemplos, antes da pandemia, mais de 40% da classe trabalhadora brasileira encontrava-se na informalidade ao final de 2019. No mesmo período, uma massa em constante expansão de mais de cinco milhões de trabalhadores/as experimentava as condições de uberização do trabalho, propiciadas por aplicativos e plataformas digitais, o que até recentemente era saudado como parte do "maravilhoso" mundo do trabalho digital, com suas "novas modalidades" de trabalho on-line que felicitava os novos "empreendedores"."

O segundo capítulo traz um resgate teórico de István Mészáros, com seu desenvolvimento analítico da metáfora que Marx usa em O Capital, do metabolismo social para explicar os mecanismos e engrenagens em movimento nesse sistema social “cada vez mais autofágico”, como ressalta com precisão Antunes.

"Essas desafortunadas tendências encontram, a partir da crise de 1968-1973 e especialmente em 2008-2009, um chão social mais favorável, que lhes permitiu, pouco a pouco, ressurgir e se intensificar, com seus conhecidos desdobramentos: ritmos estonteantes de corrosão do trabalho; destruição ilimitada da natureza; degradação do mundo rural, convertido em agrobusiness e em zona de extrativismos predatórios; segregação urbana e social, etc. Acrescente-se ainda a forte eugenia social, a exacerbação do racismo, a opressão de gênero, a xenofobia, a homofobia, o sexismo, além da propagação do culto aberrante da ignorância, do desprezo à ciência, dentre tantos outros traços destrutivos que se desenvolvem nesta era de exasperação da razão instrumental e de contrarrevolução preventiva, para recordar Hebert Marcuse e Florestan Fernandes."

No capítulo terceiro, Ricardo Antunes discute sobre a imbricação brutal entre o metabolismo social do capital, de caráter “antissocial”, “destrutivo” e “autofágico”, sua “crise estrutural” e a crise sanitária do Coronavírus. Resgatando também a definição de David Harvey, de que a Covid-19 exibe todas as características de uma epidemia de classe, gênero e raça” (HARVEY 2020), Antunes remarca como as dimensões da tragédia amplificadas pela pandemia terá traços mais aterradores na periferia do capital, como é o caso do Brasil e tantos outros países. É neste caṕítulo também que nosso autor aprofunda na definição de que serão os setores mais oprimidos da classe trabalhadora, fagocitados pela precarização do trabalho em sua nova morfologia, a sentir com maior intensidade essas mazelas sociais impostas.

"Dada a divisão sociossexual e racial do trabalho em sua nova morfologia, as mulheres trabalhadoras brancas sofrem mais que os homens brancos (basta ver que os altos índices de violência doméstica e feminicídio se ampliam durante a pandemia), enquanto as trabalhadoras negras são ainda mais penalizadas que as brancas (veja-se o exemplo das trabalhadoras domésticas no Brasil, que totalizam 6,2 milhões, das quais 68% são negras). (...) É desnecessário acrescentar, então, que as discriminações de classe, gênero e raça se intensificam ainda mais quando contemplamos as trabalhadoras indígenas, imigrantes e refugiadas."

E segue, para mostrar a contradição dos discursos universais de cuidados sanitários:

"Tudo isso acrescenta uma visceral contradição que atinge a totalidade da classe trabalhadora, que se encontra sob fogo cruzado: é preciso que haja isolamento social e quarentena para se evitar o contágio pelo coronavírus. Sem isso a classe trabalhadora será cada vez mais contaminada, adoecendo e perecendo em maior quantidade. Mas como ficarão em isolamento social os/as desempregados/as, os/as informais, os trabalhadores/as intermitentes, os/as uberizados/as, os/as subutilizados/as, os/as terceirizados/as isto é, aqueles que não têm direitos sociais e que recebem salários somente quando executam algum trabalho?"

No quarto capítulo, após aprofundar no anterior aspectos e dados que reafirmam essa nova morfologia cruel do trabalho, Antunes interroga sobre o futuro então que terá o trabalho nesse cenário complexo e agravado que sintetizou como de capital pandêmico. Aqui faz uma provocação aos adeptos das teorias do fim do trabalho do final dos anos 1970, que já foram contestados (inclusive por nosso autor em sua reconhecida obra Adeus ao trabalho?, de 1995), mas que viram mais uma vez o caráter essencial profundo da classe trabalhadora para a produção e reprodução de de todas as dimensões da vida humana e para a reprodução do próprio capital.

"Sem trabalho, é impossível a geração de coágulos de valor e de riqueza social. E mesmo quando se recorre à ação do universo maquínico-informacional-digital, este só consegue fazer deslanchar o complexo produtivo global por meio do ato laborativo humano, que é imprescindível, nem que seja para ligar, conectar e supervisionar o maquinário digital com suas tecnologias de informação e comunicação, inteligência artificial, big data, internet das coisas etc."

Segue, então, apontando como então o capital, parasitário por natureza, busca driblar esse caráter essencial irrefutável que é a classe operária:

"Como seu sistema metabólico não pode prescindir do trabalho (porque sem ele não existe riqueza social), lhe resta depauperar, dilapidar, corroer e destroçar a força humana de trabalho sem, entretanto, eliminá-la completa e cabalmente."
Por fim, no quinto e último capítulo, Ricardo Antunes se posiciona entre aqueles que acreditam que o capitalismo pode ser substituído por um novo “sistema de metabolismo verdadeiramente humano-social”, apresentando, como está já nos ideais defendidos pelo próprio Marx no século XIX, uma outra dimensão do trabalho, onde é imprescindível "trabalhar só no estritamente necessário para a produção de bens socialmente úteis, com menos horas de trabalho diário. Assim, é preciso reinventar o trabalho humano e social, concebendo-o como atividade vital, livre, autodeterminada, fundada no tempo disponível, contrariamente ao trabalho assalariado alienado, que tipifica a sociedade do capital, inclusive (e de modo mais intenso) na fase informacional-digital."

O desfecho do último capítulo e do livro traz uma afirmação tão verdadeira quanto provocativa, fica para a necessária reflexão e como incentivo à leitura integral do “livreto”:

"A ideia de que o socialismo acabou é uma ficção que, infelizmente, encontra muitos adeptos. Se o capitalismo levou pelo menos três séculos para se constituir (se pensarmos desde a acumulação primitiva até a revolução industrial), por que o socialismo teria que ter se constituído e acertado, em sua plenitude, em um único século?"




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